Escrevi várias vezes sobre a origem, a história e o sentido do Papado, e vou fazê-lo uma vez mais de modo “crítico”, ou seja, construtivo, porque admiro ao Papado, me confesso “católico” (cristão com Papa) e porque quero que o Papado volta à raiz do Evangelho, para oferecer seu serviço aos católicos (e também a outros homens e mulheres que não são cristãos).
Alguns me comentaram que minhas postagens são longas, que são quase um “tratado”; que resuma o argumento em algumas afirmações centrais. Então, faço isso, tal como nos meus tempos de professor, apresentando dez teses sobre o Papa, que podem servir de base para uma possível discussão ou diálogo. Quem tiver tempo, lê tudo… Quem quer ficar no essencial, é só ler em negritas, no início e no final de cada tese.
Dez teses sobre o Papado
1. A Bíblia não exige que haja Papa; porém, abre um caminho que leva ao Papa (especialmente em Mt 16)
O Novo Testamento fala de Pedro, e lhe concede uma função especial na ‘dispersão’ do evangelho; porém, o que diz sobre Pedro, o primeiro dos apóstolos de Jesus, não exige que sua figura e sua função permaneça para sempre na Igreja; ou seja, que haja sempre papas sucessores de Pedro, que sejam bispos e “sumos sacerdotes” e primados. A maioria dos protestantes dizem que a função de Pedro acabou no tempo do Novo Testamento; que não necessita sucessores. Os ortodoxos agregam que a função de Pedro pode continuar; porém, não na forma atual do Papa. Além disso, muitas funções que depois foram atribuídas ao Papa vão na linha do Sumo Sacerdote do judaísmo do Segundo Templo, ao que Jesus se opôs; não na linha de Pedro.
Por isso, se o Papa quer ser Papa e a Igreja e a Igreja Católica quer mantê-lo, deverá ir às bases da mensagem de Jesus, recuperando não só a Pedro, mas a Pedro e a João, e a São Tiago e a Madalena… desde o Sermão da Montanha. Somente como “despertador” do Evangelho (na linha do galo de Pedro na noite) o Papa tem sentido. Somente um estudo a fundo (histórico e ecumênico) do Novo Testamento e do sentido da Igreja e uma volta aos princípios da mensagem e da vida de Jesus dará sentido ao papa.
2. Nos primeiros tempos (pelo menos até finais do século II d.C.) não houve Papa em Roma, nem Roma foi o centro de todas as igrejas, que formavam como um leque de cores, um arco íris de brilhos e tarefas
Certamente, muitos reconheceram a importância da Igreja romana; porém, não a vincularam com a função especial de um Bispo (que apareceu tarde, na segunda metade do século II d.C.) e que não tinha poder sobre os outros bispados e igrejas do mundo. As igrejas se consolidaram em forma presbiteral e episcopal; e isso foi bom e necessário, contra o risco dos grupúsculos gnósticos; porém, não faz parte de sua essência.
Por isso, para situar ao papado em seu lugar, teremos que refazer os caminhos da origem da Igreja, retomando talvez sua estrutura episcopal; porém, em um sentido novo, dentro de comunidades autônomas e autossuficientes, que vivem a fé encarnando-se no mundo. Somente como signo e tarefa de encarnação social, real, no mundo os bispos têm sentido (como soube e disse Irineu, no final do século II d.C.); atualmente, grande parte deles são o contrário. Sem um estudo profundo e uma atualização da função episcopal na Igreja, não se poderá falar de atualização nem de reforma do Papado.
3. O Papa não faz parte dos princípios da fé, nem da organização cristã, tal como foi “definida” nos Credos e no Concílio
Porém, a partir do século III d.C. houve bispos em Roma, que se sentiram herdeiros de Pedro e de Paulo, e realizaram uma função muito importante nas Igrejas, a serviço de sua unidade, de sua missão universal, a partir do Evangelho; porém, quase sempre como “instância de diálogo”, não como impulsionadores da fé e da missão cristã. Os bispos de Roma foram importantes e atuaram como árbitros da cristandade. Mais do que impulsionadores e guias das igrejas, foram “moderadores”, garantes de continuidade e comunhão.
