Igrejas sem sacerdotes

“Jesus não é o fundador da Igreja, mas o seu alicerce”.

“Durante os primeiros duzentos anos da Igreja, ninguém falava em sacerdotes ou padres.

Tertuliano diz, com todas as letras que, no século terceiro, qualquer batizado bem visto pela comunidade dos irmãos, costumava presidir a “Ceia do Senhor” ou a Eucaristia.

“É justo enfatizar a imensidão de bens que a fórmula da “ordem sagrada” trouxe às comunidades cristãs.

Mas também é preciso enfatizar o veneno que esta fórmula inoculou no corpo da Igreja: o grande contingente dos leigos, pouco a pouco, foi se configurando como massa silenciosa que ouve e cala,

obedece ao que lhe é mandado e, de braços cruzados, espera por outra ordem para obedecer calada…”

João Taveres.


Até um “sábio distraído” como Rafael Sanchez Ferlosio se apercebeu disso e o proclamou, com total auto-confiança, como de costume, aos quatro ventos: “Seu problema mais grave é o desespero porque não tem vocações”. Isso , é claro, se referia à Igreja. E devemos acrescentar que já são muitos os católicos que, com maior ou menor acerto, compartilham esta opinião ou esta apreensão: “A Igreja, dizem eles, está sem padres, sem sacerdotes”.

Talvez seja bom recordar a esses temerosos e preocupados com o futuro fé que o termo “sacerdote” não aparece nos textos do Novo Testamento e que somente a partir do século terceiro as comunidades cristãs lhe concedem carta da cidadania (e – valha-nos Deus!- de que maneira…). Durante os primeiros duzentos anos da Igreja, ninguém falava em padres ou sacerdotes. A chamada “Carta aos Hebreus, é o primeiro documento cristão em que se fala de “sacerdócio” e, como bem se sabe, com referência explícita a Cristo.

Mas este importante documento canônico não tem como autor o Apóstolo Paulo, como se tem acreditado durante séculos, mas é de uma época posterior, redigido por cristãos admiradores do “Apóstolo dos gentios”, entre os quais parece que figuravam levitas e sacerdotes da Antiga Aliança chegados ao cristianismo com um desejo exagerado do esplendor que teve antigamente o Templo de Jerusalém… E também não são escritas por Paulo as cartas a Tito e Timóteo, documentos canônicos que são frequentemente citados em apoio à “ordem sacerdotal”.

As comunidades cristãs tiveram, naturalmente, pessoas que as presidiam e coordenavam -que “celebravam a Eucaristia do Senhor-, mas não eram ministros consagrados. Tertuliano, no século terceiro, diz, com todas as letras, que qualquer batizado bem visto pela comunidade dos irmãos, costumava presidir a “Ceia do Senhor” ou a Eucaristia. E, de fato, o dicionário de uso comum nas comunidades dos primeiros séculos, se apropria de termos da vida civil parta designar os diferentes cargos que dirigiam e serviam os seguidores de Jesus.

O conhecido teólogo José María Castillo apresenta nada menos do que dez cargos e serviços habituais no seio das comunidades cristãs; e todos eles com a nomenclatura secular ou civil. Mais ainda: até mesmo o termo “ordem” que, com o adjetivo “sacerdotal”, nos chegou até hoje, tem sua origem e utilização na esfera social romana. Falava-se assim da ordem dos senadores e da ordem dos cavaleiros; e, tanto num caso como no outro, a pertença a uma “ordem” comportava prestígio, riqueza, pompa, e separação da massa…

Quando as comunidades cristãs se apropriavam deste termo, tinham conhecimento de que elas estavam deixando de lado o ensinamento de Jesus, “o maior de vocês, mostre-se como o menor”, ou que estavam sendo contagiadas pelas pompas e vaidades deste mundo?

Estava para acontecer o reconhecimento do cristianismo na esfera da sociedade civil, com a chamada “paz de Constantino” (ano 313) e nós sabemos que são muitos os que situam nesse reconhecimento – em si mesmo positivo – o começo de uma certa mundanização da Igreja que, com o tempo, a levaria a mais de um excesso.

É justo enfatizar a imensidão de bens que a fórmula da “ordem sagrada” trouxe às comunidades cristãs. Mas também é preciso enfatizar o veneno que esta fórmula inoculou no corpo da Igreja: o grande contingente dos leigos, pouco a pouco foi se configurando como massa silenciosa que ouve e cala, obedece ao que lhe é mandado e, de braços cruzados, espera por outra ordem para obedecer calada …

A participação ativa dos leigos na administração da igreja agora, felizmente, já ocupa um primeiro plano de atualidade na literatura cristã do nosso tempo, mas, infelizmente e salvo poucas exceções, a tão traída e propalada participação dos leigos, ainda não passa de um piedoso desejo e aspiração. A fórmula do “ministério sagrado” ou “ordem sacerdotal”, pelo contrário, se foi ampliando e consolidando ao longo da história; e chegou até aos dias de hoje impondo uma nítida distinção entre clérigos e leigos.

Persistirá, infelizmente, esta distinção enquanto as comunidades continuarem a ser presididas, dia noite, por um ministro consagrado que tem “a faca e o queijo na mão”.

E surge a pergunta: não seria o caso de voltar ao estilo dos primeiros tempos da Igreja em que os “disponíveis” para os serviços, sem precisarem de “sacralidades” se dedicavam em dar vida a novas comunidades, a ser testemunhas da fé de uma comunidade perante outras comunidades, a servir de vínculos de amor de todas as comunidades entre si?

A quem se sente confuso, perplexo e talvez até escandalizado com estas propostas, poderíamos lembrar a magnífica expressão do padre jesuíta Karl Rhaner: “Jesus não é o fundador da Igreja, mas o alicerce dela”.

Cada geração, cada época vai ter que descobrir como se organizar para servir o Reino de Deus.

Manuel de Unciti, padre e Jornalista

Fontes: www.periodistadigital.com e: www.elcorreo.com

Tradução: João Tavares

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