
1- Os crentes sabem que Deus não é masculino nem feminino, pois está para lá da determinação sexual. No entanto, é preciso tentar representá-lo, figurá-lo, dizê-lo, pois aquilo de que nada se pode pensar nem dizer não existe para nós.
O que será sempre necessário é ver nessas imagens apenas isso: imagens, que não podem ser reificadas, já que apenas apontam para o Mistério último, para o Sagrado, do qual se espera sentido, sentido último e salvação, sempre indizível, sempre para lá de tudo quanto se possa pensar e dizer.
Essas representações são sempre condicionadas pelo espaço e pelo tempo, pela cultura, pela sociedade, pela história, ao mesmo tempo que condicionam elas próprias a história, a cultura, a sociedade, a visão do mundo. Para dar um exemplo: se, no quadro da cultura ambiente cristã, em vez de se rezar o pai-nosso se rezasse a “Mãe Nossa”:
“Mãe Nossa, que estais no Céu, santificado seja o vosso Nome…”, que influência teria essa formulação da oração característica dos cristãos na sua visão do mundo humano e do próprio cosmos, na sua vivência das relações entre homens e mulheres, na economia, na educação, no exercício do poder?
2- Precisamente sobre esta problemática e a partir do meu último livro – Deus ainda Tem Futuro? – organizei, recentemente, em Lisboa, um debate subordinado ao título em epígrafe – E se Deus fosse Mãe? – com a presença da escritora Lídia Jorge e da deputada Maria de Belém – Guilherme d”Oliveira Martins presidiu.Tanto Lídia Jorge como Maria de Belém estiveram de acordo. É preciso descobrir os lados maternos de Deus, descobrir Deus como ser fusional do masculino e do feminino: são dois géneros nos quais, mais do que “diferenças”, há “percentagens” de sensibilidades.
Infelizmente, não há palavra para dizer Deus como masculino e feminino ao mesmo tempo – Ele também não é neutro, pois não é uma coisa, um isso -, a gramática é imperfeita. Sim, Deus é ultragénero, mas precisa de uma representação ao mesmo tempo masculina e feminina.
Na figuração humana de Deus, precisamos das duas vertentes, masculina e feminina, que se completam e acrescentam, pois o todo é mais do que a soma das partes.
Esse é o Deus da Bíblia, onde aparecem traços femininos, como a Sabedoria de Deus, que é feminina.

Como se passou para o patriarcalismo religioso, que faz que na quase totalidade das religiões a mulher seja de facto oprimida? Tudo se transforma com a sedentarização. Como escreve Frédéric Lenoir,
“a evolução da religião segue a das sociedades que se tornam um pouco por toda a parte patriarcais entre o terceiro e o segundo milénio antes da nossa era, quando os povoados crescem e se tornam grandes cidades, reinos e impérios.
Não há dúvida de que Jesus contribuiu decisivamente para a emancipação feminina. Também São Paulo reconheceu a radical dignidade de homens e mulheres e refere nomes de apóstolas – na Carta aos Romanos, por exemplo, escreve: “Saudai Andrónico e Júnia que tão notáveis são entre os apóstolos.” No entanto, a Igreja Católica é hoje a última grande instituição machista no Ocidente.
Sem uma rápida conversão, ela, que, sucessivamente, desde o século XVIII, foi perdendo os intelectuais, os operários e os cientistas, os jovens, acabará por perder as mulheres.
4- Como Frédéric Lenoir também estou convencido de que muitos dos “disfuncionamentos” das nossas sociedades estão ligados ao “desequilíbrio” entre o feminino e o masculino na humanidade. Também na Igreja.
Mas, aqui, há quem pergunte: as mulheres no poder não acabam por mimetizar os homens? Pense-se em Thatcher e Merkel.
Como lidam as mulheres com o poder? É este que as masculiniza ou a questão é o próprio poder?
Lídia Jorge e Maria de Belém responderiam: há maneiras de exercer o poder no feminino, o que se passa é que, uma vez que o não podiam exercer, foram obrigadas a arranjar defesas, precisaram de afirmar-se.
