Para entender a fala do Papa e a reação (descabida) da Turquia.
Um genocídio do qual os atuais governantes e os turcos de hoje não têm nenhuma culpa. Mas negando-o comportam-se como se fossem culpados.
Por Antonio Ferrari – 13 abril de 2015
Muitas vezes, basta apenas uma menção para causar a reação da Turquia. Reação quase sempre exagerada porque Ancara se recusa, obstinadamente, a reconhecer que em seu passado distante (um século atrás) há uma mancha indelével, que se chama “genocídio armênio”.
Genocídio do qual os atuais governantes e os turcos de hoje não têm culpa, mas negando-o comportam-se como se fossem culpados. De fato processam escritores, jornalistas, intelectuais: em suma, todos aqueles que recusam submeter-se à censura das instituições.
Que tenha havido um “genocídio” é incontestável. Pode ser definido de outra forma o extermínio de quase um milhão e meio de armênios em 1915?
Na época, a Turquia, que na Primeira Guerra Mundial era uma aliada da Alemanha, e já ciente da desintegração final do Império Otomano, decidiu fazer uma drástica operação de limpeza étnica, lançando uma campanha feroz. Com um objetivo claro: eliminar radicalmente aquela odiosa minoria cristã (uma das mais antigas), que ousava opor-se ao poder central do gigante muçulmano.
Uma operação ditada por monstruoso cinismo. As deportações começaram exatamente como as que aconteceram, algumas décadas mais tarde, com os judeus. O próprio Adolf Hitler, em 1939, se referiu ao extermínio dos armênios como a um fato “do qual ninguém mais fala”.

Presidente armênio, Serj Sargsyan
Salvaram-se apenas aqueles que conseguiram fugir das cidades e dos campos mais expostos, que procuraram esconder-se, ou os que foram protegidos por algum corajoso “Justo”, (1) (havia muitos também na Turquia), pronto a ajudar as vítimas pondo em perigo a própria vida.
Na doce Aleppo, a cidade síria que agora está parcialmente destruída por uma terrível guerra civil, há um hotel (quem sabe se suas paredes ainda estão em pé), chamado de “Baron”, que hospedou clandestinamente centenas de armênios, passando-os depois aos cuidados de famílias que não aceitaram as ordens do poder central.
Até poucos anos atrás, na Turquia, era uma crime gravíssimo falar, por qualquer motivo, do genocídio armênio. Bastava uma declaração (o caso de Orhan Pamuk), ou um romance (o caso de Elif Shafak) para ser denunciado e ser julgado por um tribunal, como um criminoso qualquer.
Agora que entre Turquia e Armênia há uma certa normalização das relações, a tensão diminuiu. Consequência das últimas eliminatórias para a Copa do Mundo, quando as seleções dos dois países se defrontaram, e os respectivos chefes de Estado se cumprimentaram, apertando as mãos.
Numerosos estudiosos turcos se declaram prontos a discutir esta “mancha” que faz cem anos em 24 de abril. Muitos agora aceitam a ideia de que houve um “massacre sistemático” do povo armênio, embora alguns sustentem que a população armênia, em território turco, não chegava a um milhão de pessoas. Alguns vão mais adiante e até aceitam a palavra “genocídio”.
Claro que, para a sensibilidade de Ankara, foi como chicotada a dura e autorizada fala do Papa Francisco, que disse que o armênio foi o primeiro genocídio do século 20, seguido pelo dos judeus e, agora, pelo dos cristãos massacrados por fundamentalistas islâmicos assassinos.
Numerosos historiadores e observadores internacionais se interrogam, há décadas, sobre as razões da obstinação dos turcos. Para embaixadores e conselheiros de uma das mais eficientes diplomacias do mundo, a turca precisamente, é ponto de honra explicar e refutar as críticas que se se adensam sobre Ankara.
Está em discussão não apenas o problema linguístico ou terminológico (“genocídio” ou “massacre sistemático”?), mas também uma acusação que, desde o início do século passado, foi dirigida contra os arménios: a de ter ficado do lado do maior inimigo da Turquia, a Rússia. Que tenha havido destacamentos de soldados enquadrados nas Forças Armadas de Moscou, não há dúvida.
Mas tudo isso, obviamente, não justifica o extermínio de um povo. Mesmo hoje, quando a Arménia é um Estado independente, e que se coloca como uma ponte entre a Eurásia e a União Europeia, a Rússia está sempre no centro dos interesses económicos de Yerevan, como explicou ontem a este jornal o presidente armênio.
(1) O articulista usa o termo “justo” em referência à expressão “justos entre as nações” utilizada atualmente pelo Estado de Israel para designar os não-judeus (gentios ou “góis”) que, durante o Holocausto, arriscaram suas vidas para salvar judeus.
Tradução de: Orlando F. da Rocha Almeida /Goiânia
Antonio Ferrari
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