Nessa linha, o Primado atual, com a Suma Potestade do Papado posterior, vai em contra da função primeira dos bispos de Roma. Por isso, se os bispos de Roma querem ser Papa (coisa que me parece boa), deverão retomar sua função primeira, para recriá-la, a partir do Evangelho, em gesto ecumênico de comunhão. Para isso, para ser signo de Jesus, eles devem renunciar imediatamente ao tipo de primado atual (que aparece no CIC no. 331)… ou explicar o que significa o primado em termos de Evangelho: “Quem quiser ser o primeiro entre vocês…”.
4. Papa poderoso, Estados Pontifícios (séculos IV-VIII)
Nesse contexto, paulatinamente (a partir do século IV d.C.), o Bispo de Roma passou a apresentar-se como sucessor de Pedro e de Paulo (especialmente de Pedro), realizando uma função importante em comunhão com outras Igrejas, que também se sentiam sucessoras dos apóstolos (sobretudo os patriarcados do Oriente). Mais ainda como sucessor fático do Imperador Romano do Ocidente (ano 474), o Papado realizou um grande trabalho cultural e religioso entre os séculos V e IX d.C., apresentando-se durante séculos como suprema autoridade moral e, inclusive, política (ao contrário do que aconteceu no oriente, que seguiu outros caminhos), acabando por converter-se em Chefes de Estados Pontifícios, a partir de meados do século VIII, ano 754, com Pepino o Breve, e depois, com o império Carolíngio… Por isso, devemos agradecer-lhes.
O Papa não era necessário; porém, foi e pode ser importante na atualidade, a serviço do evangelho e da humanidade, servindo de contrapeso à tendência mais cesaropapista dos bizantinos. Curiosamente, durante séculos, o papa foi defensor da liberdade das igrejas, contra os imperadores de Bizâncio, que quiseram controlá-los. Nessa linha, o papado ofereceu e pode oferecer um serviço na linha da mensagem de Jesus e da primeira tradição da Igreja. Porém, tem que renunciar totalmente ao poder político que ainda conserva sobre o Vaticano. Um Papa “rei” (monarca de um Estado que quer ser espiritual; porém, é muito material) vai contra o Evangelho.
5. Um Papa excludente, poder sem comunhão (séculos XI-XII)
À glória do Papado “carolíngio”, com os primeiros Estados Pontifícios, sucedeu uma longa crise que quase levou à destruição do papado, em mãos da pequena oligarquia romana e latina, ansiosa pelo poder (séculos IX e X). Somente os novos imperadores germanos (em princípio, os otones) restabeleceram o Papado, a meados do século XI, e converteram o Papa em Autoridade Suprema (ao lado do próprio imperador) e como Primado da Igreja universal, que foi, de fato, só a Igreja latina, com a Reforma Gregoriana (que culminou com Gregório VII: 1073-1085).
Essa “igreja imperial” quis impor sua autoridade sobre as igrejas do Oriente, rompendo uma tradição anterior de colegialidade e comunhão entre as Igrejas. Dessa forma, surgiu um grande cisma (1054), com possíveis culpas de ambas as partes (tampouco o desenvolvimento das igrejas bizantinas foi exemplar, e levou às rupturas monofisitas e nestorianas). Os novos Papados de Leão IX a Gregório VII (com grandes valores de organização) não souberam ou não quiseram assumir os princípios de conciliaridade e diálogo das igrejas orientais, abrindo, assim, até hoje, uma ferida nas igrejas. Sem uma conversão radical nesse campo, sem uma volta criadora (não repetitiva) à experiência dos primeiros concílios, o Papado carece de sentido.
