PROPOSTA DO MFPC DO BRASIL PARA ENCONTRO LATINO AMERICANO A REALIZAR-SE EM BUENOS AIRES DE 21 A 24 DE SETEMBRO DE 2011.
INTRODUÇÃO
Ultrapassada a primeira década do século XXI e vivendo o período de interrogações da pós-modernidade, também os membros do Movimento das Famílias dos Padres Casados do Brasil se interrogam sobre os caminhos a percorrer diante dos desafios que a pós-modernidade apresenta.
São vários os aspectos e desafios, dentre os quais são mais eminentes: a) O transcurso de mais de 50 anos da existência de padres casados na Igreja Latina, em razão do que até não é uma novidade. b) O desafio da continuação do êxodo do ministério regulado pelo Código de Direito Canônico. C) O desafio da indefinição teológica sobre o presbiterato, acenada nos grandes documentos, mas não elaborada. D) A indefinição diante da marginalização dos padres casados. e) Finalmente a incógnita do que acontece com os que hoje saem do ministério regulado pelo direito eclesiástico ocidental.
PROPOSTA
O Movimento das Famílias dos Padres Casados do Brasil, desejando contribuir para o Encontro Latino Americano, por realizar-se em Buenos Aires, oferece para estudo e debate a presente proposta dividida em duas partes:
a) Na esteira do Documento de Aparecida que, ao tratar dos presbíteros, insere um parágrafo propondo que cada Igreja Particular procure estabelecer relações de fraternidade e mútua colaboração com os pesbíteros que deixaram o ministério regulado pela legislação eclesiástica, O Movimento das Famílias dos Padres Casados do Brasil propõe que os grupos de presbíteros existentes nas Igrejas Particulares da América Latina e do Caribe acolham esta proposta buscando bispos, presbíteros leigos e religiosos que queiram definir, em grupo, estratégias, realizar estudos e definir ações pastorais que possibilitem o exercício do ministério definido e proposto pelo Concílio Vaticano II, pela Conferência de Medellín e acrescido com os ganhos de Puebla e Santo Domingo r retomado na Conferência de Aparecida..
b) Os Movimentos e Grupos da América Latina, revisitando o Concílio Vaticano II e Medellín e ainda levando em conta os ganhos de Puebla, Santo Domingo e Aparecida, livre e espontaneamente iniciem o caminho de uma espiritualidade forte e radical tendo como pontos básicos: 1) Centrada na Bíblia em geral, mas sobretudo nos Evangelhos, ou seja na vida terrestre de Jesus; 2) multiplicação de encontros com pessoas, famílias e grupos como forma de presença em todos os lugares da vida social como sinal de vida renovada animada pela fé, esperança e caridade; 3) crença no Espírito Santo, que está presente no mundo e mostra com sinais claros o que quer. A fundamentação desta adesão fundamenta-se na teologia do Novo Testamento ensinada por Paulo e por João. Paulo ensina que a Igreja é dirigida pelos dons do Espírito, sendo o apostolado, e o profetismo os primeiros (1Cor 2,4-11;27-30). Esse mesmo Espírito está na Igreja atual como esteve sempre. A teologia de João assegura que o Espírito ensinará o alcance da vida de Jesus nas mais diversas circunstâncias. Jesus não deixou nenhum programa de apostolado, mas prometeu que o Espírito Santo estará presente para mostrar como atualizar a vida Dele nas diversas circunstâncias da história.
FUNDAMENTAÇÃO E JUSTIFICATIVA
Alguns esclarecimentos, contextualizações e aspectos doutrinários,até quase como se fora um glossário, fundamentam a proposta e relembram os marcos referenciais de 50 anos de caminhada, que é o tempo em que se manifestou e se manifesta o fato de um número crescente de presbíteros que não conseguem mais viver uma forma de ministério fora do tempo presente.
1º. Revisita ao Concílio Ecumênico Vaticano II.
