Em busca da Igreja do Vaticano II Parte – I Igreja, Povo de Deus.

“Os cristãos… têm o direito e, por vezes, até o dever de exprimir sua opinião sobre as coisas que se relacionam com o bem da Igreja”…(Constituição dogmática LUMEN GENTIUM, concílio Vat.II, Nº 37, Parág. 95).

Se não o maior, certamente entre os maiores, o legado do Concílio Vaticano II ao Rebanho de Cristo, quando resgata a expressão “Povo de Deus” em toda a riqueza do seu sentido, como substitutivo de velhos termos, já corroídos pelo tempo e enlameados pelas atitudes de alguns dos seus membros hierárquicos.

Lamentavelmente, alguns dos que deviam exercer suas funções de guias  e de líderes (Papa, Bispos e Padres), passaram a constituir-se em exploradores do povo cristão: ora, completando-se luxuriosamente na venda de sacramentos, sobretudo da Missa – Ceia Pascal – cerimonial de conclusão dos debates de reflexão sobre a mensagem evangélica; ora, deleitando-se escandalosamente, em um homossexualismo ilegal, na prática da pederastia e da pedofilia junto a quem deviam guiar e liderar sob a luz da Inspiração  Divina.

Talvez, nunca a comunidade mundial seguidora dos princípios cristãos tenha ferido tanto as normas que guiaram o Povo de Deus rumo à terra Prometida, quanto a nossa amada Igreja Católica, hoje. Só o requinte de corrupção em que mergulhou o pobre povo judeu, dominado pelo império romano, com a subserviência dos seus líderes religiosos junto aos governantes estrangeiros, a ponto de ter servido de marco ao Pai Eterno, para a realização do seu Plano de Libertação do Homem, em Jesus, parece ter superado os contra – testemunhos dos nossos dias.

Grandes santos, grandes santas, grandes filósofos, grandes teólogos, santos papas, santos bispos, santos padres, santos leigos cristãos…GRANDES idéias…grandes princípios, grandes teses, defendidos à custa da própria vida, às vezes…é a história da nossa mãe – a Igreja.

Há, no entanto, algo que está emperrando… Em teoria, tudo muito bem. Mas, na prática, parece que estamos a nos desviar da rota.

Quem sabe, atribui-se, modernamente, o êxito de uma empresa à capacidade, competência, e convicção dos seus dirigentes, quanto ao êxito do Projeto. Por vezes, até que os executores da obra, aqueles que metem a mão na massa, trabalham bem. Se, porém, faltam engenho e arte à equipe diretiva, a empresa vai de águas abaixo.

Seria o caso da nossa “Instituição – Igreja”?

Para começo de conversa, tem-se que fazer uma distinção bem clara entre: aqueles que mandam, na Igreja-a Hierárquia( Papa, Bispos e Padres) e aqueles que são mandados-o povo(os leigos) que, com a hierarquia, formam o Povo de Deus. Daí, comumente, uma injustiça muito frequente. Atribuem-se à Igreja, erros, expressões de autoritarismo por parte de algumas Congregações do Vaticano, que ferem a essência da mensagem evangélica de Jesus; e abusos de toda a natureza, seja na busca da riqueza, das regalias, dos privilégios clericais, da preferência aos mais abastados, em afrontante contradição aos apelos da “preferência pelos pobres”, seja no aproveitar a situação da sua liderança sobre jovens, adolescentes e crianças e explorá-los na pederastia e na pedofilia. Ora, tais falhas, muitas das quais, monstruosas, são praticadas por parte da Hierarquia, não pela Igreja – Povo de Deus.

Em uma análise do princípio filosófico latino “corruptio optimi, péssima( a corrupção do que devia ser o melhor, é a pior) está a resposta.Parece que chegamos ao gargalo da questão.

Nossa Igreja Católica, sem querer desfazer, em nada, outras igrejas ou religiões, é a que vem lá das origens – surgiu da pureza das primeiras comunidades cristãs apostólicas. Com suas bases, cientificamente históricas, poderia servir de parâmetro a outras religiões; e pelo fator da sua originalidade, devia ser modelo de todas as igrejas.

Mas, verdadeira ironia do destino. Entram na história da Igreja Católica, dois imperadores romanos, Constantino e Teodósio, que aderiram ao Cristianismo e supervalorizaram tudo quanto lhe dizia respeito: ao Papa(bispo de Roma), conferiram territórios, regalias, privilégios e todas as honrarias de verdadeiro imperador, inclusive uso de mitra, coroa, báculo (símbolo do poder) e anel de ouro; aos bispos,como príncipes da Igreja, também mitra, coroa, báculo e anel de ouro;e, os padres, por seqüência lógica, eram reverenciados como pessoas, quase sobrenaturais, aqueles que distribuíam o sagrado – (sacerdote = aquele que dá as coisas sagradas).

Até aí, 300 anos depois de Cristo, quando o mundo europeu vivia um sistema sócio – econômico, condizente com aquela prática, talvez, até Deus tenha abençoado tal situação. O grande erro, porém, consistiu em ter-se levado essa prática, por mais mil anos adiante, séc. XIII, quando a hierarquia da Igreja Católica, com todo o autoritarismo dos tempos de Constantino e Teodósio, fecha-se dentro de si própria, e por excesso de intolerância, arroga-se o direito de julgar, se cientificamente errado estava, sob penalidade, até de morte, a cargo do ESTADO o que alguém, por distúrbio de conduta, psicopatia, visionarismo, intuição futurista, estudos aprofundados, caso – Galileu, Inspiração Divina, caso – Joana d`Arc, afirmasse como certo. Foi a Inquisição – uma armadilha de maldição, com isca de ouro.