6. Um Papa que afoga a pluralidade, séculos XIII-XV
As igrejas anteriores viviam em constante Concílio (melhor ou pior; porém, Concílio). Após a ruptura com o Oriente (1085) já não houve na Igreja verdadeiros Concílios Ecumênicos; mas, Sínodos Papais (que é outra coisa), como os chamados “Concílios de Letrán”… até Trento e o Vaticano I: Sínodos do Papa, submetidos a ele, não concílios verdadeiros. Por outro lado, o papado converteu-se em “laboratório” das grandes disputas de poder na Europa. O papa foi inimigo constante dos imperadores germânicos e, em seguida, dos reis da França, tanto no tempo das Investiduras quanto nas longas crises dos cismas do Ocidente (séculos XIV-XV: Avingnón, conciliarismo…).
O problema do cisma (e da dependência do papa, submetido de fato ao rei da França) solucionou-se externamente, durante longos concílios, na primeira metade do século XV (de Constança a Florença)…; porém, fechou-se em falso, contra todas as tendências conciliares cristãs que estavam surgindo também no Ocidente. O Oriente caiu em mãos do Islã, já separado do Ocidente. O Ocidente ficou nas mãos de um papa envolvido em lutas de poder, sem diálogo real com os bispos, rechaçando todas as tentativas conciliares que o Concílio de Constança (1414-1418) havia buscado. Perderam as igrejas, ganhou o papado, que, assim, pode apresentar-se como signo de Unidade cristã; porém, de uma Unidade Absoluta, sem verdadeiro diálogo entre as comunidades.
7. Um Papa sem liberdade, século XVI
NO momento chave do grande “estouro europeu” (começo da modernidade, humanismo…), os papas se apresentaram como dirigentes supremos da Cristandade ocidental, querendo impor um tipo de ordem sobre o conjunto das igrejas; porém, já não foram criadores; mas, conservadores do que tinham, buscando mais seu poder do que a expansão real do Evangelho. Nesse contexto, surgiu a cisão evangélica (protestante, reformada) do século XVI, com possíveis erros por ambas as partes.
Os acontecimentos podem ser avaliados de diferentes formas; porém, o novo papado não soube valorizar e dirigir os desejos de liberdade da nova consciência europeia; não soube aceitar o que o “protestantismo” implicava de evangelho; convertendo-se em signo de imposição religiosa, abrindo outra ferida cristã, que dura até o dia de hoje. O Concílio de Trento (1546-1564) foi bom (inclusive muito bom); porém, não foi um concílio de todas as igrejas, mas um sínodo papal (sem os ortodoxos do Oriente, sem os protestantes). Certamente, as igrejas “católicas” viveram um tempo rico de contrarreforma, em um plano místico, missionário, vital… Porém, perderam a liberdade essencial da comunhão cristã. A Igreja Ocidental se fez um poder forte,e m torno ao Papado; porém, deixou fora amplos espaços do Evangelho (e do cristianismo).
8. Um Papa sem Ilustração, sem arraigo no mundo (séculos XVII-XVIII)
Após a imensa crise das guerras de religião (especialmente a dos 30 anos: 1618-1648), a Igreja do Papado converteu-se em uma potência espiritual e social de tipo absolutista (na linha dos reinos de seu tempo), realizando uma função intensa de expansão missionária e, inclusive, de concórdia ente os povos católicos; porém, foi se desligando dos grandes desafios da nova humanidade, que se expressavam na Ilustração. Foi uma Igreja fechada em si mesma, após ter “perdido” a guerra da religião, enquanto avançava a ciência e o poder ia se centrando sobretudo, em mãos das potências protestantes.