A revisita ao Vaticano II é fundamental não somente para os Presbíteros Casados e suas Famílias, mas para toda a Igreja porque a partir deste Concílio, celebrado na modernidade e ainda na vigência da cristandade, já delineia o caminho para os dias de hoje para a Igreja poder se achar tal qual Jesus Cristo a pensou e amou e assim possa refletir no rosto dos discípulos de Jesus a Luz para todos, que é Jesus. Cinco pontos nesta revisita parem fundamentais:
a) As palavras de João XXIII na sessão de abertura do Concílio no dia 11/10/1962- Suas palavras traçaram o caminho e o conteúdo do ensino conciliar: ”O ponto saliente deste Concílio não é a discussão de um ou outro artigo da doutrina fundamental da Igreja, repetindo e proclamando o ensino dos Padres e dos Teólogos antigos e modernos… Para tanto não haveria necessidade de um Concílio. (o ponto saliente) é a renovada, serena e tranquila adesão a todo ensino da Igreja, na sua integridade e exatidão como brilha nos Atos Conciliares… estudada e exposta por meio de formas de indagação e formulação literária do pensamento moderno…” Esta colocação é a porta que se abrirá para a teologia sobre os ministérios e que a escolástica tinha perdido, reduzindo o ministério episcopal ao poder de jurisdição e o ministério presbiteral ao poder de celebrar a Eucaristia e preparar para os sacramentos.
b) Revisita mais atenta a cinco dos 16 documentos conciliares por serem os que mais diretamente tocam a questão dos ministérios ordenados da Igreja:
- Lumen Gentium, com 16.200 palavras, que ocupou 33 congregações gerais das 168 e 453 discursos dos 2.217 havidos. É o documento sobre a Igreja e tem a intenção de oferecer a seus fiéis e a todo mundo um ensinamento mais preciso sobre sua natureza universal. Nele, como se verá está a teologia que tira o presbítero dos estreitos limites, nos quais a escolástica, a práxis tridentina e o direito canônico o tinham encerrado.
- Dei Verbum, com pouco menos de 3.000 palavras, com 11 Congregações e 174 discursos, é documento importante porque se propõe expor a genuína doutrina sobre a Revelação Divina.
É fundamental para os presbíteros e todo Povo de Deus porque uma das três atribuições decorrentes da imposição das mãos pelo bispo sobre os presbíteros é para anunciem o Evangelho.
- Gaudium et Spes, com 23.300 palavras, embora com somente 24 congregações, mas com 333 discursos trata da Igreja no mundo de hoje. Pretende falar a todos para esclarecer o mistério do homem e cooperar na descoberta dos principais problemas do nosso tempo. Será de fundamental importância para o presbítero que deve fazer ressoar em seu coração de discípulo tudo aquilo que é humano, bem como poder efetivamente exercer um ministério pluriforme e inserido nas realidades terrestres.
- Sacrossanctum Concilium, aprovado já na primeira sessão do Concílio, é o documento que relembra os princípios e normas práticas para a renovação e o incremento da Liturgia Latina. Sua importância relacionada com o presbiterato está em que a missão profética e pastoral é completada pela celebração da Palavra e da Eucaristia. “Na Liturgia a Igreja, sem cessar toma tanto da Palavra de Deus, quanto do Corpo do Cristo pão da vida e o distribui aos fiéis“ DV
- Presbyterorum Ordinis, com 7.900 palavras, sete Congregações Gerais e 98 discursos, é o documento sobre a Ordem dos presbíteros, seu ministério e sua vida. Quer tratar mais ampla e profundamente dos presbíteros para sustentar-lhes com mais eficácia seu ministério e prover-lhes melhor a vida nos ambientes pastorais e humanos profundamente mudados. Tem sua importância porque reconhece a exercício pluriforme deste ministério desde os tempos apostólicos e abre perspectivas que serão enunciadas na Conferência de Medellín
- A revisita também teria que se estender ao Decreto ad Gentes em razão da atividade missionária, ao decreto Optatam Totius sobre a formação dos presbíteros, ao Decreto Apostolicam Actuositatem sobre o apostolado dos leigos que agora o presbítero casado ombreia com sua mulher e filhos, ao Decreto Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa, também ainda sobre o Decreto Unitais Reintegratio sobre o ecumenismo. Oportunamente se fará esta revisita
2º. Padres Casados e os Movimentos dos Padres Casados uma realidade na Igreja Latina.
