A coragem de dizer aos que querem mudança na igreja que eles, eventualmente, têm razão

À entrada da terra de Canaã, Moisés foi procurado duas vezes por causa de um mesmo problema. Em ambas as ocasiões, o líder máximo do povo de Israel, depois de examinar as questões, concluiu que a causa dos queixosos era justa (Nm 27.7; 36.5). Mais de um milênio e meio depois, outro grupo de queixosos — os crentes que só falavam grego — mostrou-se descontente porque as suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de cestas básicas, enquanto as viúvas dos crentes de fala hebraica, não. Sem perda de tempo, “os doze reuniram todos os discípulos” e deram razão aos queixosos e promoveram a eleição de um corpo de oficiais para estarem a serviço das necessidades da comunidade inteira, a bem de todos e da unidade cristã (At 6.1-7).

É difícil a uma autoridade, na esfera civil ou na esfera religiosa, talvez mais nesta do que naquela, melhorar ou revogar algum estatuto, norma ou tradição em benefício de um grupo, geralmente minoritário, descontente por razões justas. É preciso coragem e humildade para repetir a declaração pública de Moisés aos israelitas a favor do clamor dos chefes de família de Gileade: “Os homens da tribo de José têm razão” (Nm 36.5).

Há uma grande quantidade de católicos pensantes desejando mudanças na Igreja Católica. Uma boa parte não fala nada por causa do voto de obediência ao papa. Entre estes há aqueles que preferem orar intensamente a Deus e interceder pela igreja. Naturalmente esse grupo arrola homens e mulheres de diferentes ordens monásticas e movimentos. Há os que têm medo de abrir a boca e perder privilégios. Porém há também aqueles que não estão mais sujeitos às autoridades da igreja, por terem sido dispensados do voto do celibato ou por terem aberto mão dele sem a necessária dispensa de Roma, mas continuam católicos por decisão própria. É justo incluir até mesmo teólogos católicos de renome.

É verdade que entre as reclamações há coisas imutáveis, não apenas em relação à tradição, aos concílios, aos dogmas e à voz do papa, mas, principalmente, em relação às Escrituras, que devem ser a única regra de fé e prática para todos os cristãos.

O clamor por mudanças engrossa cada vez mais e vem de todos os lados. O Vaticano está sob contínua pressão. Lamenta-se profundamente a reviravolta daquele processo reformatório iniciado pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, sob o comando do papa João XXIII (outubro de 1962 a dezembro de 1965). Entre os questionamentos que estão sendo trazidos à tona, destacam-se as vozes de:

Norbert Scholl e mais 37 personagens alemãs, austríacas e suíças (28 de janeiro de 2009) — “Enquanto o Vaticano se preocupar apenas com o retorno de ‘ovelhas perdidas’ da borda eclesial tradicionalista [referência aos bispos lefevrianos], mas não anular também outras excomunhões, não rever os processos de objeção às doutrinas de teólogos e teólogas de tendência renovadora e não estiver disposto ao diálogo internacional com círculos da reforma, o barco da Igreja romano-católica ‘adernará’ perigosamente.”

João Tavares, professor aposentado, 68 anos, padre casado — “Em Atos 15, declaram-se várias vezes que surgiu grandes discussões. Hoje o Vaticano não admite discussão, pois inventou esse tal de “ex-cathedra”, dando voz e vez a um homem só, calando a voz do Colégio Episcopal e do Povo de Deus. O Espírito Santo está manietado e proibido de se manifestar no Povo de Deus e nos profetas que ele suscita, mas que Roma, com toda a tranquilidade, manda calar, obriga a calar… Haja fé e discernimento pra não confundir a Igreja de Cristo com o Vaticano, o atual ‘Pedro’ e sua cúria, no seu empenho furioso para destruir o espírito do Vaticano II e voltar à força e às benesses do poder da igreja-cristandade…”

Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Xingu, depois de recordar o Pacto das Catacumbas, na esperança de reviver o espírito do evangelho — “Que a autoridade seja de serviço. O Vaticano deixará de ser Estado e o papa não será mais chefe de Estado. A Cúria Romana será profundamente reformada e as igrejas locais cultivarão a inculturação do evangelho e a ministerialidade compartilhada…”

Eduardo Hoornaert, historiador católico belga, radicado no Brasil há quarenta anos, fundador da Comissão de Estudos de História da Igreja Latino-Americana — “Em nome do conceito de ‘heresia’ instalou-se a inquisição; em nome da ‘guerra contra os infiéis’ organizaram-se as cruzadas; em nome da ‘pureza racial’ o nazismo acendeu os fornos de Auschwitz; em nome da ‘war or terror’ Bush — ainda recentemente — mandou invadir o Iraque; em nome da ‘moralidade’, um bispo australiano declarou, uns dias atrás, que o Katrina (furacão que devastou Nova Orleans) era o ‘castigo de Deus’ (talvez por causa das clínicas autorizadas de aborto existentes na cidade).”

