A consulta sobre os problemas da família nos aparece como relevante e instigante, considerando que uma das opções prioritárias das famílias dos padres casados é o ministério da família (sacramento do Matrimônio), uma vez que renunciaram ao ministério sacerdotal (sacramento da Ordem), ligado à hierarquia, passando para o sacerdócio comum (Batismo) como um serviço específico pela família.
O questionário, embora com cunho quase inquisitório, abre espaço para uma reflexão sobre a realidade da família, considerada talvez a melhor mediação para a realização humana. O modelo familiar tem sido colocado em cheque, envolvendo suas crises e fortes influências por parte de ideologias externas, que enfraquecem a família, reduzindo-a à fonte de consumo, sem consistência sólida.
1. Sobre a difusão da Sagrada Escritura e do magistério da Igreja a propósito da família
A Igreja orientou de maneira superficial o povo cristão sobre o valor da família. Parte da fundamentação bíblica e dá muita ênfase ao catecismo romano. Não apresenta uma doutrina que desperte a alegria de viver. Falta uma sistematização para a formação da família. Muitas vezes, as fontes desta formação são buscadas fora do contexto eclesial.
A aceitação do ensinamento eclesial é relativa. O comportamento das pessoas depende muito das situações existenciais. Seguem mais a flexibilidade pastoral do que a rigidez doutrinal. A formação da família reduziu-se à preparação do matrimônio. As influências sobre o modelo da família são fortes. Há certo distanciamento entre os conceitos e as práticas.
2. Sobre o matrimônio segundo a lei natural
Em tese, continua forte a influência da lei natural. Na prática, levando em conta a antropologia e as interpretações das ciências, seria interessante uma releitura do conceito do ser humano, sobretudo, acerca de uma maneira de respeitar as liberdades e as individualidades. Mas pergunta-se: será que a lei natural não esteja baseada num conceito errado a respeito da vida? Quanto à convivência na vida a dois, porque não antes de tudo promover a felicidade de todos, deixando a moral cristã num segundo plano? Não se pode obrigar os homo-afetivos a viver conforme as regras que regem a vida dos heterossexuais.
3. A Pastoral da família no contexto da evangelização
Vivemos a experiência, de bom conteúdo, da preparação para a celebração do matrimônio comunitário. De fato, a ideia do ‘comunitário’ é urgente para a vida da Igreja. A partir desta experiência, sentimos a necessidade de uma revisão da evangelização, tanto metodológica, quanto aos seus conteúdos, uma vez que a preparação para os sacramentos de batismo, primeira eucaristia e crisma se apresenta precária e carece de melhor fundamentação, também bíblica, além de melhor interligação, a fim de oferecer melhor amadurecimento para a vida cristã. Tudo isso vai resultar, mais tarde, em benefícios para o casal.
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A ideia da “igreja doméstica”, necessariamente, há de adaptar-se aos novos conceitos e práticas de vida em relação à vida familiar na sociedade atual. A Igreja, portanto, deverá repensar sua preocupação com a orientação religiosa inicial, procurando recuperar o valor do diálogo, da oração e da leitura bíblica em família.
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Os filhos deveriam caminhar, desde cedo, com os pais. A religião é um valor que, como os outros, deve ser ensinada e cultivada desde cedo. O testemunho, a motivação, o respeito, deverão ser apresentados com coerência. A maturidade cristã do jovem favorecerá uma boa opção matrimonial.
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A família cristã educada para uma fé consciente e adulta terá condições de participar ativamente das pastorais da comunidade. A própria comunidade deve planejar e propor uma linha de formação e de ação das famílias. A pastoral da família deverá incluir um setor específico para detectar e acompanhar as crises familiares, mediante orientação espiritual e (psicológica).
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Diante de uma sociedade complexa, individualista, consumista, tecnológica e de conhecimento, a Igreja comunidade deve abrir novos espaços e caminhos. Porque não fortificar um dos eixos fundamentais da vida cristã, a Bíblia? Porque não criar novos espaços de relações intersubjetivas, dialogais e participativas para a vida comunitária? Motivar mais uma ação solidária, participativa nos problemas sociais e políticos?