a) A grande quantidade de padres saindo das estruturas jurídicas. Na esteira do Concílio milhares de presbíteros não mais permaneceram na única forma de ministério que a Igreja tinha consolidado por vários séculos a partir do pontificado de Gregório VII (1073-1085). Êxodo sempre houve e sempre existirá, no entanto como aconteceu nas décadas de 1960 e 1970 e que continua ainda hoje, embora com menor intensidade, nunca tinha acontecido. Mesmo que cada presbítero tenha tido suas razões pessoais, pode-se dizer que o pano de fundo dentro do qual aconteceu foram as transformações do mundo, a visão de Igreja e de ministérios nascidas no Concílio Vaticano II e expressada pelos grandes Documentos Conciliares e a percepção ou até intuição por parte dos presbíteros de que estava inviável o modelo tradicional de presbítero. Alguns tópicos podem esclarecer melhor:
- A visão que a Igreja faz de si mesma, superando o Decreto de Graciliano que a define como uma sociedade perfeita de concepção piramidal no topo da qual está a Jerarquia e na base os fiéis. Ela se entende como Povo de Deus, que tendo Cristo como Luz dos Povos, deseja anunciar o Evangelho a toda criatura e iluminar a todos com a claridade de Cristo que resplandece no rosto da Igreja (LG 1).
- Na perspectiva de retorno às fontes, ou seja, aos primeiros séculos de igreja, o Vaticano II, além do sacerdócio comum, redescobre que a plenitude do sacerdócio está nos Bispos, que participam em plenitude da consagração e missão de Jesus, o Cristo e eles associam ao seu ministério os cristãos padres e os cristãos diáconos. Assim, o Colégio Presbiteral e a Ordem dos Diáconos são participantes, não em degraus, mas com funções diferentes e por força da ordenação e não da imposição do celibato, do único sacerdócio de Jesus que é sua encarnação, vida, morte e ressurreição. (LG II, no. 28). Neste ensinamento teológico o constitutivo da união entre Jesus o Cristo e o bispo, entre o bispo e o presbítero, entre o diácono e o bispo, entre todos os que o bispo associou a si, entre todos entre si e todos os ordenados e todos os fiéis é o único sacerdócio que dimana do Sacerdote Jesus e que se concretiza pelo sacerdócio comum a todos e pelo sacerdócio ministerial que os bispos receberam como sucessores dos apóstolos e repartiram em funções diversas entre os presbíteros e diáconos.
- O retorno às fontes possibilitou uma teologia sobre o sacerdócio, superando a teologia escolástica inspirada em Tomás de Aquino e que considerava o padre como detentor da plenitude do que constitui a Ordem. Uma teologia confusa na distinção entre bispo e presbítero, e na qual o bispo só recebia poder de jurisdição e não a plenitude do sacerdócio quando de sua ordenação. O Concílio de Trento, influenciado pelo espírito polêmico da época e tentando se distanciar da posição das igrejas reformadas, se manteve aferrado a esta posição escolástica.
