Em defesa da ética e da democracia

Os partidos que se reivindicam a favor dos princípios democráticos devem dar um exemplo concreto de que não são coniventes com nenhuma forma de corrupção.

HSBC

Nos últimos anos, os governos vêm fortalecendo as instituições de controle e repressão ao crime

 “A crítica meramente moralista, como ocorreu nas recentes manifestações de março, a este estado de coisas ao criminalizar a política e, em particular, responsabilizar o governo e o principal partido que o sustenta, adquire um caráter hipócrita, preconceituoso e intolerante. Conduz, unicamente, à negação da política e a um niilismo que se expressa em ódio e irracionalidade”.

Raul Pont – 10/04/2015 – Copyleft

Os fatos e os desdobramentos recentes da Operação Lava-Jato, a denúncia de que milhares de brasileiros aparecem na lista das contas da agência suíça do HSBC e o escândalo das empresas sonegadoras no CARF (Conselho de Administração de Recursos Fiscais) demonstram o caráter sistêmico da corrupção em que o país está imerso há décadas e que agora vem se revelando de maneira aberta e transparente.

Nos últimos anos, os governos vêm fortalecendo as instituições de controle e repressão ao crime e elas agem com liberdade e sem constrangimentos governamentais, amparadas em legislações mais rigorosas. Nos governos petistas acabou a figura do “engavetador geral”.

A ampliação e a total autonomia do Ministério Público e da Polícia Federal para cumprirem suas funções constitucionais, conquistas da nossa democracia nos governos Lula e Dilma, comprovam, tanto no episódio da Petrobrás, quanto no das contas secretas na filial do HSBC na Suíça, o envolvimento de grandes empresários, da tecnoburocracia das empresas públicas, da máfia operadora de paraísos fiscais e, agora, de dezenas de parlamentares.

A Operação Zelotes revela uma prática antiga. Não se paga em dia os tributos, sonegam-se contribuições para depois discuti-las administrativamente ou em juízo. O CARF era um velho instrumento para diminuir débitos ou eliminá-los através de consultorias ou escritórios de advocacia em conluio com os dirigentes do próprio órgão. Grandes empresas gaúchas estão envolvidas: Gerdau, RBS e Marcopolo. Comprova, ainda, que a prática da corrupção vem de longe sem que as instituições do Estado estivessem preparadas e aparelhadas para combatê-la.

A crítica meramente moralista, como ocorreu nas recentes manifestações de março, a este estado de coisas ao criminalizar a política e, em particular, responsabilizar o governo e o principal partido que o sustenta, adquire um caráter hipócrita, preconceituoso e intolerante. Conduz, unicamente, à negação da política e a um niilismo que se expressa em ódio e irracionalidade.

Hipócrita porque o sistema capitalista que vem destruindo as conquistas do mundo do trabalho e sua cultura cotidiana estimulam o ganho fácil, a vantagem esperta e, no caso brasileiro, ainda temos um sistema eleitoral que facilita e estimula a corrupção.

O TSE informa-nos que, nas eleições de 2014, mais de R$ 5 bilhões de reais de empresas, pessoas jurídicas, financiaram e elegeram centenas de candidatos em todo o país. A análise dos dados comprova a relação entre poder econômico, as campanhas mais caras e os eleitos.

Objetivamente, financiamento de candidatos escolhidos, doações eleitorais, propinas, compra de votos, separam-se por uma linha quase invisível do “financiamento legal” das empresas.

Preconceituoso e intolerante porque o monopólio midiático escolhe seus alvos e os pré-julga, condena e expõe à execração pública, sem que os ofendidos tenham direito às mesmas manchetes e aos mesmos espaços usados para atacá-los.

Um exemplo concreto é a lista dos parlamentares denunciados pela Operação Lava-jato. Durante semanas os vazamentos seletivos das “delações premiadas”, protagonizadas por corruptos réus confessos, transformaram-se em julgamentos idôneos e terminativos sobre apenas alguns denunciados e partidos.

Não separar, intencionalmente, instituições que agregam milhões de cidadãos e cidadãs de indivíduos que no interior dessas organizações cometem erros e crimes, não ajuda nem constrói uma sociedade verdadeiramente democrática. Não há democracia sem Partidos Políticos, não há democracia sem o direito à pluralidade e diversidade de opiniões e projetos sociais.

Nós queremos defender os Partidos, fortalecê-los, pois com isso fortaleceremos o regime democrático, plural e tolerante.

Para melhorá-los é necessário acabar com os financiamentos empresariais aos candidatos e aos partidos. A maioria do STF já considera inconstitucional essa prática. A ausência do Acórdão, pelo pedido de vista do Ministro Gilmar Mendes, compromete a instituição que tem o dever de julgar a ADIN e defender a lisura e a honradez do processo democrático. Quem quer mantê-los é o PMDB, o PSDB, o PP e outros Partidos, como ouvimos no recente seminário sobre a Reforma Política promovido pela Assembleia Legislativa.

Para torná-los mais programáticos, ideológicos e coerentes, é necessário o voto em lista partidária, democraticamente construída em convenção de filiados.

Se são muitos, inconsistentes ou simples “balcões de negócio”, o fim das coligações proporcionais garantirá aos eleitores decidir quais os que terão representatividade, por seus programas e coerência.

Neste momento, em que é imperioso fortalecer a democracia, defender suas instituições e seus processos de escolha e de deliberação, os partidos políticos que se reivindicam dos princípios democráticos e da soberania popular devem dar um exemplo concreto de que não são coniventes, não pactuam com a corrupção, não aceitam o enriquecimento ilícito por meio da fraude licitatória, dos benefícios privilegiados ou da propina pelo exercício dos mandatos eletivos e de cargos públicos.

De nossa parte, como militantes históricos e construtores dessa experiência singular e inovadora que é o Partido dos Trabalhadores na história política do país, queremos cumprir nosso papel. Continuar na luta pela reforma política, pela extinção do financiamento empresarial das campanhas e dos partidos e pela (re)construção programática, política e ética do PT.

Em sintonia com a decisão da direção estadual do partido e de acordo com nosso estatuto que garante medida cautelar de suas direções diante de situações graves e de grande repercussão, defenderemos na reunião da Direção Nacional do Partido a aplicação imediata da cautelar estatutária.

Isto é, todo filiado, dirigente ou portador de mandato, denunciado em processos judiciais deve ser afastado do seu cargo e/ou função partidárias, sem nenhum prejuízo ao seu direito à defesa e ao contraditório, enquanto os fatos não forem totalmente esclarecidos.

Nosso objetivo, em consonância com a medida cautelar estatutária, é de que não paire nenhuma dúvida, não reste nenhuma ilação de conivência, omissão ou cumplicidade do Partido, de seus milhões de filiados e de seus milhares de representantes eleitos com qualquer ação irregular ou criminosa de alguns de seus membros.

Temos a convicção de que exemplos concretos valem mais que interpretações e justificativas. Se nós e outros partidos agirmos dessa forma, estaremos consolidando nossas agremiações e a democracia brasileira.


Raul Pont

é ex-prefeito de Porto Alegre00, professor aposentado e membro do DN/PT.

FONTE: http://cartamaior.com.br/?/Coluna/Em-defesa-da-etica-e-da-democracia/33241

 

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