1.
Até ao século XVIII, a cultura ocidental situava o ser humano numa atitude de dependência em relação a Deus. Com o acontecimento das Luzes, o ser humano passa a considerar-se como a fonte de todos os valores. A partir daí, edifica livremente o seu destino e escolhe livremente aquilo em que acredita. O Cristianismo – assim como as outras religiões da transcendência – confrontou-se com uma ruptura que pôs em causa o fundamento sobre o qual se tinha construído.
A “morte de Deus”, proclamada por Nietzsche, tem muitos adeptos na modernidade que a vivem hoje de forma silenciosa. No entanto, a encarnação de Deus em Jesus de Nazaré oferece a base de uma proposição religiosa em consonância com a idade antropológica da modernidade.
Não vale a pena bradar contra a modernidade, a secularização, a laicidade e a perda de um ambiente cultural de constante referência a Deus, no qual, alguns até diziam, por humor ou distracção, sou ateu graças a Deus.
Não se pode pedir aos indiferentes, aos agnósticos, aos ateus, aos membros de outras religiões que façam o trabalho de evangelização da sociedade que compete aos cristãos e aos seus líderes.
Quando, hoje, se observa uma grande baixa na prática religiosa, seja ao nível da prática dominical, do número de baptizados e de casamentos, é fundamental ter em conta a situação social e cultural da Europa e do país.
2.
Mgr. P. d’Ornellas fez, em Setembro, uma conferência aos novos bispos sobre a paróquia, a falta de padres e a participação dos leigos na vida e na missão da Igreja (NRT 134, 2012, 21-37). É muito abundante em citações do Vaticano II, dos dois últimos Papas e do Direito Canónico.
Diz que não é muito aconselhável mandar vir padres de dioceses ou de comunidades estrangeiras, para suprir os recursos nacionais. É, no entanto, possível e desejável reunir paróquias e propor, aos párocos, a vida em comunidade.
Não surgem, porém, pistas para alterar a situação de penúria ao nível dos ministérios ordenados.
Pede-se humildade para aceitar a situação presente, mas não é questionado o estatuto do padre e nem sequer é abordada a questão de se poder ordenar mulheres católicas. A ideologia de
administração política de fazer “mais e melhor com menos”, parece o último achado para as aflições diocesanas e paroquiais. Esta atitude parece querer tornar-se o último grito da pastoral.
No entanto, as medidas de racionalidade administrativa não podem ser transpostas para a vida da Igreja, pois a metáfora “do pastor e das ovelhas” exige uma proximidade e uma relação de mútuo conhecimento, que é diferente de uma administração técnica.
Alfredo Teixeira, do Instituto Universitário de Ciências Religiosas, do Centro de Estudo de Religiões e Culturas (UCP), na sequência de outras investigações, publicou um estudo, na revista Theologica, 2ª série, 46,2 (2011); 249-271, sobre Identidades descompactadas: práticas e sociedades crentes no campo católico, que deve merecer uma grande atenção e debate que não cabe neste espaço.
Debruça-se, com muito rigor, sobre as actuais modalidades de prática religiosa que devem interrogar todos aqueles que têm responsabilidades pastorais. Refere uma entrevista a um pároco de Lisboa, num estilo muito oral, que pode servir para observar uma primeira descolagem do modelo tradicional: “os cristãos vão ao lugar onde se sentem bem dentro do universo da cidade.
A cidade tem, por hipótese, um milhão de habitantes; há, suponhamos, trinta paróquias, na paróquia x está o Padre tal, naquela está o grupo tal que canta desta maneira, e as pessoas sentem-se envolvidas pelas características daquela celebração, ou daquelas iniciativas sociais, e depois as pessoas ligam-se às comunidades.
A Comunidade não é, propriamente, apenas territorial, mas uma paróquia pessoal. Porquê? O que marca o ritmo daquela paróquia é o Padre que está à frente. Portanto, os fiéis que vão ali identificam-se com o ideal que o Padre oferece. Não vêm cumprir preceitos, vêm viver Comunidade. Se viessem cumprir preceitos, tanto dá que fosse o Padre x ou o Padre y, que fosse gago, surdo ou mudo. Mas se é uma paróquia pessoal, é fundamental a relação entre os fregueses e o pastor”.
3.
A sensibilidade religiosa actual já não se contenta com escolhas entre a paróquia do padre x e a do padre y.
A socióloga francesa Danièle Hervieu-Léger, tendo em conta as transformações que na Europa e na América do Norte têm afectado os regimes de identificação religiosa, propôs a figura do “peregrino” como ideal-tipo da religiosidade móvel por oposição à figura da religiosidade estável no praticante-observante da “civilização paroquial”.
Desprendida a religiosidade da objectividade social de uma religião herdada, os indivíduos procuram, com frequência, ideais espirituais que respondam às suas necessidades.
Na era do individualismo religioso e no quadro dos estilos de vida urbanos, que configurações podem revestir as práticas religiosas dos católicos que não perderam a nostalgia de uma comunidade, mas que se sentem em diáspora eclesial?
O trabalho de Alfredo Teixeira pode ajudar a encaminhar a interrogação.
Uma resposta
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