- Revisitando o Decreto sobre a Ordem dos Presbíteros, encontra-se a aceitação de um presbiterato pluriforme e que o celibato não é exigência da natureza do sacerdócio (PO 16). É bem verdade que o Decreto tem dois longos parágrafos sobre a conveniência do celibato para a Igreja Latina, o que é compreensível, porque a maioria dos bispos são da Igreja Latina. Este certo derramar-se sobre coisas da Igreja Latina também está na Constituição sobre a Liturgia, prevalecendo textos sobre a Liturgia Latina, esquecendo as Liturgias das Igrejas Orientais..
b) Os Movimentos dos Padres Casados
A partir de grupos de padres, que saíram do ministério regulado pelo direito canônico, casados ou não, surgiu o Movimento de Padres Casados em países da Europa e das Américas. Os objetivos eram os de apoiar-se mutuamente, dialogar com a hierarquia, encontrar caminhos para o exercício do ministério. Este fenômeno aponta no mínimo para o fato de que é inexata ou equivocada a idéia de abandono de ministério ou separação. Há poucos registros sobre datas e razões. Entende-se que estes grupos não receberam uma estrutura formal, mas a forma de movimentos pelo fato de os padres ter saído de uma instituição extremamente presa ao jurídico e ainda lhes dificultava a saída deste sistema com exigências jurídicas. Os Movimentos indicam também o desejo de liberdade. Difícil saber quais foram os primeiros grupos o que nem é importante para esta proposta. No Documento Elementos de Base para Reflexão e Diálogo, produzido por um grupo da Comunidade dos Padres Casados – CPC de Curitiba registra 17/12/1977 como data de fundação.
Os Movimentos logo promoveram Encontros locais, nacionais e internacionais. O 1º. Encontro Nacional têm a data de julho de 1979 em Nova Iguaçu-RJ e está em fase de preparação o XIX Encontro Nacional das Famílias dos Padres Casados (nome adotado desde o XV) que acontecerá em Fortaleza – CE, de 27 de junho a 01 de julho de 2012.
Em 1983, liderados pela Itália, vários países iniciaram a internacionalização do Movimento realizando um encontro denominado Sínodo Universal dos Padres Casados e suas Esposas. Foram realizados três, sendo que no segundo criou-se a Federação Internacional de Padres Casados. Os Sínodos mais tarde passaram a denominarem-se Congressos. Em Janeiro de 1990 realizou-se em Curitiba o 1º. Congresso Latino Americano de Padres Casados, que ao mesmo tempo era o IX Encontro Nacional. O Congresso teve a presença de mais de 150 casais do Brasil, de pises de língua espanhola, dos Estados Unidos, da Itália e Espanha. Este Congresso teve o apoio do Arcebispo de Curitiba e seu bispo – auxiliar que se fizeram presentes na abertura, do padre Alírio Bervian representante do Conselho Nacional de Presbíteros do Brasil e de vários padres no exercício do ministério. O Brasil também sediou Encontros Internacionais.
Com os Movimentos e Encontros, também nasceram associações e publicações. Em forma de jornal, boletim, revistas e livros. O objetivo foi o de colocar em comum anseios, esperanças, projetos que eram bem mais do que desejo de retornar ao ministério tradicional Foram oportunidade de as pessoas se conhecerem, de partilharem a fé, discutir muitas questões de vida familiar e questões em aberto sobre o próprio destino eclesial, que normalmente não se mostrava promissor. Há de surgir alguém que recolha a história dos Movimentos. Será um material através do qual será possível ler uma trajetória de meio século que pode ser entendida como Sinal que João XXIII vivamente recomendava para que os cristãos estivessem atentos.
