
“São tantos e tais os problemas acumulados, em todos os sectores da vida da Igreja que, ou muito me engano ou o Papa Francisco anda a preparar, passo a passo, um Concílio Ecuménico, cuidando para que não lhe aconteça o mesmo que ao Vaticano II.”
Frei Bento Domingues, O. P. – Público – 01-02-2015
1. Dizem-me que estou a ficar viciado no Papa argentino.
É possível. Seja como for, o seu pontificado retomou, de forma original e surpreendente, o impulso meticulosamente abafado de João XXIII (1881-1963). Este filho de camponeses pobres, de Sotto il Monte (Bergamo), foi uma bênção inesperada para um mundo dividido e ameaçado por um confronto nuclear.
Já muito idoso teve a ousadia de provocar um abalo sísmico numa Igreja obsessionada com dogmas e anátemas, ao convocar o Vaticano II, o concílio do acolhimento universal e do diálogo irrestrito. Consta que este bispo pobre, piedoso e cheio de humor sempre se sentiu bem na companhia de hereges, cismáticos e não-católicos. Destruiu barreias e construiu pontes, em todas as direcções, sem nunca se julgar infalível.
Não esqueço que já passaram várias gerações e que, hoje, é difícil imaginar o que se passou, na Igreja, entre 1958 e 1962. Além disso, em Portugal, esse concílio não foi nem preparado, nem acompanhado, nem recebido.
Tive a graça de ter podido participar em várias das suas audiências públicas. Em poucos segundos, o fausto do Vaticano evaporava-se e ficávamos perante um rosto iluminado de bondade, a escutar palavras não ensaiadas que o tornavam numa pessoa da nossa família. Naquele contexto até ficava mal falar de “ Sua Santidade” ou de “ Santo Padre”!
Ao olhar para aquele cristão, ficava-se com a certeza de que tudo o que tinha havido de mais criativo na Igreja e na sociedade, ao longo do tempo da repressão da liberdade, estava ali intacto à espera de uma oportunidade para todos, sobretudo para os que tinham sido mais ofendidos.
Quando a palavra foi devolvida à Igreja, aconteceram muitas coisas admiráveis em todos os continentes. No entanto, algumas precipitações e ingenuidades reformistas foram o pretexto para o regresso e vingança dos ressentidos pela perda de poder.
O retorno ao pensamento único, às doutrinas “irreformáveis” do magistério, à paralisação da teologia crítica, à enfase em catecismos prontos a substituir o estudo, ao direito canónico, à proliferação de movimentos com ânsias de dominação da Igreja e da sociedade, tiveram tempo e condições para um triunfalismo que, afinal, encobria sepulcros caiados, como depois se revelou, de modo escandaloso.
Lembro isto para não esquecermos donde vimos, se quisermos perceber o radical e sagaz processo dialético do Papa Francisco.
2. Bergoglio também se esqueceu, como João XXIII, da ladainha dos títulos papais que os séculos inventaram para os distanciar dos pobres e para calar os outros membros da Igreja. Reteve apenas o de “pontífice”, o encarregado de lançar e reparar pontes para Deus e para todos os seres humanos, a começar pelos sobrantes e descartáveis, – vítimas de uma economia que mata, num mundo em que 1% da população possuiu mais de metade da riqueza mundial.
No começo, a sua predilecção pelas periferias era vista como uma forma populista de desviar a atenção da urgente reforma da Cúria, responsável pelos escândalos que encheram, anos a fio, os meios de comunicação social e sepultaram o Vaticano II, com medidas contra a liberdade, na Igreja. Instaurou-se o sentimento de que Bergoglio não iria conseguir qualquer reforma. Nunca foi essa a minha interpretação.
O seu texto programático, E.G. não engana. Na Igreja, a hierarquia, as instituições e organizações, a liturgia e as doutrinas não são para ela e para a sua auto reprodução. São para a fazer sair para o mundo dos pobres, dos oprimidos, dos excluídos, das vítimas de doutrinas e práticas sociais e culturais que lhes negam o céu e a terra. Enquanto as populações não virem que o Evangelho é a alegria da libertação, não se podem interessar pela cozinha interna das instituições e organizações da Igreja.
