Mesmo com errata, programa de Marina é progressista

Apesar do recuo em casamento gay, programa avança nos direitos humanosMarina Silva e Beto Albuquerque
por José Antonio Lima — publicado 02/09/2014 
errata publicada no sábado 30 pela campanha de Marina Silva (PSB) a respeito das propostas de seu programa de governo para a comunidade LGBT provocou uma onda de críticas à candidata. 

De um lado, Marina foi atacada por abandonar o apoio a causas como o casamento gay e ao PLC 122, projeto que criminaliza a homofobia.

De outro, a pessebista foi criticada por religiosos, incluindo líderes evangélicos, por ter feito concessões ao que chamam de “causa gay”. Em meio à onda de ataques, um ponto importante ficou obscurecido: no quesito direitos humanos, o programa de governo de Marina Silva é progressista. E, ao menos enquanto Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) não divulgam propostas mais completas (o que está prometido), as ideias da ex-senadora são mais concretas que as de seus principais rivais.

As propostas de Marina Silva para a área de direitos humanos concentram-se no eixo 6 de seu programa, intitulado “Cidadania e Identidades”. É neste capítulo em que se encontra o trecho a respeito da comunidade LGBT, que de fato foi desidratado em comparação com a versão inicial e não contempla uma necessidade básica – igualar o direito de homossexuais e heterossexuais se casarem.

Em outros campos, no entanto, o texto é positivo. Nas 37 páginas dedicadas ao tema, a campanha de Marina trata de diversos dos graves problemas de direitos humanos existentes no País. Há espaço para muitas estatísticas e diagnósticos precisos que revelam a gravidade das violações.

Enquanto isso, a versão atual do programa de Aécio Neves dedica duas páginas e meia ao tema direitos humanos, nas quais lista 28 pontos, a maioria genéricos, como “utilização da tecnologia de informação e comunicação para inspirar a formação de agentes de transformação social” e “implementação de políticas públicas contra a qualquer tipo de intolerância”.

A versão atual do programa de Dilma Rousseff, por sua vez, tem apenas quatro parágrafos sobre direitos humanos. Há citações a programas como Juventude Viva e Viver sem Limite. De concreto, o documento da petista traz apenas a promessa de efetivar a Lei de Cotas no serviço público federal, sancionada em junho.

No programa de Marina há promessas de acelerar a demarcação de terras quilombolas e indígenas, e de fortalecer a Fundação Nacional do Índio (Funai), que no governo Dilma Rousseff perdeu poder diante da força da bancada ruralista; e de precisar a redação do artigo 149 do Código Penal, que trata sobre trabalho escravo.

O atual governo conseguiu aprovar a PEC do Trabalho Escravo no início de junho, mas a regulamentação da lei é alvo de ruralistas e outros grupos de interesses, que tentam tornar genérica a definição de forma a esvaziar a legislação.

No caso do movimento negro, Marina promete tornar inafiançável o crime de injúria racista, assim como já ocorre com o de racismo, fiscalizar a lei que institui o ensino de história africana e afro-brasileira nas escolas e “promover a formação continuada” de profissionais da segurança pública, cujo alvo primordial, como mostram as estatísticas, são jovens negros e pobres.

No caso das mulheres, não há referências à descriminalização do aborto, mas o programa afirma ao menos que a candidata, se eleita, vai “consolidar no Sistema Único de Saúde os serviços de interrupção da gravidez conforme a legislação em vigor”. Por outro lado, causa preocupação a proposta de Marina de submeter a questão do aborto a consulta popular.

  • Em primeiro lugar, não parece adequado um plebiscito sobre direitos individuais, que deveriam ser garantidos e não submetidos à vontade geral.
  • Em segundo lugar, é razoável crer que a candidata só defende essa ideia por saber que sua posição é majoritária na sociedade brasileira.
  • Em terceiro, sem um debate plural e abrangente, o plebiscito pode se tornar apenas uma forma de referendar a opressão de uma maioria conservadora sobre uma minoria de mulheres que, no limite, morrem realizando aborto em clínicas ilegais.

Esse assunto é espinhoso. O atual governo também teve problemas ao tratar dele. Em maio, diante da pressão de líderes evangélicos, o Ministério da Saúde revogou uma portaria que incluía o aborto, nos casos previstos em lei (estupro, risco à mãe e anencefalia), na tabela do SUS.

No caso dos crimes cometidos por menores, o programa de governo de Marina Silva reconhece de forma explícita que a “maioria dos jovens em conflito com a lei é vítima de um contexto social adverso, em que muitos direitos e oportunidades lhes foram negados”. A campanha não chega a condenar o ímpeto pela redução da maioridade penal, defendido por 90% dos brasileiros segundo pesquisas, mas ao menos mostra entender que na origem da violência estão as falhas do Estado.

