Precisamos de uma cultura do limite…

Muitas vezes, no nosso dia dia, somos espectadores ou atores de comportamentos excessivos. Muitas vezes nos queixamos porque as pessoas não têm educação nem limites.
Este texto propõe-se a refletir sobre a necessidade de uma cultura do limite!

A nossa cultura está tornando-se, sempre mais, uma cultura do excesso em todas as esferas da vida pessoal e social. Paralelamente decai, de forma assustadora, a consciência dos limites! Na sociedade pós-moderna tudo avança com uma aceleração constante que não prevê a presença de freios e inibições. Tudo é relacionado ao momento presente; tudo é possível e tudo é alcançável removendo ou passando por cima dos obstáculos, sejam eles quais forem.

As culturas pré-modernas conheciam a contraposição dialética entre o limitado e o ilimitado, o finito e o infinito, o humano e o divino, o possível e o impossível, o justo e o injusto, o bem e o mal. Os antigos gregos nos legaram as noções de hybris e de némesis. Na acepção que nos foi transmitida pela literatura e pela filosofia o significado de hybris aponta claramente para o excesso desvairado do homem, que vai além da medida agindo contra os limites impostos aos humanos pela divindade ou pelo logos (a razão). O desvario, a soberba, a falta de consciência do limite provoca, fatalmente, a némesis que se materializa na punição tremenda infligida pelos deuses aos prevaricadores.

Igualmente, em todas as religiões encontramos os conceitos de pecado e de castigo. O homem que ultrapassa os limites impostos será punido pela divindade. No entanto, nos tempos mais recentes, o sentido do “sacro” tornou-se um opcional de uso pessoal, muitas vezes caprichoso e inconstante. Apesar do decaimento do senso do sacro, porém, a dialética do excesso e do limite continua a agitar nossas mentes. Sentimos que nem tudo é permitido.

A cultura do excesso é sempre mais presente no nosso mundo quotidiano. Percebemos bem o excesso na transgressão desvairada das regras da convivência civil e do respeito às pessoas, aos animais e à natureza; no consumo excessivo dos recursos materiais, na alocação desequilibrada dos recursos financeiros e humanos, na acumulação injusta dos bens e dos serviços, na exclusão econômica e social, civil e política de milhões e milhões de seres humanos…

Sentimos que os pontos de borda são ultrapassados com inusitada freqüência e com recaídas nefastas sobre a vida pessoal e a convivência social de todos nós. Piora o relacionamento entre as pessoas, se degrada o tecido das relações sociais, cresce a desigualdade e com ela, como seus efeitos colaterais, aumentam a pobreza, a violência e a exclusão social de um lado, a ostentação da riqueza e do privilégio do outro.

Há excessos praticados por minorias e excessos praticados por maiorias. Quando umas e outras não acatam os limites dos seus direitos e das suas reivindicações provocam um desajuste no corpo social e nas vidas das pessoas. Perseguindo seus próprios interesses, sem preocupar-se com o bem comum, provocam novas injustiças, e agindo de forma desmedida e ofensiva agridem e ferem os direitos dos demais.

Contra a cultura do excesso é preciso redescobrir a cultura do limite, e dos limites. Contra os excessos do poder político é preciso redescobrir a cultura democrática fundada na igualdade, na liberdade e na participação ativa de todos os cidadãos. Contra o excesso do poder econômico é preciso redescobrir o sentido profundo da atividade econômica como “administração dos bens da casa comum” de todos os homens. O excesso na produção acelerada dos lucros provoca miséria e fome para bilhões de seres humanos, o estrago da natureza e a extinção de muitas espécies animais que ficam privadas dos seus habitat. Defrontamos-nos, quotidianamente, com formas predatórias de excesso que põem a risco a vida da natureza e das sociedades humanas presentes e futuras.

A cultura do limite, longe de ser uma cultura do pauperismo e do conservadorismo, é uma cultura que visa colocar a nossa existência em relação solidária e colaborativa com todos os seres humanos, e nos proporciona a consciência de que não podemos viver sem estarmos sadiamente relacionados com a natureza, nossa mãe. E nossa senhora.
Nos ajuda, também, a re-descobrir a sabedoria de usar os bens de forma moderada, sem cairmos na escravidão do consumismo. Orienta-nos a dar valor à vida humana mais que às posses dos bens materiais e à competição desvairada para acumular riquezas.

Enfim, só a cultura do limite pode favorecer a socialização solidária e a aceitação dos valores que fundam a sociedade humana justa e a harmonia do homem com a natureza.

Giuseppe Staccone

gstacco@gmail.com

 

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