Solidariedade com os jovens Árabes que lutam por liberdades e democracia!

Um tema quente e muito atual. As análises possíveis são muitas. Algumas bastante precipitadas e de pequeno raio de visão. Como as que na invasão dos países da Nato para impedirem o massacre da população civil pelo dinossauro Kadafi, só enxergam a vontade dos países ricos de se apoderarem do abundante petróleo da Líbia, o que também não deixa de ser verdade.

Mas há outras leituras possíveis. E mais profundas e abrangentes. Por trás das recentes revoltas, que, como incêndio de verão, rapidamente se alastraram da Tunísia, para o Egito e agora para Líbia, a Síria e diversos emirados, existe, reprimida por fortes ditaduras apoiadas pelo Ocidente, uma imensa sede de libertação, uma busca intensa de liberdades individuais, de emprego, de progresso, de poder pensar com a própria cabeça, independente de tiranos civis ou polícias religiosas. As fortes migrações de jovens árabes para a Europa que puderam comparar não só níveis de vida, de progresso sócio-econômico, mas também de livre expressão do pensamento, tolerância com o diferente, etc., revigorou muito esse mal estar.

Como bem profetizou o filósofo ativista Roger Garaudy: “há no mundo islâmico uma demanda de racionalidade e de liberdades que busca uma oportunidade para explodir”.

E parece que agora a encontrou.

João Tavares

“O mundo é um lugar perigoso para se viver.Não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer!” (Albert Einstein)

No começo do corrente ano de 2011 – dez anos após o tremendo 11 de setembro de 2001, que pareceu acender o estopim do conflito final entre o mundo ocidental e o mundo muçulmano, segundo a tese cara a Huntington – fomos surpreendidos pelos ventos revolucionários que começaram a soprar, impetuosamente, nos países árabes do Mediterrâneo. As revoltas derrubaram os regimes da Tunísia e do Egito. As manifestações e as lutas populares atingiram todo o Maghreb; luta-se violentamente na Líbia, onde o ditador Kadafi reage massacrando o seu povo e a revolta alastra-se na Síria, e nos Países do golfo arábico!

Os jovens que invadem as praças não levantam as bandeiras do islã, mas aquelas da revolução francesa de 1789: liberdade, igualdade e democracia! Os analistas concordam, com diferentes matizes, na avaliação do fenômeno. Trata-se, mais uma vez de um evento inesperado, como o foi a dissolução do império soviético. Ninguém esperava e de repente nos deparamos com eventos de dimensão histórica. As velhas estruturas e suas bases de sustentação ideológica ficaram abaladas, roídas por dentro na geral desatenção.

De fato, nada acontece de um dia para outro. Neste momento lembro de uma proposição, que na hora me pareceu descabida, mas que era profética. No começo de 1992 participei, no Rio de Janeiro, do 1° Seminário internacional de trabalhadores e meio ambiente, que precedeu a CONFERÊNCIA das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, sempre no Rio de Janeiro, aos 13 e 14 de junho de 1992.

Naquela ocasião tive a honra de participar de uma Mesa Redonda com Roger Garaudy, o qual além de grande intelectual era também um nobre senhor. (Quero lembrar aos mais jovens que lerem este texto que R. Garaudy foi um dos filósofos mais lidos e escutados na segunda metade do séc.XX; filósofo de formação marxista protagonizou um “diálogo” muito proveitoso com o cristianismo e já idoso, no começo dos anos 80, converteu-se ao islamismo; já muçulmano, a fim de incentivar o diálogo do mundo ocidental com a cultura islâmica fundou uma universidade em Córdoba, na Espanha).

Eu me aproximei dele durante o café da manhã e fui recebido com grande cortesia. Falamos de vários assuntos e Garaudy convidou-me para almoçarmos juntos. Ao longo dos três dias que permanecemos no mesmo Hotel conversamos de muitos assuntos, mas a coisa mais espetacular que ele me confiou foi esta: “o mundo muçulmano está interiormente muito dividido e os jovens buscam as liberdades pessoais e a democracia”.

Acrescentou: “se eu fosse jovem, podendo dispor das energias necessárias, provocaria um cisma irreversível no mundo muçulmano”. E concluiu: “há no mundo islâmico uma demanda de racionalidade e de liberdades que busca uma oportunidade para explodir”.

Hoje explodiu e não poderá ser facilmente abafada! Mas, os jovens árabes precisam de ajuda! Chegou o momento de se solidarizar com eles e de prestar-lhes os subsídios necessários para levarem a bom termo a revolução que desencadearam. A indiferença e o desinteresse, neste momento, seriam um crime! A indiferença é tão banal quanto é banal o mal! Não precisamos de sobrassaltos para sermos indiferentes, basta olhar para o outro lado ou para os nossos absorventes problemas sociais ou pessoais! Tudo simples e banal.

Hoje os olhos de todos estão fixos na intervenção armada de alguns Países ocidentais contra o tirano líbico Kadafi. Os revoltosos não conseguiram destronar o tirano e invocaram a ajuda externa; alguns Países acorreram para ajudá-los. A despeito dos muitos “se” e dos muitos “mas”; apesar da alegação da parte dos críticos de que se está intervindo por interesses materiais, esta ação representa um momento alto da política ocidental de assunção de responsabilidades e de solidariedade para com aqueles que lutam por liberdade e por igualdade! Pela democracia e pelo Estado de direitos!

É de conhecimento geral que tomar parte ao lado dos que lutam por liberdade e democracia num País estrangeiro acaba colocando frente a frente dois valores amplamente aceitos no âmbito internacional: a soberania estatal e os direitos humanos. A escolha da intervenção humanitária representa a opção pela defesa dos Direitos Humanos contra a prepotência dos ditadores ou dos regimes autoritários.

É o que está acontecendo na Líbia, onde apenas poucos Países estão lutando abertamente contra o ditador Kadafi: França e Inglaterra (Operações aéreas de ataque), Itália (Comando naval no Mediterrâneo), Estados Unidos (Apoio naval às operações). É verdade que a intervenção não é totalmente desinteressada, pois se luta também para estabelecer ou reforçar a presença econômica e política nas áreas de influência. É tudo verdadeiro, mas se evidencia o fato de que alguns Países intervieram, enquanto outros, muitos outros, estão olhando com indiferença.

Estarão do lado certeiro da história aqueles que tomaram as armas para socorrer os revoltosos que lutam contra os regimes autoritários e pela democracia ou aqueles que se contentam de seguir os acontecimentos sem interferir?

Autor: Giuseppe Staccone gstacco@gmail.com

*Giuseppe Staconne é italiano. Trabalhou como padre durante vários anos no Maranhão, no Ceará e em Pernambuco. Tem Licenciatura em Filosofia, Doutorado em Teologia pela Universidade Urbaniana e Doutorado em Letras pela Università degli Studi de Roma. Foi professor de teologia, história da filosofia e filosofia da religião na UNICAP e no ITER. Autor de vários livros e muitos artigos. Especialista em Gramsci e em Ética. Hoje, casado, mora na Itália.

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