Hans Küng, teólogo católico suíço, 81 anos, presidente da Fundação Ética Mundial, em entrevista ao jornal francês “Le Monde” e à revista “Istoé”, e em artigo publicado no jornal italiano “La Republica” — “Quando [o papa] me recebeu em 2005, ele fez um ato de coragem e eu cheguei a acreditar sinceramente que ele iria encontrar o caminho para a reforma, mesmo que lentamente. Só que, em quatro anos, ele provou o contrário. Hoje eu me pergunto se ele ainda é capaz de fazer alguma coisa de corajoso. No momento, ele precisa reconhecer que a igreja está atravessando uma crise profunda. A seguir, ele poderia muito bem fazer alguma coisa em relação aos divorciados e lhes dizer que, com algumas condições, eles podem ser admitidos à comunhão. Ele poderia corrigir a encíclica “Humanae Vitae” (que em 1968 condenou todas as formas de contracepção), dizendo que, em certos casos, a pílula é possível. Ele poderia corrigir a sua teologia, que data do Concílio de Niceia (ano 325). Ele poderia dizer amanhã: ‘Vou abolir a lei do celibato para todos os sacerdotes’. Ele é muito mais poderoso do que o presidente dos Estados Unidos! Não precisa prestar contas à Suprema Corte. Ele poderia também convocar um novo concílio” (Le Monde). “Bento XVI é ainda mais conservador [que o papa João Paulo II]. Segue um curso reacionário, confere espaço para aqueles que pensam como ele […], comete um erro após o outro e não há nenhum bispo para corrigi-lo. Não gosta de ser contestado” (Istoé). “[Se o papa tivesse o espírito de Obama] reuniria ao seu redor os colegas mais competentes, e não os homens e as mulheres ‘sim senhor’, mas mentes independentes, apoiados [sic.] por especialistas competentes e destemidos. Iniciaria imediatamente as medidas reformadoras mais importantes por decreto (‘ordem executiva’) e convocaria um concílio ecumênico para promover a mudança de rumo […]. Mas como, com toda a probabilidade, o papa Bento XVI não será nenhum Obama, para o futuro imediato precisamos, em primeiro lugar, de um episcopado que não oculte os problemas manifestos da Igreja, mas os aborde abertamente e enfrente-os de forma enérgica em nível diocesano. Também precisamos de teólogos que colaborem ativamente com uma visão de futuro da nossa Igreja e não tenham receio de falar e escrever a verdade” (La Republica).

Frederico Stein, padre casado, 77 anos, tradutor e escritor — “Não gosto do título de ‘sacerdote’, que lembra o culto do templo de Jerusalém e de todos os cultos das religiões pagãs da antiguidade. […] Talvez seja melhor acabar com todo tipo de enfeite especial (paramentos, mitras, com exceção, talvez, de algum distintivo muito simples), tanto para homens quanto para mulheres a serviço das comunidades.”

José Luis Cortés — “A igreja que eu quero não tem sinos: as pombas se encarregam de avisar o povo. […] Claro que nesta igreja haverá também um papa! Mas um papa caseiro, com chinelos de lã, mais pai do que papa, mais santo do que o Santíssimo. E se ele se pode chamar José, ninguém deverá chamá-lo de ‘pio’ […]. Minha igreja não se enfeita, nem anda com objetos de ouro; tem humor, conta piadas […]. Eu sempre penso que, se tirarmos a roupa de qualquer pessoa, suas joias e seus títulos, ficará muito pouquinho, mas bom e autêntico.”

Os papas e a cúria romana deveriam ser como Pedro, tido pela Igreja como o primeiro papa: ele não excomungou nem isolou o apóstolo Paulo quando este o enfrentou face a face por uma questão justa, importante e urgente. Apesar da visão do lençol cheio de animais imundos, três vezes repetida, e do derrame ostensivo do Espírito Santo na casa de Cornélio, em Cesareia, comprovando a salvação tanto de judeus como de gentios (At 10), Pedro recuou mais tarde, sob a pressão dos judaizantes. Quem salvou a situação foi Paulo, que não conviveu com Jesus, como Pedro, e que antes da conversão era perseguidor dos cristãos. Foi aí que Paulo disse a Pedro: “Quando vi que não estavam andando de acordo com a verdade do evangelho, declarei a Pedro, diante de todos: Você é judeu, mas vive como gentio e não como judeu. Portanto, como pode obrigar os gentios a viverem como judeus?” (Gl 2.14).

(Fontes: “Linha de Frente”, de março/abril de 2009, e jornal “Rumos”, de abril/maio de 2009)

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