Dessa forma, o Papado, cheio de valores e virtudes, isolou-se do mundo, deixando de ser a consciência viva da liberdade e conhecimento, de sanação e esperança do Evangelho, em uma história aberta ao saqueio e à imposição desde uma perspectiva ocidental. Sem dúvida, a Igreja manteve e desenvolveu elementos fortes de evangelho; porém, o fez à defensiva, como instância de poder, um Castillo Sitiado, impondo sobre o mundo católico um sistema religioso com traços de evangelho; porém, pouco evangélico em seu fundo. Sem uma volta à criatividade evangélica, o Papado, centrado nos Estados Pontifícios, perde seu sentido cristão.
9. Sistema Vaticano: Um Papa que se chama infalível porque se sente e se sabe muito falível (século XIX-XX)
O Papado não soube compreender a novidade das revoluções burguesas (em Grã Bretanha, EUA, França…), recolhendo-se para posturas absolutistas, que não eram cristãs. Nessa linha, a partir da Revolução Francesa e a restauração pós-napoleônica (finais do XVIII e princípios do XIX), o Papado foi-se convertendo em uma poderosa maquinaria administrativa com funções de organização e unificação religiosa cada vez mais refinadas sobre os cristãos católicos. Assim, converteu-se na primeira grande potência “globalizadora” do mundo. Porém, sua função chocou com os riscos que implica uma administração unificada desde acima, com meios ditatoriais e com pouca transparência, de maneira que são muitos os que pensam que nesses momentos (2013) após a renúncia de bento XVI, em vez de ser ajuda para a cristandade o Papado converteu-se em obstáculo para o evangelho.
Nesse contexto, em um Sínodo Romano preparado para isso (o chamado Concílio Vaticano I: 1869-1870), o Papa atreveu-se a apresentar-se como “potestade suprema e universal, chamando-se ‘infalível’ (como representante da Igreja Universal), em declaração que objetivamente é impecável e responde à dinâmica do evangelho… Porém, entendida em chave de poder, a doutrina da Potestade Suprema e da Infalibilidade papal converteu-se em uma espécie de grande obstáculo para o diálogo entre as igrejas, para a liberdade criadora dos cristãos e para a expansão do evangelho. A não ser que precise de outra maneira (em comunhão, em liberdade e em evangelho…) o sentido de sua potestade e de sua infalibilidade, o papado perderá logo seu sentido e função entre as igrejas. São muitos os que aplicam aqui à Igreja aquele dito popular: Diz-me de que te glorias e te direi do que careces.
10. O Papado ante os desafios atuais do evangelho, um tema do evangelho (século XXI).
O problema não é eleger um novo Papa entre os “bons papáveis” do momento atual; mas, a reforma radical do papado, para que possa ser o que quis no seu início: um serviço de evangelho e não uma potestade sobre o conjunto das igrejas. Se quer realizar um serviço cristão (e mostrar que suas função deriva do evangelho) o papado tem que demonstrar na prática, deixando de apresentar-se como algo que não é e nem pode ser: uma potestade suprema, imediata, universal sobre as igrejas (CIC 331).
O papado que ser signo de evangelho e de comunhão universal cristã; porém, criou um tipo de unidade que se funda em sua pretensão de potestade e de infalibilidade, que não só é humanamente perigoso; mas, evangelicamente suspeito… Somente no momento em que ela volte a ser signo de conciliaridade e liberdade, de comunhão e encarnação no mundo, o Papa poderá cumprir a tarefa de Pedro. Para isso, o papa tem que redefinir o sentido da infalibilidade e tem que superar sua visão de potestade suprema. É evidente que para isso não basta “reformar” o Estado Vaticano; mas, suprimir o Vaticano como Estado (para que possa converter-se em signo cristão). Precisamente por amor a Pedro e ao Evangelho (à igreja) queremos que o papado mude. Esse é o tempo de decisões audazes. Não é provável que sejam tomadas pelos cardeais do Conclave. Porém, é bom que sejam recordadas em um lugar humilde como esse, em RD.
[Continuarei apresentando o tema, de maneiras mais concretas].
[Fonte: Em espanhol, publicado em periodistadigital].
Tradução: Adital
Xavier Pikaza Ibarrondo