3º. A CNBB E OS PRESBÍTEROS DO BRASIL
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil não ficou ausente na trajetória do presbiterato depois do Concílio Vaticano II e depois de Medellín. Na IX Assembleia, em 1968 deu-se início de um diálogo entre bispos e presbíteros a partir de 17 cartas enviadas por grupos de padres para aquela Assembleia. O fruto destas Cartas foi a realização de uma pesquisa elaborada pelo CERIS, por encomenda da CNBB. A pesquisa foi encaminhada a cada presbítero, as respostas foram coligidas e estudadas a nível de diocese, depois a nível de Regional por dois padres eleitos em cada diocese. Assim resultaram 9 documentos chamados Documentos dos Presbíteros contendo a análise das respostas dos presbíteros de cada diocese e muitas propostas e sugestões. Os Documentos, reunidos num só volume foram estudados, à luz do evangelho e do Vaticano II, por 25 padres entre teólogos, biblistas, pastoralistas, sociólogos, além da Comissão de Teologia da CNBB. As conclusões e sugestões organizadas por este último grupo foram encaminhadas aos bispos reunidos na X Assembléia da CNBB, que votaram as propostas que tinham competência de aprovar ou rejeitar e encaminharam para Roma as que julgaram ser daquela instância, como a readmissão no ministério dos que se casaram, a ordenação de casados, a mudança na legislação do celibato, etc. Do trabalho nasceram inferências, que estão no documento, muito próximas dos anseios dos padres casados ou saídos do ministério regulado pelo direito eclesiástico, tais como:
A figura pluriforme de presbítero como conveniente, necessária, urgente para atender a diversidade de circunstancias, regiões e grupos. A pluriformidade refere-se a presbíteros de tempo integral e parcial, celibatários ao lado de casados, ou de homens casados e ordenados, a presbíteros de culturas diferentes.
Formação básica contínua para a qual um dos critérios deve ser a situação e a necessidade real das comunidades e uma revisão de conceito e estrutura de seminários.
Celibato é um dos sinais do Evangelho e tem valor antropológico e teológico quando seu motivo é o Reino de Deus. Por isso não é pastoralmente válido que a Igreja sacrifique a sua missão exigindo um determinado estado de vida (o celibato) como lei para todos os seus presbíteros. A Igreja deve ser plenamente fiel à sua missão. Até mesmo sua fidelidade ao Espírito deve conduzi-la a chamar ao exercício do ministério aqueles que mesmo sem o carisma do celibato sentem o apelo de Deus para o sacerdócio.
Profissionalização e manutenção. Em quase todos os Documentos elaborados pelos Regionais há referências insistentes sobre o trabalho profissional para os presbíteros, insistindo para que se admita a possibilidade de o padre abraçar qualquer profissão honesta. A Comissão julgou legítima a proposta e o critério sempre serão as legítimas exigências da comunidade para cujo serviço ele foi ordenado. O conteúdo destes documentos está muito próximo das Conclusões de Medellín.
A partir deste trabalho nasceu o Conselho Nacional de Presbíteros e que teve sempre um bom intercambio com os padres casados. No 1º. Encontro Nacional de Presbíteros nasceu uma Carta de apoio e animação aos presbíteros casados. Criou uma grande celeuma na Nunciatura e só amainou pelo trabalho de alguns bispos como D. Valfrido, D. Aloísio e outros. Os Presbíteros do Brasil apoiaram decisivamente o 1º Congresso Latino Americano enviando o Presidente Padre Alírio Bervian como representante dos 13 mil presbíteros do Brasil. Ele disse textualmente: Estou aqui representando os presbíteros do Brasil. Mais tarde o padre recebeu uma admoestação da Nunciatura.
Sempre houve alguma forma de presença dos padres casados nos Encontros Nacionais dos Presbíteros (são dois por Diocese). Membros da Presidência do Conselho Nacional de Presbíteros participaram de Encontros Nacionais e são convidados para os Encontros do MFPC. Por usa vez o Conselho Nacional, através da CNBB convidou formalmente um casal representante do MFPC para três Encontros Nacionais consecutivos. Este intercâmbio tem uma perspectiva promissora e foi por muito tempo a pequena porta aberta para diálogo e intercambio, além da honrosa exceção de vários bispos e padres que sempre demonstraram apreço a padres casados, confiando-lhes trabalhos e honrando-os com sua amizade.
3º. As Conferências Latino-Americanas,
a) As Conferências Latino Americanas – Revisitar as Conferências da América Latina e do Caribe,como se denomina desde a última, ou seja, a de Aparecida, é importante na busca para encontrar respostas para a vida e ministério dos padres casados. São pelo menos três as razões para a revisita: 1) pelo que elas são para a Igreja; 2) a possibilidade de entender melhor o caminho percorrido em mais de meio século; 3) encontrar perspectivas pelo que elas propõem inclusive para os padres casados.
