A Igreja Luterana da Alemanha tem bispos que presidem as Igrejas dos “Laender” (o equivalente aos Estados do Brasil). Mas um deles é o “Ratsvorsitzende der Evangelischen Kirche Deutschland (Presidente do Conselho das Igrejas Evangélicas da Alemanha)” e, como tal, cabe-lhe a chefia de todos os demais bispos. Até agora este “Presidente do Conselho das Igrejas Evangélicas Alemãs” era o bispo Wolfgang Huber (67), que desempenhava, ao mesmo tempo, a função de bispo de Berlin-Brandenburg.
Wolfgang Huber é uma personalidade marcante, muitas vezes designado como “Papa evangélico”. Eu compará-lo-ia ao bispo católico Karl Lehman, antigo Presidente da Conferência Nacional dos Bispos da Alemanha. Sempre que possível, não perdia um único debate televisivo em que Huber tomasse parte. Porquê? Porque ele sabia transmitir a Boa Nova de Jesus Cristo, de forma inteligente para os tempos de hoje. Expressava, muitas vezes, aquilo que eu sentia, mas não era capaz de pôr em palavras. De alguma maneira, achei-o sempre melhor do que o nosso bispo católico Karl Lehmann.
O tempo de Huber como Presidente do Conselho das Igrejas Evangélicas da Alemanha expirou e o seu lugar vai ser ocupado pela bispa de Hannover, Sra. Margot Kaessmann (51).
O semanário alemão“Der Spiegel” trouxe em 28 de outubro de 2009 dois artigos sobre as duas personalidades. Segue um resumo:
“O Papa Wolfgang se retira”
O bispo Wolfgang Huber é a personalidade mais destacada da Igreja Evangélica da Alemanha. Ele fortaleceu o seu perfil e respondeu positivamente à concorrência com os Católicos e com o Islã. Huber é o teólogo alemão evangélico mais conhecido. Dentro de poucas semanas, a sua Presidência do Conselho das Igrejas Evangélicas da Alemanha chegará ao fim.
Porém, o homem elegante em seu passo dinâmico, ainda irá algumas vezes ao pódio e ao púlpito, usará frases inteligentemente formuladas – e, além disso, aptas a serem transmitidas pela televisão – mas o grande “show de Huber” logo terá fim.
Como ele deixa a sua Igreja que era o seu palco?
Ele pôs, sem dúvida, seriamente em questão a subestima dos Protestantes e ajudou-os a superá-la em parte. Huber inpressionou como novo tipo de eclesiástico, era aberto ao mundo, elegante, o homem certo para uma instituição em queda. “Humildade sim, mas pusilanimidade não”, era a sua mensagem tanto para dentro da Igreja como para fora.
Ele era um pastor prudente, que se tornou, num certo sentido, “A voz do Protestantismo”.
Entre outras coisa, lutou pelas aulas de religião nas escolas de Berlim. Porém, também se ouviu “murmúrios” nas Igrejas. O professor, pepresentante, provedor de ideias não era homem de cura de almas ou de diálogo pessoal com o povo. Muitos o acharam demasiado frio, altivo, convencido de si mesmo.
Ele fortaleceu indubitavelmente a reputação pública da Igreja. Pregava com fervor. Mas, diferentemente do catolicismo, o protestantismo vive da multiplicidade, variedade e diversidade de vozes. O seu sucessor poderá construir sobre as bases que ele criou, mas, ao mesmo tempo, terá de o superar.
Kaessmann é a nova Chefe dos Protestantes Alemães
O cargo mais importante da Igreja Evangélica da Alemanha é pela primeira vez ocupado por uma mulher – uma mudança histórica.
Com 134 de 142 votos a bispa de Hannover, Sra. Margot Kaessmann, foi eleita Presidente do Concelho das Igrejas Evangélicas da Alemanha. “Confiando na ajuda de Deus aceito a eleição”, disse ela.
A pequena e tenaz mulher de 51 anos tornou-se assim a mais alta representante dos 25 milhões de protestantes da Alemanha. Há dez anos que ela é bispa da maior “Landeskirche” (Igreja regional) da Alemanha, Hannover. Agora é a primeira mulher a liderar a Igreja fundada por Martinho Lutero – um fato histórico sensacional. Um efeito colateral: os colegas do episcopado católico vão ter mais dificuldades em explicar por que com eles as mulheres nem sequer podem ser ordenadas de simples sacerdotisas.
A herança que Kaessmann recebe não é fácil. Cada vez menos membros na Igreja. O tempo em que a Igreja Evangélica era uma “Volkskirche” (Igreja do povo), com um campanário e um pastor em cada povoação, já passou.
Ela vai ter que pôr nova ênfase nas relações com o Islã e com a Igreja Católica (que na visita do Papa, em 2005, a Colônia, não a deixou sequer chegar perto dele). Ela terá que fortalecer mais ainda o perfil de sua Igreja, dando-lhe talvez um rosto mais humano do que antes.
Margot Kaessmann é decerto capaz de representar muito bem a sua Igreja e a sua fé. Mas, mais ainda do que o seu predecessor, ela vai ter de reformar a sua Igreja externa e internamente. Tem condições para isso; ela não é somente uma excelente teóloga, apta para a mídia, mas também incansável nas visitas às suas comunidades, para encontros nada espetaculares e para os cuidados da cura de almas junto das bases da Igreja. Defende um perfil mais espiritual das instalações e das comunidades eclesiais. “O povo precisa de orar mais e as igrejas precisam de voltar a ter a aparência de Igreja e não de centros comunitárias”, diz ela. Margot Kaessmann personifica um Protestantismo consciente de si mesmo. Mais – e isto é a sua força especial – ela emana aquele calor humano que faltava às vezes ao professoral Wolfgang Huber.
Kaessmann está engajada por uma maior espiritualidade na Igreja e é vista pelos fiéis como uma cristã realmente religiosa. Os cristãos evangélicos não lhe levam a mal que ela, em 2007, tenha pedido o divórcio. Mãe de quatro filhos, ela não teve culpa de que o seu casamento fracassasse. O marido arrumou outra mulher. Deste modo, ela pode assumir o seu cargo, amada por todos.
Irene Ortlieb Guerreiro Cacais
Brasília