 É uma visão de mundo progressista, por trás da qual está o reconhecimento de que, no caso do Brasil, mais repressão significa mais violência, por serem, essas instituições de encarceramento, escolas de crime, como atestam inúmeros especialistas.

Esse entendimento contrasta com o que o PSDB defende. Em São Paulo, o governador tucano Geraldo Alckmin é um ferrenho defensor da repressão à juventude, ainda que a Fundação Casa, administrada por seu governo, seja uma contumaz violadora de direitos dos jovens infratores, como comprovou reportagem de Carta Capital e também o Ministério Público.

No Congresso, com o apoio de Aécio Neves, o vice de sua chapa, Aloysio Nunes (PSDB-SP), tentou em fevereiro aprovar um projeto de redução da maioridade penal, mas o texto acabou barrado na Comissão de Constituição de Justiça do Senado. O PT, historicamente contrário a mais punição, ajudou a barrar o projeto de Aloysio Nunes, mas o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) lidera a discussão de um projeto de lei que prevê penas mais longas a menores infratores.

No capítulo 5 do programa de Marina, “Novo urbanismo, segurança pública e o pacto pela vida”, a candidatura trata de outro tema importante sobre direitos humanos – as constantes violações realizadas pelo Estado brasileiro contra os detentos. Como mostrou CartaCapital em janeiro, há um déficit de 230 mil vagas no sistema carcerário do Brasil, quadro degradante que fomenta o crime organizado e as rebeliões, cada vez mais atrozes, como mostram casos recentes em Cascavel (PR) e Parintins (AM).

Para piorar, perto de 40% dos detentos no Brasil jamais foram julgados. Diante desse quadro, o programa de Marina defende uma reorientação do cumprimento da Lei de Execução Penal, o incentivo à adoção de penas alternativas e questiona a política de encarceramento em massa adotada pelo Brasil.

Como nos outros temas de direitos humanos, as propostas de Marina Silva para os jovens infratores e o sistema carcerário são, na realidade, o mínimo que se deveria esperar de um país democrático e civilizado. No cenário atual do Brasil, é um avanço.

O programa atual do PSDB fala em penas alternativas, em valorizar a Defensoria Pública e reconhece que o sistema prisional é um problema, mas seu foco é, amplamente, a repressão. A maioria das 25 promessas do programa de governo de Aécio Neves para a área de segurança trata de temas como redução da impunidade, aumento de policiamento, fortalecimento das polícias e ampliação das prisões.

O governo Dilma Rousseff, por sua vez, não tem nenhuma ação significativa para a redução das violações aos direitos humanos no sistema prisional. No programa de governo atual a campanha petista se limita a informar que o Programa de Apoio ao Sistema Prisional gerou 47 mil novas vagas em todo o País. Em sua campanha, Dilma também tem focado a repressão. Sua principal proposta para a segurança pública, exposta em debate no horário eleitoral, é a integração de forças federais e estaduais de segurança pública.

Apesar do conteúdo bem construído de seu programa de governo, Marina terá duas dificuldades para convencer o eleitor cuja prioridade são os direitos humanos.

  • A primeira é a confiabilidade de seu programa. Se a fúria de evangélicos por algumas horas bastou para o documento sofrer mudanças bruscas, o que vai ocorrer quando, e se, ela se tornar presidente da República? Marina vai defender as causas progressistas ou vai ceder à pressão de ruralistas e evangélicos?
  • A segunda dificuldade é complementar à primeira. O vice de Marina, Beto Albuquerque, reconheceu que ao elaborar o programa de governo o PSB realizou uma “invasão de competência” ao abordar questões legislativas, como o PLC 122 e o casamento gay. Ocorre que esses não eram os únicos temas expostos no programa de governo que exigem atuação do Congresso.

A tipificação do trabalho escravo e a transformação do crime de injúria racista em inafiançável, por exemplo, também o são. Para avançar essa agenda no Legislativo, Marina, como qualquer presidente, precisará de uma base sólida no Congresso, o que exigirá dela uma habilidosa negociação com diversos partidos, uma necessidade talvez contraditória com as ideias de sua “nova política”.

 

José Antonio Lima

José Antonio Lima

Jornalista, mestrando em Relações Internacionais. É editor do site de CartaCapital desde abril de 2012. Escreve sobre mundo, política e esportes.

FONTE:  http://www.cartacapital.com.br/politica/mesmo-com-errata-bandeira-de-marina-segue-progressista-5484.

 

 

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