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Deve-se perguntar se, de fato, vale o desejo piedoso da Igreja procurar fazer das famílias igrejas domésticas: será que, no mundo de hoje, o futuro das pessoas depende da religiosidade, da oração e das práticas religiosas?
4. Sobre a pastoral para enfrentar algumas situações matrimoniais difíceis
Observações preliminares ao item 4.
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Até que ponto as pessoas estão obrigadas a prestarem conta à Igreja – ou mesmo ao Estado – sobre a vida a dois?
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Onde há amor, há sacramento: casando-se ou não, onde não há amor, não existe sacramento, por mais canonicamente casado o casal esteja.
Não é de nosso conhecimento o registro percentual da convivência ‘ad experimentum’ em nossa realidade, mas percebe-se que uniões livres sem ato religioso nem civil se tornam cada dia mais frequentes. Grande número de pessoas não atrai o casamento religioso, enquanto o civil acontece com mais recorrência, seja por interesses econômicos, seja para dar mais segurança para o futuro.
Não há uma pastoral para estas pessoas, enquanto no meio delas há muitas que manifestam o desejo de participar dos sacramentos, mas ainda não há abertura para isso, o que faz sofrê-las. Alguns, com mágoa da Igreja, afastam-se de qualquer manifestação religiosa. Para ir ao encontro desses casos, a pastoral deveria tornar-se urgente. Porquanto não temos, no plano diocesano, trabalho algum nesse sentido. Se existe em nível nacional, não sabemos. Seria bom agilizar os estudos de casos para declaração de nulidade do vínculo matrimonial.
5. Sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo
No Brasil existe a união entre pessoas do mesmo sexo. A Igreja, porém, não aceita essas uniões. Mas ela não pode rejeitar estas pessoas, devendo procurar a ser misericordiosa para com elas. Poderia criar uma pastoral de acolhimento. Mesmo a Igreja não aprovando a união entre pessoas do mesmo sexo, as crianças destas uniões devem poder participar, normalmente, da catequese.
6. Sobre a educação dos filhos no contexto das situações de matrimônios irregulares
Não temos acesso a dados numéricos sobre estes questionamentos.
Geralmente, os pais procuram o batismo, mas se há continuidade na prática é duvidoso. Realizam-se apenas a preparação para a administração do sacramento e depois a própria Igreja não oferece qualquer tipo de acompanhamento. Se existisse uma pastoral específica para tratar desses assuntos, a realidade poderia ser outra.
7. Sobre a abertura dos esposos à vida
Observações preliminares ao item 7.
As perguntas deste item se caracterizam por um contexto europeu e, acima de tudo, eclesiástico, formuladas de dentro do ambiente, secularmente limitado a clérigos masculinos eunucos, que construíram uma doutrina do casamento onde a dimensão sexual ficou desproporcionalmente enfatizada em relação às demais dimensões, desconhecendo a beleza natural, lúdica, estética e transformadora da sexualidade.
O teor das perguntas revela antes de tudo como a Igreja, nos aspectos indicados, se impõe às consciências das pessoas, como instituição opressora em vez de ser instrumento de libertação.
A doutrina da ‘Humanae Vitae’ não é conhecida pela grande maioria dos cristãos católicos, e quem a conhece não aceita as propostas de cunho prático, pois julga que a igreja não tem competência para orientar a vida sexual dos casais, muito menos a regulação de nascimentos. A regulação compete ao casal, orientado pelos dados da ciência e da bioética, eventualmente, assessorado por médico ou psicólogo.
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A igreja deve assumir que o casamento, antes de ter uma dimensão religiosa, é uma realidade natural, cujas formas evoluem dentro das diversas culturas. Prescrever detalhes da convivência a dois é invadir um espaço que não é primeiramente dela, mas de todas as antropologias culturais da humanidade.
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Perguntar por métodos naturais demonstra desconhecimento de tudo que a ciência fornece como apoio à vida saudável e responsável do casal. Sem que se possa comparar os métodos anticoncepcionais como remédios, as pessoas de boa vontade entendem que todos os meios criados pela ciência podem ser adotados conforme as possibilidades de cada um.