Antes de tudo é interessante registrar alguns tópicos a título de esclarecimento. As Conferências são uma instituição da América Latina pré-conciliar porque sua fundação é anterior ao Concílio Vaticano II e a 1ª. Conferência, a do Rio de Janeiro, foi celebrada antes do Concílio. Outro aspecto importante é que elas são uma forma de magistério sinodal com exercício da colegialidade com poder deliberativo. É fato único no mundo. Todos os outros sínodos, inclusive o dos bispos, restaurado a partir do Vaticano II, são apenas consultivos. Um terceiro aspecto, de certa forma extrínseco às Conferências, mas decisivo ao ponto de terem corrido o risco de interrupção, são os percalços pelos quais elas passaram e a tentativa de descaracterizar a colegialidade e o poder deliberativo. Um quarto aspecto é que ao menos o de Medellín, de Puebla e de Aparecida, ao tratar da questão do presbiterato, também se manifestou sobre os padres que se afastaram do ministério regulado pela legislação canônica.
b) Como as Conferências viram o Presbiterato.
- A Conferência de Medellín foi um acontecimento inovador na Igreja, não só da América Latina, porque foi a que melhor expressou a Colegialidade retomada no Concílio e também porque produziu um texto (com 16 documentos como o Concílio Vaticano II) colado à realidade da América Latina e ao mesmo tempo colado ao Concílio Vaticano II.
Quando trata da Igreja visível e suas estruturas, Medellín aí inclui os Sacerdotes. A reflexão visa contribuir e orientar a renovação sacerdotal, notadamente dos presbíteros cujo ministério e vida as mudanças na América Latina necessária e seriamente afetam.
Quando o Documento trata da questão do celibato ele menciona o que se contribui para a problemática do celibato: o louvável aprofundamento do valor afetivo da pessoa humana, a exacerbação do erotismo e os frequentes descuidos da vida espiritual.
O Documento ensina que bispos e presbíteros têm o encargo de servir a comunidade, devendo compartilhar com todo Povo de Deus a mesma e única missão salvadora, cabendo aos presbíteros dialogar com os leigos de um modo constante e institucional, pois os leigos, pelo sacerdócio comum têm o direito e o dever de trazer a indispensável colaboração pastoral.
Estabelece que a consagração sacerdotal na Ordem dos Presbíteros situa o sacerdote no mundo a serviço dos homens e por isso não pode ser segregado do mundo. A espiritualidade há de ser uma vivência pessoal intrinsecamente ligada à ação ministerial, onde a maior exigência é a vida de fé pelo testemunho da qual será reconhecido como ministro do Cristo Senhor. A caridade pastoral é mola propulsora da doação e fator de equilíbrio da personalidade e é aí se que reencontrarão as riquezas do carisma do celibato.
Com base no claro ensino do Concílio, Medellín entende que se consegue a superação da unidade da figura de presbítero, pelo que podem exercer o ministério paroquial, o supra-paroquial, contribuir para investigar ou transmitir a ciência, dedicar-se até a trabalhos manuais participando da sorte dos operários e cumprir outras atividades apostólicas, exercendo o ministério em consonância com a exigência pastoral dos diferentes carismas.
Aos que estão em crise os bispos se dirigem como aos seus cooperadores que estão sofrendo as angústias da crise, às vezes fruto da autenticidade e sinceridade e pedem que, apesar das falhas e deficiências que eles bispos têm, que os em crise confiem neles, pois se sentem responsáveis perante o Pai.
O documento conclui falando aos que se afastaram, com ou sem consentimento e por razões que só a Deus compete julgar, os bispos os reconhecem marcados pelo caráter do sacerdócio, os respeitam como irmãos e amam como filhos. Afirmam que sempre poderão encontrá-los de coração aberto para qualquer ajuda e que conservando e recuperando o vínculo visível da unidade essencial na Igreja de Cristo, dêem testemunho do Reino ao qual foram consagrados.
- Conferência de Puebla há um tom diferente. Se em Medellín os bispos, presbíteros e diáconos estão colocados na Igreja Visível e suas Estruturas, na de Puebla estão entre os Agentes de Comunhão e Participação.
Os bispos se vêem como responsáveis pela difícil e honrosa missão de evangelizar pessoas e ambientes, cabendo esta tarefa a eles, aos presbíteros, aos diáconos, aos religiosos e aos leigos comprometidos. Fica a impressão de uma igreja piramidal pela afirmação de que o ministério hierárquico, sinal sacramental de Cristo Pastor e cabeça da Igreja, é o principal responsável pela edificação da igreja.
Os bispos, em que pese uma reflexão muito ativa sobre a identidade sacerdotal, convidam teólogos e pastoralistas para ajudar no aprofundamento da reflexão sobre esta identidade golpeada com certa rijeza pelas crises, porque concluem que há falta de um aprofundamento à luz das diretrizes do magistério, em particular do Vaticano II, de Medellín, do Sínodo de 1971 e do Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos. Se Medellín está dentro do espírito do Vaticano, aqui se percebe certa diminuição do Concílio e enaltecimento do Sínodo de 1971 e do Diretório dos Bispos.
O Documento afirma que o ministério da comunidade implica no poder, ou autoridade recebida de Cristo mediante a ordenação que constitui o ordenado em sacerdote na tríplice dimensão do ministério de Cristo profeta, liturgo e rei.
A tarefa do presbítero é anunciar o Reino de Deus, que se inicia neste mundo e chegará à plenitude quando Cristo vier. Para servir este reino, o presbítero abandona tudo em seguimento do Senhor e o sinal desta entrega radical é o celibato ministerial. Como pastor empenhado na libertação dos pobres age com critérios evangélicos, acredita na força do Espírito santo para não cair na tentação de se transformar no líder político, dirigente social ou funcionário de um poder temporal.
Relativamente aos que saíram os bispos propõe-se estudar com objetividade o fenômeno do abandono do ministério presbiteral com suas causas e incidência na vida da Igreja. O critério para este estudo é o traçado no Sínodo de 1971, que pede sejam os presbíteros tratados, do ponto de vista pastoral “equitativa e fraternalmente”, mas não admitidos ao serviço das atividades sacerdotais (Sacerdócio Ministerial II, quatro, d).
A impressão que fica é que aconteceu uma mudança muito significativa quanto ao ensino de Medellín e de Puebla,
- A Conferência de Aparecida, ao contrário de Santo Domingo composta só por bispos, teve uma composição mais eclesial. Do Brasil havia 26 bispos eleitos pelos 17 regionais, 16 leigos para toda a América Latina e Caribe, 16 religiosos, (8 homens e 8 mulheres), 24 padres para toda América Latina e Caribe, 6 peritos para o Brasil e mais alguns convidados como o Núncio, e outros.
Entre os Documentos preparatórios para a Conferência, há o J. B. Libânio, com 22 páginas nas quais ele condensa uma proposta aberta para receber contribuições. Ele situa a Conferência dentro da trajetória dos 50 anos da criação do CELAM e dos 40 anos da celebração do Concílio. Aponta que o Vaticano II e Medellín foram etapas da abertura, enquanto que Puebla e Santo Domingo, mesmo manifestando a intenção de continuar o caminho proposto pelo Vaticano II e por Medellín, introduziram elementos de oposição e desvios de direção às opções assumidas pelo Concílio e por Medellín. Também aponta que a situação do mundo mudou muito em relação aos anos de 1958 a 1968, e que também na Igreja ocorreu uma mudança com uma certa clericalização com volta ao neo-conservadorismo.
