“DA IGREJA QUE TEMOS PARA UMA IGREJA
À LUZ DO CONCÍLIO VATICANO II NA AMÉRICA LATINA”
(Texto n.º 7 em preparação ao Encontro Nacional de MFPC, 2012)
DEUS CHAMA, MAS A HIERARQUIA DA IGREJA NÃO APROVA
Passei a Semana Santa em um povoado do sul de Minas Gerais, que dista quatorze quilômetros da sede da paróquia. Tenho conhecimento de que nesta comunidade católica a Eucaristia é celebrada uma ou, no máximo, duas vezes por mês, de modo que se pode afirmar que não há o memorial da morte e ressurreição de Jesus no domingo, como pede a liturgia, desde a mais remota antiguidade cristã.
Acompanhei atentamente a celebração do Domingo de Ramos dirigida por três mulheres: a coordenadora da comunidade, a ministra da Palavra e a ministra extraordinária da comunhão eucarística. O povoado inteiro estava presente. Havia mais de duzentas pessoas, pois no domingo muitos visitam os parentes que moram no “bairro”. Tudo se desenvolveu de forma impecável. Os fiéis se reuniram à beira do rio que corta o povoado. Houve a “bênção” dos ramos, a procissão em direção à capela, a liturgia da Palavra solenemente proclamada pela ministra da Palavra, a “homilia” pronunciada pela coordenadora da comunidade e a distribuição da eucaristia feita pela ministra extraordinária. Tudo dentro da mais perfeita ortodoxia doutrinal e litúrgica.
Na Quinta-Feira Santa apareceu um padre enviado pela paróquia que presidiu a missa da Ceia do Senhor e depois foi embora. Nos outros dias da Semana Santa a comunidade voltou a se reunir sob a presidência e coordenação das três mulheres. No domingo o padre voltou para celebrar a missa do domingo de Páscoa.
Este fato, comum a milhares e milhares de comunidades eclesiais espalhadas pelo mundo inteiro, revela que a hierarquia da Igreja Católica não consegue colocar em prática a máxima evangélica que pede atenção aos “sinais dos tempos”. Ela continua afirmando que a Eucaristia é o centro e o ápice da Igreja. Continua proclamando em seus documentos que a Eucaristia faz a Igreja. Insiste em dizer que onde não há Eucaristia não há Igreja Católica. Tudo isso é verdade, não resta nenhuma dúvida, mas, em sua insensibilidade aos apelos divinos, a hierarquia continua permitindo que o absurdo dos absurdos aconteça. Permite que milhares e milhares de comunidades, como esta do sul de Minas, fiquem sem a celebração eucarística dominical. Ficam elas sem poder vivenciar e testemunhar a própria identidade, uma vez que, segundo os documentos oficiais da Igreja, é a celebração eucarística, presidida por um ministro ordenado, que melhor expressa a identidade católica.
Diante de absurdos como esse, fico a me perguntar para que serviu a realização, algum tempo atrás, de um ‘ano eucarístico’. Interrogo-me também sobre o sentido de um ‘ano sacerdotal’, celebrado recentemente. No meu entender serviram apenas para fomentar beatices e reconfirmar as mesmices eclesiásticas. Estes dois eventos não trouxeram contribuição efetiva alguma para a solução de problemas tão graves como este da falta da celebração eucarística dominical e que já começa a afetar a identidade católica. Um bispo da Amazônia me dizia, há algum tempo atrás, que em muitas das comunidades de sua diocese o povo fica até anos sem a celebração eucarística. Ele estava preocupado porque isso está contribuindo para a perda da identidade católica. De tanto celebrar ‘cultos’, as comunidades já estão perdendo a noção e a experiência do que seja a celebração eucarística. Este mesmo bispo, chegando certa vez a uma dessas comunidades, após ser recebido com muito entusiasmo pelo povo, foi convidado a presidir ‘o culto’!
E não podemos aceitar a desculpa de que não há o que fazer. Existem soluções possíveis, bem ortodoxas e em plena sintonia com a mais genuína tradição eclesial. São muitas as pessoas, inclusive bispos, que não se cansam de oferecer alternativas possíveis e concretas. Se a situação chegou a essa extrema gravidade é porque a hierarquia da Igreja é incapaz de ler os sinais dos tempos, não abre mão de um modelo de Igreja arcaico e ultrapassado, se fecha na própria autossuficiência e se recusa a voltar às raízes do cristianismo.
