Reflexão de Tiago Freitas, padre, a estudar Teologia Pastoral, em Roma
Explicou nessa altura que «o óleo precioso que unge a cabeça de Aarão não se limita a perfumar a sua pessoa, mas estende-se e alcança as “periferias”» (28.03.2013).
O óleo que escorre livremente é a antítese da alfândega e o principal critério de uma teologia do sacerdócio segundo Francisco.
Por outras palavras, a unção que o presbítero recebe na ordenação destina-se a ungir o povo de Deus e, por essa razão, ele é presbítero-mediador [1]. Quando não sai de si, quando não é pastor com «o cheiro das ovelha» (28.03.2013), torna-se «pouco a pouco num intermediário, num gestor» (28.03.2013), um «untuoso» (11.01.2014) funcionário da alfândega. Em síntese, o mediador [1] transformou-se num funcionário.
A Evangelii Gaudium (EG) é, por conseguinte, uma apologia ao retorno da figura do mediador, o que implica uma conversão pessoal e pastoral do presbítero (Cf. Documento da Aparecida, 366-370).
A conversão pessoal tem precedência sobre a conversão pastoral. Sem a primeira, a segunda não tem consistência ou, pelo menos, pode soar a mera cosmética e estratégia pastorais. E, no caso dos sacerdotes, a conversão pessoal verte-se em dois âmbitos relevantes.
1. Espiritualidade. Quem não tem uma vida espiritual – diz o Santo Padre – coloca «pequenos deuses» (11.01.2014) no lugar de Cristo. Esses deuses têm nomes concretos, como por exemplo a «obsessão do tempo pessoal» (EG 81) ou «seguranças económicas» (EG 80). Trata-se, portanto, de uma cultura do «individualismo» (BENTO XVI, 31.12.2012), que é a melhor modalidade para quem não deseja primeirear (tomar iniciativa) (EG 24).
2. Potestade. Um equívoco frequente é o de identificar a potestade sacramental (mediador) com o poder (funcionário) (cf. EG 104). Enquanto o primeiro é sinónimo de serviço, o segundo é sinónimo de opressão.
E Francisco não tem pudor em recordar na EG alguns momentos de opressão:
* quando se age como «controladores da graça» (EG 47),
* quando se transforma o confessionário num lugar de tortura (cf. EG 44) ou ainda
* quando se manipula o espaço da homilia (cf. EG 38 e 145).
A parte propositiva do discurso nasce depois com o tema da conversão pastoral, também ela pautada por um binómio.
1. Proximidade. A proximidade é a antítese do individualismo; é a coragem de se «acidentar, ferir e enlamear» (cf. EG 49) para viver uma «espiritualidade da diáspora» (A. BORRAS) ou, se quisermos, das «periferias existenciais» (30.10.2013).
Porquê esta insistência? Porque – como afirma logo no início – «o bem tende a comunicar-se» (EG 9) e, uma vez comunicado, cresce. De um modo análogo, a Igreja cresce «por atracção» (EG 14).
2. Comunhão. Francisco pede aos padres, mas também a todos os agentes pastorais, que assumam um «estilo evangelizador» (EG 18). Quais as implicações deste estilo?
- Em primeiro lugar, a necessidade de rever todas as estruturas eclesiais onde predomina o «aspecto administrativo sobre o pastoral» (EG 63), a «centralização excessiva» (EG 32) e a «comodidade das seguranças» (cf. EG 49).
Rever não implica necessariamente extinguir. Implica, sim, garantir que não «condicionam um dinamismo evangelizador» (EG 26).
- Em segundo lugar, ter a coragem de optar por uma «salutar “descentralização”» (EG 16)[2], ou seja, passar de uma eclesiologia piramidal para uma eclesiologia de comunhão, activando estruturas de diálogo e de corresponsabilidade (por exemplo os conselhos pastorais ou os ministérios laicais).
Nota: [1] O conceito de mediador é reservado exclusivamente a Cristo. Quando aplicado ao padre significa mediação sacramental, ou seja, representação do único mediador.
Fonte: http://fraternitasmovimento.blogspot.pt/2014/01/o-padre-segundo-francisco.html

