“Os protestantes são tais porque consideram que, com todas as suas contradições, a Reforma tenha sido um dom de Deus”, escreve Fulvio Ferrario, docente da Faculdade valdense de teologia de Roma, em artigo publicdado por Notizie Evangeliche, 16-10-2013.. A tradução é de Benno Dischinger.
Eis o texto.
De 6 a 9 de outubro foi realizada em Zurique uma convenção internacional em preparação das celebrações do 5º centenário da Reforma (2017). O protestantismo europeu deve ainda trilhar um considerável caminho de clarificação em vista desta ocasião. Alguns elementos, todavia, podem ser evidenciados desde agora e podem orientar também o nosso trabalho na Itália, que está partindo com certo retardo.
Em primeiro lugar, não se tratará de um evento unicamente luterano, nem somente alemão. Já o fato de ter havido o encontro em Zurique indica uma perspectiva internacional e tal a envolver, em perspectiva, todas as igrejas protestantes.
Infelizmente faltavam de todo, em Zurique, as igrejas batistas, as pentecostais, as adventistas e o Exército da Salvação. As razões são evidentes: a Igreja Evangélica na Alemanha e a Federação Protestante Suíça convidaram as igrejas com as quais subsistem consolidadas relações de comunhão e colaboração e que mais diretamente se ligam com a Reforma do século XVI. Parece, no entanto, decisivo alargar o mais possível o horizonte.
No centro estará a mensagem da Reforma, a livre e libertadora graça de Deus em Cristo, que transforma a vida. Para as igrejas evangélicas europeias, desfalcadas pelo decréscimo numérico, deverá, portanto, tratar-se também (segundo alguns, sobretudo) de uma ocasião de evangelização. Naturalmente, também outros aspectos (a relação entre Reforma e modernidade) são centrais. É necessário, no entanto, que as prioridades sejam claras. A Reforma quis falar de Deus: celebrá-la diversamente, significaria traí-la. É claro que na Alemanha e na Suíça se trata também de um evento nacional, com enormes investimentos públicos. Se, no entanto, as igrejas se deixassem distrair por este improviso interesse da sociedade secularizada para os próprios cristãos antenados, correria o risco de perder uma ocasião importante.
Isso vale tanto mais em outros contextos, nos quais a redescoberta do evangelho no século dezesseis permanece sendo uma realidade espiritualmente estranha. É óbvio, pois, que a Igreja evangélica não pode nem quer celebrar a si mesma. Permanece o fato que a Reforma se distingue de outras tentativas de renovar a vida cristã, precisamente porque deu origem a um modo particular de ser igreja, o qual constitui, também e precisamente hoje, uma proposta à sociedade secular.
O jubileu (assim é chamado) de 2017 não pretende apresentar-se em chave anticatólica. Que, todavia, seja possível celebrá-lo junto à igreja de Roma é mais do que duvidoso, visto que esta última (repetiu-o, em Zurique, o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos) considera que haja pouco a jubilar: a Reforma rachou a igreja, se impôs com a violência, está fora da sucessão apostólica, etc., etc..
Lutero disse, sabemo-lo, no momento da morte, que “somos mendicantes, esta é a verdade”. Nós o somos, todavia, diante de Deus, não diante do Papa, por simpático que ele seja.
Uma reflexão ecumênica (e, certamente crítica: a Reforma tem suas trágicas sombras) sobre a redescoberta reformadora do evangelho seria benvinda e também necessária. Se, no entanto, as promessas são estas, é melhor refletir com atenção, a fim de evitar confusões. Os protestantes são tais porque consideram que, com todas as suas contradições, a Reforma tenha sido um dom de Deus. Documentos como aquele recentemente publicado (Do conflito à comunhão) são, sobre este ponto, a dizer pouco ambíguos e de fato agradam muito ao cardeal Koch.
Ninguém pretende impedir Roma de celebrar a própria reforma (isto é, a Contrarreforma): no caso, todavia, que, na substância, se repropusesse, quinhentos anos depois, a mesma alternativa de então (pro ou contra o único Cristo, a única graça, a única fé e a única Escritura, com todas as consequências no que se refere à natureza e forma da Igreja), cada um seria chamado a pronunciar-se com clareza.
No fundo, o 2017 constitui também um momento de verificação do caminho ecumênico.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/525088-protestantismo-quo-vadis
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Uma resposta
Ui quanta dureza… sabe porque os batistas e pentecostais não participam dos eventos e celebrações ecumênicas? Porque nós luteranas e luteranos celebramos com muita alegria com as pessoas católicas romanas. Inclusive na cidade em que moro, somos discriminad@s por termos uma caminhada ecumênica de diálogo e respeito em meio às diferenças. Nenhuma Igreja Cristã neste mundo tem uma ficha limpa, sem ter cometido atrocidades, genocídios, legitimações de violência às mulheres e crianças em nome da Bíblia, invasões aos povos ameríndios…é uma loucura tudo o que “todas as pessoas cristãs” já fizeram e ainda fazem…Gosto muito de ler os artigos deste site, mas todas as vezes que falam da Igreja protestante vem nas entrelinhas um certo cinismo, críticas e mais críticas. Fico triste com isso, afinal a reforma transformou o mundo, as cabeças de muitas pessoas, e inclusive todas as igrejas sérias e comprometidas aprenderam com o tempo da reforma a ler e estudar a Palavra de Deus e não usar apenas a imaginação e o falar o que bem entender e da maneira que convém. Celebro com irmãs/monjas, com padres e bispos com tanta alegria no coração… e sinto esta mesma alegria nas pessoas, como por exemplo na Semana de Oração pela unidade das pessoas cristãs, no dia Mundial da Oração.