Aponto, por exemplo, uma solução simples, ortodoxa, ecumênica e bem antiga. O Concílio de Calcedônia, celebrado no ano 451, no seu cânon 6, declarou sem efeito e proibiu as chamadas “ordenações absolutas”, ou seja, aquelas ordenações em que o ordenando não tivesse sido designado antes como ministro de uma igreja, cidade, povoado, santuário do interior ou mesmo de um mosteiro. Para ser ordenado diácono, presbítero ou bispo o ordenando deveria e deve ser designado antes como ministro de uma comunidade à qual servirá por toda a vida. Caso isso não aconteça, a ordenação se torna inválida, uma vez que, para a Igreja antiga, o ministério só tinha sentido quando voltado para o serviço de uma comunidade específica. Havia, pois, uma relação direta entre ordenação e comunidade eclesial. Detalhe que infelizmente hoje quase não se observa mais. Existem inclusive relatos de ministros que, na Igreja antiga, foram ordenados de novo, quando por qualquer motivo, tiveram que deixar a comunidade a que serviam e foram transferidos para outras localidades.
Mesmo deixando de lado a possibilidade da ordenação de mulheres, uma vez que isso assusta e causa mal-estar à hierarquia, a proposta continua válida e atual. Em todas essas comunidades, inclusive naquela do povoado do sul de Minas, existem os chamados “viri probati”, homens casados ou até solteiros, cuja fé é inabalável e cuja vida é marcada por um testemunho heróico de fidelidade à Igreja. Estes homens, muitas vezes juntos com suas mulheres, animam, sustentam, catequizam e dinamizam essas comunidades. A ação é tão incisiva que em certos lugares, toda a população se mantém católica, graças à ação evangelizadora dessas pessoas.
Pergunta-se então porque a Igreja Católica não resolve o grave problema da falta da Eucaristia, ordenando estes homens para presidirem a celebração eucarística dominical nestas comunidades. Seguindo à risca o cânon 6 do Concílio de Calcedônia, seria possível ordená-los exclusivamente e somente para a presidência da celebração eucarística dominical de uma determinada comunidade. Pelas normas do Concílio de Calcedônia eles ficariam impedidos de presidir a celebração eucarística em uma comunidade para a qual não foram designados antes da ordenação. Poderiam até participar como concelebrantes em uma celebração eucarística presidida pelo bispo diocesano, mas nunca poderiam presidir fora de sua comunidade designada.
Portanto, soluções existem. O que falta é boa vontade e conversão da hierarquia católica, a qual insiste em manter a todo custo um modelo de ministério totalmente ultrapassado e não mais em condições de atender às necessidades pastorais da Igreja dos nossos tempos. No 4º Domingo da Páscoa vamos ter a Jornada Mundial de Oração pelas Vocações. Puro desperdício e perda de tempo, pois é inútil pedir a Deus que mande vocações quando, com sua atuação concreta, a hierarquia impede que essas vocações se concretizem. As vocações não faltam. Elas existem e em abundância. O que falta mesmo é a humildade para se perceber que as formas de chamamento divino não coincidem mais com aquelas que a hierarquia aprova no momento.
Quando, finalmente, surgirá a manhã da ressurreição para a Igreja Católica? Nem o próprio Deus sabe, pois tudo está nas mãos da hierarquia!
Autor deste texto, publicado na revista virtual ADITAL: José Lisboa Moreira de Oliveira
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De fato é essa a realidade de nossas comunidades. Não há como manter a identidade cristã católica sem aquilo que é inerente a sua natureza: o memorial da paixão-morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vivemos numa correria pra realizarmos tantos cursos e encontros, que são necessários. Vivemos numa confusão, pra muitos parece que tanto faz ser católico ou de qualquer seita. Portanto, não basta a base da Igreja se esmerar, pois é preciso se esmerar juntos: base e hierarquia. A hierarquia sabe das dificuldades da base da Igreja, mas pouco age no sentido de abrir-se para uma nova realidade que bate as portas. A base da Igreja, por outro lado, labuta todos os dias, vai fazendo aquilo que é possível. É como diz o ditado: “se não temos cachorro vamos caçando com gato”. Muitas dificuldades e soluções, a própria base da Igreja, que são as comunidades, apontam, porém é preciso que nossos pastores se detenham e escutem a voz que ressoa sobre a vida de nossas comunidades.
Carlos, são excelentes as suas observações/críticas. Parabéns!
Giba