CONFISSÃO DE UM CARDEAL

Amigas e amigos,

Passo aqui para vocês um texto de duas páginas retirado de um livro publicado na França em 2007 e que tem como título ‘Confissão de um cardeal’. Trata-se de uma longa entrevista que um cardeal da cúria romana concedeu a um conhecido autor francês.
Não é um livro de ‘confissões’ no sentido de ‘mémoires’, nem de um comentário de escândalos.
Ele não se atém ao que chama de ‘questões secundárias’, mas aborda questões que ele julga ser realmente importantes enfrentados hoje pela igreja católica e oferece pistas de encaminhamento que, afinal, não nos são desconhecidos.
Esse cardeal, que prefere ficar anônimo, é excepcionalmente lúcido e oferece um texto que pode dar uma certa perspectiva a muita coisa que estamos na realidade fazendo. Espero que gostem (e eventualmente publiquem em seus meios de comunicação), pois o tom desse livro de entrevistas ultrapassa o que estamos acostumados a ler nesses dias acerca da igreja católica e sua hierarquia.

Com um abraço,

Eduardo Hoornaert.

CONFISSÃO DE UM CARDEAL

Fonte: o livro “Confession d’un cardinal”, de autoria de Olivier le Gendre, éditions JC Lattès, Paris, 2007, pp. 379-380.

Trata-se de uma série de entrevistas concedidas por um cardeal da cúria romana que prefere ficar no anonimato).

Não há mais cristandade no ocidente por duas razões. A primeira é que a igreja, apesar de suas realizações extraordinárias e de sua boa vontade, está desacreditada. A segunda é que o mundo ocidental, por seu próprio desenvolvimento, perdeu um bom número de razões que o levavam a crer, nos tempos passados.

Querer reconstruir os equilíbrios desse passado é impossível, ingênuo e um pouco doentio. Os que se engajam nisso, gastam suas energias e aumentam a perda de credibilidade da igreja e dos cristãos. Fora do ocidente, a nossa religião ainda é vivida segundo o modelo ocidental da bela época. Esse modelo não vai durar muito por duas razões. A primeira é o desenvolvimento em curso desses paises que produzirá os mesmos efeitos dos anteriormente constatados no ocidente. A segunda é que a globalização em curso traz consigo uma ideologia que vai destruindo o sentimento religioso.

Essa globalização do mercado é criadora de conflitos agudos. Ela fabrica injustiça e miséria, provoca desequilíbrios e traumatismos dos quais ainda não conhecemos os efeitos reais. O mundo não possui meios de regular essa globalização selvagem. Nossa igreja é o único poder espiritual centralizado mundialmente. Ao invés de se empenhar na restauração de seu passado dito glorioso, ela é chamada a desempenhar um papel preponderante para tentar propor, com outros poderes, uma alternativa á globalização do mercado. Essa alternativa consiste em humanizar uma globalização que desumaniza de forma intensiva.

A igreja, em geral, ainda não tomou consciência de sua situação real, nem da situação do mundo, nem do papel para o qual é chamada a ser fiel à sua vocação. Ela gasta muita energia em combates secundários de antemão perdidos.

Nós fazemos parte de grupos que pretendem fazer com que ela tome consciência de que sua fidelidade lhe ordena mudanças de atitudes e de objetivos. Nós nos engajamos numa obra de fôlego longo que tem duas vertentes. A primeira é de tentar acelerar essa tomada de consciência da igreja. A segunda consiste em preparar o momento em que a crise se tornará tão aguda que será impossível negar a necessidade das mudanças. Nós queremos estar prontos nesse momento preciso. (Nota do tradutor: num outro tópico do livro, o cardeal opina que esse momento provavelmente chegará daqui a vinte ou trinta anos). Prontos a propor alternativas, prontos a demonstrar a validade delas graças às experiências que teremos instituídas um pouco pelo mundo inteiro.

Essas experiências minúsculas são de uma diversidade muito grande. Mesmo assim, todas elas têm um coração comum: encarnar uma nova maneira de ser cristão num mundo desumanizado. E, nesse sentido, criar espaços onde se expresse concretamente a ternura de Deus pelo mundo e pelos que nele vivem.

Eis o que um determinado número de nós está fazendo no momento, cada um onde vive, cada um segundo os seus meios. Nós nos conhecemos, nós nos reconhecemos. Nós falamos, nós colaboramos, nós tentamos convencer. Nós agimos sob múltiplas formas. Nós influenciamos, tanto quanto está em nosso poder, o desenvolvimento dos acontecimentos. Nós não somos muito visíveis, mas somos facilmente identificados. Nós estamos mais do lado da brisa do que da tempestade.

(traduzido do francês por Eduardo Hoornaert)

Fontes:

http://www.livrariafrancesa.com.br/ch/prod/132345/confession-d’un-cardinal.aspx

http://www.culture-et-foi.com/coupsdecoeur/livres/olivier_le_gendre.htm

http://www.kewego.com.br/video/iLyROoafIwFj.html

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *