“Há um rico filão de teologia queer* que está profundamente enraizado no discurso religioso e que agora deve sair”.
Confira a entrevista com a teóloga Stephanie Knauss, publicada no jornal Il Manifesto. A reportagem é de Fábio Bozzato, publicada no Jonal Il Manifesto, de 10-11-2011. Tradução de Moisés Sbalerdotto. 13/11/2011
Fontes: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=49369
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=49369
Stephanie Knauss, teóloga de 35 anos, em Trento, está terminando um projeto de estética teológica no Departamento de Ciências Religiosos da Fundação Bruno Kessler e está entre os palestrantes do congresso de Pádua Inquietações queer.
Pequena e determinada, Knauss faz parte do Conselho Nacional de Teólogas e está trabalhando em um livro sobre a representação da sexualidade na mídia, dos filmes à publicidade, passando pelo cibersexo. “Um olhar de antropologia teológica – explica – que busca pôr no centro a fisicidade das pessoas e a sua relação com o discurso religioso”.
Eis a entrevista.
Falando de Igreja, é inevitável começar dos escândalos dos abusos sexuais.
Acredito que a Igreja vive desde sempre o problema da relação entre corpo e sexualidade. Estamos em Pádua: pense-se em Antônio, atormentado pelos desejos dos sentidos. Ou nas tentações de Jerônimo. Quando a Igreja detinha o poder político e o religioso, a questão podia ser escondida e controlada. Agora que ela só tem o poder religioso, a batalha sobre os corpos deve ser disputada com a sociedade secular, incluindo a ideia sobre o uso dos corpos, entendidos não como fim, mas como meio.
Você acredita que, com relação a aspectos sombrios da sexualidade, o fato de ser uma comunidade célibe e monossexual tem o seu peso?
Sim e não. Para a hierarquia, isso pode ser verdade e investe sobre a ideia e o exercício do poder, portanto, sobre a relação entre poder e sexualidade que estão sempre conectadas entre si. No entanto, “a Igreja” é muito mais. Penso nos mosteiros masculinos e femininos, separados ou vizinhos. Penso nas paróquias, que reúnem uma parte importante e leiga da sociedade. Acho que a questão dos abusos propõe à Igreja novamente o problema da sua identidade. Não me refiro só ao celibato, que agora é urgente enfrentar. Mas também a como queremos nos relacionar hoje com uma sociedade que, em sua maioria, é constituída por pessoas não crentes. E não o contrário.
Então, como você explica essa obsessão com os temas sexuais?
Certamente, a Igreja defende um poder simbólico. E é um poder forte. Penso na quantidade de símbolos religiosos usados pela publicidade: da cruz à queda do paraíso, são uma bagagem de símbolos usados no imaginário do mercado. Mas isso deveria interrogar a Igreja sobre o seu ser em um mundo do qual perdeu o contato com a realidade, até mesmo perdeu o contato com seus fiéis. Eu não tenho provas, mas aqui nos movemos muitas vezes sem provas. Não há, por exemplo, nenhuma pesquisa séria sobre a sexualidade do clero, muito menos sobre a homossexualidade. É isso é uma pena.
Que contribuição a teologia pode dar sobre as questões da liberdade sexual e do movimento queer?
Há um filão de teologia queer que está profundamente enraizado nos textos e no discurso religioso. Fazê-lo crescer pode ajudar a abrir espaços de liberdade para todos. O fato é que muitos argumentos contra gays e lésbicas sempre foram sustentados por referências religiosas. Ainda hoje, as mesmas explicações são usadas nos ambientes políticos conservadores, na Itália como nos EUA, para refutar, por exemplo, a questão do casamento entre homossexuais.
No entanto, conceitos como respeito, dignidade, amor não são variações heréticas, mas sim fundamentos teológicos. Essa teologia progressista já é majoritária no senso comum, porque já se separa a relação entre homem e mulher da obrigação da procriação. Por isso, deveria ser mais simples começar uma discussão sincera sobre a homossexualidade. Nesse sentido, é útil a contribuição do mundo judaico, com o qual se compartilham os textos antigos. No judaísmo, sem uma figura “papal”, a reflexão se articulou muito mais, e os âmbitos progressistas têm um espaço valioso importante.
Porém, ainda se reconhece à Igreja uma enorme autoridade moral e um grande peso político.
Seria preciso entender a que nos referimos. Concordo em alguns momentos, como o papa que condena a guerra no Iraque: nesse momento, foi um gesto que parecia isolado, mas que logo se tornou grande. No entanto, no mérito da moral sexual, de que autoridade falamos? Parece uma tela que reflete a luz das suas próprias palavras. Quantos fiéis seguem os preceitos sobre esses temas? Talvez, uma ínfima minoria. E eu também poderia dizer que, nesse campo, ela tem muito menos autoridade sobre o seu próprio povo do que outras Igrejas, por exemplo as evangélicas, com mais capacidade de convencimento e de controle. O que me surpreende é que a Igreja parece muda em âmbitos onde ela poderia ter muito a dizer sobre o sofrimento social, sobre a crise. Vocês já ouviram vozes religiosas de autoridade se levantarem sobre essas questões?
Il Manifesto, 10-11-2011.
* Nota: Queer é o termo inglês equivalente a LGBT.
A Teoria queer, oficialmente queer theory, é uma teoria sobre o gênero que afirma que a orientação sexual e a identidade sexual ou de gênero dos indivíduos são o resultado de uma construção social e que, portanto, não existem papéis sexuais essencial ou biologicamente inscritos na natureza humana, antes formas socialmente variáveis de desempenhar um ou vários papéis sexuais. Contra o conceito clássico de gênero, que distinguia o “heterossexual” socialmente aceite (em inglês straight) do “anômalo”, “estranho” (queer), a Teoria queer afirma que todas as identidades sociais são igualmente anômalas.
Para ler mais:
• Assessor dos bispos dos EUA renuncia após afirmar ligação entre gays e o demônio
• Gays: uma história de perseguições
• Homofobia e homossexualidade
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• ”O ser humano é muito mais do que o binômio afetivo-sexual”. Entrevista especial com Fernanda Ferreira Canfield da Luz
• O gênero multiplicado
• A recepção aos gays nos câmpus católicos
• As polêmicas relações entre gays e a Igreja Católica. Entrevista especial com Francis DeBernardo
• Religião e homossexualidade. Entrevista especial com Thomas Hanks
• Uniões homoafetivas. A luta pela cidadania civil e religiosa – Revista IHU On-Line nº. 253
• Os desafios da diversidade sexual – Revista IHU on-Line nº. 199
• À meia luz: a emergência de uma teologia gay. Seus dilemas e possibilidades . Cadernos IHU Ideias ed. 32