Antônio Mesquita Galvão*
Nos últimos dias de setembro integrei uma banca de professores para avaliar algumas teses de mestrado em Ciências Sociais. Dentre os excelentes trabalhos apresentados, chamou-se a especial atenção um deles, desenvolvido por uma aluna, no qual ela fez uma dissertação, crítico-analítica sobre uma importante teoria social de F.W.Nietzsche († 1900), a chamada “Moral do Escravo”.
Eu li o “Also Sprach Zaratustra” (1884) e “Genealogia da Moral” (1886), na década de setenta e, por falta de tempo (ou de interesse), deixei o resto para depois, inclusive o importante “A Gaia Ciência”, especialmente seu quinto tomo “Para além do bem e do mal”, de onde a danada da mulherzinha foi tirar os ditirambos para sua tese de mestrado.
A chamada moral do escravo é uma atitude psicossocial de convergência, em que “…o sistema vigente, seja ele político, social, econômico ou religioso, domestica a pessoa humana, conformando-a a suas normas…”, segundo a autora. Nesse aspecto, as estruturas resguardam-se, controlando consciências, estabelecendo ideologias adequadas às suas práxis de sustentação, convencendo os oprimidos que eles estão “numa boa”, e se não fosse o sistema, estariam na “rua da amargura”. Assim foram Stalin, Hitler, Pinochet e os ditadores militares do Brasil. Nessa teoria do filósofo alemão, o sistema moral idealiza a passividade, o senso de dever e o controle das emoções, a partir da aceitação da autoridade, da tradição e da hierarquia. É um tipo de pensamento que valida o status-quo, gerando um medo pânico às mudanças e às transformações sociopolíticas.
Nesse aspecto, a “moral do escravo” surge como uma perversão, quando os mais fracos querem atribuir valor à covardia e ao imobilismo. Nietzsche tinha um endereço certo ao formular essas construções: os cristãos, que segundo ele não reagiam, “dando a outra face”, num gesto de submissa acomodação. Materialista, ele nunca conseguiu entender os fundamentos do cristianismo. Na parte prática da tese, a aluna identificou politicamente a “moral do escravo” nas campanhas institucionais do governo, em especial na ditadura (“este é um Brasil que vai pra frente…”), no governo Sarney (“inflação zero”) e no de FHC com a propaganda do Real e da inflação em baixa onde povo assume a patriótica missão de equilibrar o cash do governo, dilapidado pelo próprio, por seus seguidores e por aqueles “predadores atados” – a imagem é da mestranda, para expressar a impunidade – com coleira de açúcar.
Dei “dez com louvor”, no que fui seguido pelos outros dois professores. A moral do escravo, concluo, é um tipo de “lavagem cerebral” que o sistema realiza na massa atrasada, a fim de anestesiá-la, para que lucro seja privatizado e o prejuízo – honrosamente – socializado.
*Doutor em Teologia Moral e Filósofo, Professor especialista em Bioética, Leigo, gaúcho, funcionário público federal aposentado, autor de mais de 100 obras publicadas no Brasil e no exterior.
Respostas de 2
Muito Bommmm =D
Totalmente errado!!!! Distorceram o conceito da moral do escravo em Nietzsche da forma mais tosca possível! A moral do escravo é uma forma de impedir a vontade de poder relacionada a moral do nobre. É uma força reativa que vem de baixo(do oprimido) para cima, e não o contrário como propõe o texto na forma de ideologia de dominação das massas para manter o status quo. Esse conceito de dominação apresentado está mais para a teoria da superestrutura em Marx.