Propõem uma dupla tomada de posição: a) estabelecer com clareza as opções básicas do Vaticano II e de Medellín; b) avançar para temas e decisões novas. Das 13 opções novas, a primeira é Rever o ministério ordenado à luz das opções do Vaticano II e de Medellín. Esta opção está desdobrada em seis propostas, sendo uma delas a obrigação grave de a Igreja pensar em soluções mais eficientes, contundentes e em curto prazo para as comunidades católicas sem Eucaristia Semanal. Entre as proposições para as Comunidades sem Eucaristia Semanal, Libânio propõem: a) incorporar ao ministério os padres casados; b) ordenar homens casados; c) ordenar mulheres.
Aparecida, ao final da Conferência, construiu um Projeto, no dizer de Comblin, propondo a inversão do sistema eclesiástico: sair do sistema de conservação da herança do passado e tornar-se uma Igreja de discípulos missionários.
Um Projeto assim implicará na necessidade de preparar e formar novas gerações de ministros e leigos, com mudança de mentalidade e de comportamento. Além do Projeto de uma igreja de discípulos missionários, a Conferência decidiu voltar a Concílio e Medellín, retomando o método ver, julgar e agir e, os temas fundamentais e a opção pelos pobres, desaparecida no Sínodo Romano de 1997-Ecclesia in America.
Além dos aspectos acima, também assumiu os desafios contemporâneos da ecologia, do meio ambiente e da pastoral urbana, que já aguardava há 100 anos a hora de ser assumida pela hierarquia. Esta decisão necessitará de milhões de pessoas formadas para que a Igreja passe da estrutura rural para uma Igreja de mentalidade e estrutura urbana.
No capítulo V a Conferência situa os ministérios ordenados quando trata dos discípulos missionários com vocações específicas. Os bispos são os discípulos missionários de Jesus Sumo Sacerdote. Os Presbíteros do Cristo Bom Pastor, os Diáconos do Cristo Servidor e os leigos do Cristo Luz do mundo.
Quanto aos presbíteros, o Documento levanta três desafios que são a questão de sua identidade teológica, a questão da inserção na cultura atual e a questão das situações que incidem sobre a existência dos presbíteros, como a afetividade, o celibato, a vida espiritual, a relação com os bispos e os leigos. Para atender estes desafios o Documento postula que as Dioceses e as Conferências desenvolvam uma pastoral que privilegie a espiritualidade permanente e a formação integral.
Ao final, quase como um apêndice que não flui no texto, lembra-se do grande número de presbíteros que saíram (diz abandonaram), cada Igreja Particular procure relações de fraternidade e mútua colaboração, conforme normas prescritas pela Igreja.
O avanço foi pequeno. No Encontro 12º Encontro de Presbíteros, em Itaici, o bispo Zanoni Demetino Castro, bispo de São Mateus-ES, que participou da Conferência como padre, me procurou para dizer que houve várias propostas muito abertas e que tiveram votação com mais de 5º%, mas não obtiveram os 2/3 regimentais.
O padre Comblin faz uma pergunta, que ele mesmo responde: Como começar a aplicação do Programa de Aparecida? Ele diz: não poderá ser de cima para baixo. Começa com pessoas voluntárias, dispostas a entrar neste projeto.
CONCLUSÃO: Juntando tudo o que apareceu nestes 50 anos de caminhada, como o Concílio, Medellín que colou o Concílio na América e a América no Concílio, a força do Movimento dos Padres Casados, o envolvimento de muitos presbíteros em muitas pastorais, o desenvolvimento da teologia, particularmente sobre Jesus, o Movimento de Jesus, o discipulado, a postura da CNBB, a postura dos presbíteros do Brasil, a pequena porta que Aparecida deixou aberta aos presbíteros casados e o grande projeto, como a Igreja ainda nunca se propôs, é a hora de não ficar esperando por respostas e soluções prontas, mas iniciar um trabalho de diálogo e se inserir no mundo a partir de uma espiritualidade de experiência de Jesus de Nazaré como foi a de Paulo que faz-se um trabalhador que, vivendo nas comunidades, anuncia o Evangelho.
Elaborado por Armando Holyszewski
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