Mais um século… mais uma chance se perde.

Certamente bem intencionado, vislumbrando a evolução dos Tempos para a qual devia preparar-se a Igreja, propõe o teólogo alemão Fr. Martin Lutero um projeto de Reforma, que já se fazia urgente, no momento. Novamente, a portas fechadas, sem ouvir nem mesmo o Episcopado, o projeto de reforma é rejeitado pelo Papa e pelas Congregações Romanas. Daí, o grande “RACHA” na obra de Jesus… dividido o “REBANHO DE PEDRO”. Esqueceu-se que – “Divergências que levam a Convergências” – é o grande princípio regedor e o dínamo impulsionador de todo sistema filosófico – teológico. Sem debate, sem investigação, sem crítica, sem adequação aos Tempos, nada se depura… tudo envelhece…tudo se fossiliza. É preciso ter a coragem e a humildade de nos questionarmos.

Vão-se sete séculos (1.962), abertura do Concílio Vaticano II.

O grande Papa,sábio e santo, João XXIII, teólogo e historiador, percebe o imenso atraso em que se encontrava o legado do anúncio evangélico de Jesus.

Do séc.III (Constantino e Teodósio) ao séc.XX, vão 17 séculos de poucos avanços, na Igreja.Era urgente uma ação sábia, santa e corajosa. Virtudes que não faltavam à João XXIII. E o Concílio é CONVOCADO. Aproximadamente, 3.000 participantes, entre bispos e Teólogos-peritos.

Talvez se poderia resumir em 5 pontos, os muitos temas lá debatidos:

– Abre-se uma janela( para que todos possam ver a nova Igreja que surgirá) Abertura – João XXIII.

– Igreja – Povo de Deus.

– Igreja – um Serviço à humanidade: “Jesus veio para servir, não para ser servido”.

– AGIORNAMENTO – permanente movimento de atualização, de acordo com os Tempos.

– Encontros Sinodais (Avaliações: Bispos e Papa, por país ou grupo de países).

Era de fascinar qualquer um que se diga Povo de Deus…em um mundo de quase sete bilhões de pessoas, todas ávidas do Transcedente.

Quanto mais a sociedade planetária se sente aproximada  nas distâncias  e envolvida nos seus problemas comuns, mais tende a buscar as suas soluções no sobrenatural.

Lamentavelmente, talvez, a maior decepção. De novo, a cúpula da hierarquia da nossa Igreja fecha-se dentro dos muros do Vaticano, descarta até a contribuição valiosíssima das Conferências Episcopais, tenta calar grandes Teólogos, dos quais, alguns participantes – peritos do Concílio Vaticano II, e joga no lixo idéias proféticas, divinamente inspiradas, e, seus diretores, clérigos e leigos do Povo de Deus do ostracismo.

Tudo perdido? jamais!

Uma postura crítica, autenticamente cristã, de Bispos, Padres e leigos, resgatará sob a inspiração do Espírito Santo de Deus, o sentido profético do Concílio Vaticano II…e a nossa Igreja – Povo de Deus – passará a ser a Mãe e a Mestra de todos os povos, unindo, com o seu amor de mãe, todos seus filhos, mesmo de idéias divergentes, e iluminando com sua sabedoria de mestra, as mentes de todos quantos buscam o “Deus Verdade”, o “Deus Justiça”, o “Deus Amor”.

No romance – filme “As Sandálias do Pescador”, (1963), o Papa Kiril rejeita a coroa de ouro que lhe é posta, dizendo “meu Cristo foi coroado de espinhos…eu?…coroado de ouro? NÃO!”

No mesmo romance, o mesmo papa convida para morar no Vaticano um filósofo e teólogo futurista, figurando na pessoa do Pe. Teilhard de Chardin, francês, que divergia de Roma em certas questões, sobretudo, propenso ao Evolucionismo de Charles Darwin.

Que visão profética a daquele romancista (Morris West)! Que modelo de Papa! Finge-se simples padre… e vai “auscultar o povo nos mercados de Roma… sentir o mundo”. Quantas vezes pecamos, ao dia, menosprezando os flanelinhas dos semáforos, os garis nas calçadas, porque são pobres! Interessam-nos, de preferência, os que ajudam nas obras materiais das igrejas.

Muitas vezes, diante de certas posições de algumas Congregações Vaticanas e de membros da hierarquia católica, sobre teólogos que divergem de teorias tradicionais da Igreja, como em questões comuns do dia-a-dia, da parte de algumas dioceses e paróquias, no relacionamento com o “leigo” – eventualmente, padre casado, tem-se a impressão de que a letra morta do Direito Canônico – lei de homens, está acima da transcendental mensagem Evangélica da lei do Amor.

Só quando todos os que fazem a hierarquia da Igreja, se impregnarem do espírito de humildade, da misericórdia e do perdão cristãos, no convívio de verdadeiros irmãos, nossa Igreja poderá ser verdadeiramente o “Povo de Deus” a caminho do “Pai”.

Fortaleza, abril de 2011

José Colaço Martins dourado

Filósofo, Teólogo, Pedagogo, Diretor da Escola

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