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A pergunta da prática dos sacramentos da penitência e eucaristia mostra, outra vez, subliminarmente uma obsessão com a sexualidade. Julgamos que os sacramentos são expressões de aproximação, de amor, de convivência feliz e fortalecimento, pela riqueza do revigoramento no caminho difícil dos caminhantes para uma nova terra (e céu). Por isso, os sacramentos não podem ser negados a quem os busca. Os sacramentos destinam-se não aos perfeitos, mas antes aos fracos.
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Os contrastes entre a doutrina da Igreja e a educação civil são considerados inevitáveis e normais. A pergunta revela outra vez que a Igreja se considera um Estado com regras próprias, enquanto para a grande maioria do povo as normas e a educação civil são anteriores à doutrina da Igreja. Acima de tudo se entende que a igreja deve rever suas propostas e leis defasadas, para que as famílias possam reconhecer com clareza os princípios evangélicos.
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Neste contexto, perguntar como favorecer o aumento dos nascimentos é uma colocação indecente que ofende a milhões de mulheres no mundo, pois não leva em conta as situações precárias em que a maioria da humanidade vive, muito menos a submissão a que em muitas culturas as mulheres são mantidas. A natalidade é um problema europeu, de populações envelhecidas, bem diferente dos demais continentes.
8. Sobre a relação entre a família e a pessoa
A premissa está certa. Porém, não estamos seguros de que a família seja lugar privilegiado para a descoberta da vocação do homem no mundo. Há outros ambientes que igualmente convergem para descobrir a missão do homem.
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Obstáculos há muitos.
Externos: os meios de comunicação de massa, política determinada pela economia e não pelo bem comum, educação escolar direcionada à competição e individualismo, mercantilização da sociedade.
Internos (dentro da família): dificuldades de convivência, diferenças gritantes entre gerações, problemas de sobrevivência.
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Importa distinguir: há crise de aceitação de doutrinas criadas por uma Igreja que não buscou uma nova linguagem teológica e pastoral, mas repete concepções e fórmulas seculares sem repensá-las. Isto gerou nos cristãos católicos uma grande crise, afastando-os da doutrina percebida como superada.
E há crise de fé, porém sem abandono da crença num Deus Criador. Sem a mensagem libertadora da Boa Nova muitos desviam para expressões de fé alternativas.
9. Outros desafios e propostas
Os seguintes desafios e propostas devem ser encarados com sinceridade intelectual:
a) Pela estrutura hierárquica piramidal, a Igreja vive sociologicamente duas realidades: a oficial, estruturada e estagnada, e a informal da fé dos “pequenos” e todos os níveis. Como no século passado, a Igreja perde o contato com as lideranças e não aceita ser interrogada ou criticada.
b) Apesar de falar da família, as perguntas pouco se referem à mulher como protagonista principal da sociedade. Aspectos e dimensões femininas que caracterizam fortemente a convivência social são ignorados, como já foi observado anteriormente.
c) Consequentemente, a Igreja não pode fugir da análise serena e objetiva da admissibilidade do sacerdócio feminino. Fechar esta discussão como não permitida remete a Igreja novamente a condicionamentos culturais medievais superados.
d) Querer falar de evangelização e família significa a necessidade de participação indiscriminada de representantes de mulheres e homens de todas as culturas, a fim de encontrar expressões de uma evangelização contextualizada, se necessário, descentralizada por continentes e regiões.
Fortaleza, 12 de janeiro de 2014,
Coordenação do MFPC – Ceará (Brasil):
- Geraldo e Claudete Frencken
- Rosa e Carlos Mendes
- Aroldo e Margarida de Aquino
Para comunicação: geraldof73@yahoo.com.br
Receberam o texto:
– Nunciatura Apostólica (Brasília)
– CNBB (Brasília)
– CNBB Nordeste 1 (Fortaleza)
– Arcebispo de Fortaleza, Dom José Antônio Aparecido Tosi Marques
– Secretariado de Pastoral da Arquidiocese de Fortaleza
P.S. Ninguém acusou recebimento do documento!