3. Depois de alguns retoques na administração económica e financeira, na orgânica administrativa e na substituição de algumas pessoas e cargos, resolveu atacar frontalmente a falta de ética e de espírito cristão dos cardeais.
A denúncia esmiuçada das doenças do Vaticano, em 15 pontos, nunca tinha sido feita de modo tão contundente e desabrido por um Papa.
O que o terá levado a não aguentar mais? O vocabulário de carreirismo, de alzheimer espiritual, de anseios de poder e de vã glória, etc. não pertence à linguagem palaciana ou do protocolo. Sente-se, em Bergoglio, a urgência de operar aquele cancro.
Mais estranho ainda é a necessidade de uma carta aberta aos cardeais que serão criados no próximo dia 14 de Fevereiro, para lhes dizer que não se trata de premiar uma carreira, de uma dignidade, de poder ou de distinção superior. É um serviço. Depois de o realizar digam: somos servos inúteis. Não é uma fórmula de boa educação, é a verdade (Lc 17, 10). Na vossa festa não deixem que o espírito de mundanidade se insinue: entontece mais do que água ardente como pequeno-almoço.
São tantos e tais os problemas acumulados, em todos os sectores da vida da Igreja que, ou muito me engano ou o Papa Francisco anda a preparar, passo a passo, um Concílio Ecuménico, cuidando para que não lhe aconteça o mesmo que ao Vaticano II.
Frei Bento Domingues
Fonte: http://www.publico.pt/opiniao/noticia/as-vantagens-de-nao-se-julgar-infalivel-i-1684548
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Em 1975, participei num curso de renovação comunitária promovido pelo grupo Promotor do Movimento por um Mundo Melhor.
Paulo VI tinha abandonado a prática das encíclicas e enveredado por significativas exortações apostólicas, homilias, discursos e cartas.
Sublinhava-se que nem o Concílio Vaticano II pretendera produzir dogmas e nem por isso a sua doutrina detinha menor valor. Dizia-se mesmo que provavelmente nem Jesus de Nazaré gostaria da linguagem dogmática e que aquilo que Ele preferiria seria a exortação. Porém, cad um de nós gostava de impor aos outros a sua opinião como se fosse dogma
Sim,Cristo censurava veementemente os escribas e fariseus que dogmaticamente tudo impunham aos outros, mas eles colocam-se à margem das obrigações. Todavia, Cristo também tem momentos em que fala com autoridade, aliás bem notada pelos circunstantes.
Já os apóstolos e os primeiros concílios, quando garantiam uma doutrina e uma prática, utilizavam fórmula semelhante a esta: “Pareceu aos Espírito Santo e a nós estabelecer o seguinte…”. Ora,o sentido de dogma era estabelecer o que parecia mais ajustado e não lançar anátemas conducentes ao inferno.
Por isso, o texto de Bento Domingues merece estudo e divulgação.
Foram amplamente divulgados os pensamentos do papa bom e hoje santo João XXIII na época do Concilio Ecumênico Vat II : ” Precisamos tirar a poeira imperial dos séculos e mostrar aos homens do nosso tempo a verdadeira face de Jesus ” e ainda : “A igreja precisa abrir as janelas para entrar ar novo ” . Os documentos do Concilio Vat II foram a marca forte do seu pontificado e a colegialidade ocupou o lugar da tradicional infabilidade nas tomadas de decisões. Um concilio diferente, convocado não para condenar a modernidade nem para apresentar novos dogmas mas para abrir a igreja. Pasme-se. Após a sua morte tudo foi engavetado. A pastoral da igreja no Brasil continua dentro de um sistema paroquial da época colonial e em muitos aspectos ainda é tridentina. Muitos padres novos não estudaram pela cartilha do Vat II e até o ignoram. As celebrações dos matrimônios ainda infuenciadas pelo binômio ” sagrado x profano ” são obrigadas a serem realizadas nos templos contrariando a vontade dos nubentes, verdeiros ministros do sacramento. Em suma a igreja passou 50 anos com os braços cruzados. Muito bom o artigo do Frei Bento Domingues. A proposta do Papa Francisco de abrir os braços e acolher nos remete ao papa João XXIII e a figura do Bom Pastor que sai e dá a sua vida pelas ovelhas.