Papa Francisco pode nomear uma mulher cardeal

Papa Francisco acena para fiéis ao chegar à catedral de Cagliari, capital da Sardenha, ontem (22)

Não se trata de uma brincadeira. É algo que passou pela cabeça do papa Francisco: nomear uma mulher cardeal. Quem o conhece, dentro e fora da Companhia, antes de chegar à cátedra de Pedro, afirma que o primeiro papa jesuíta da igreja está destinado a surpreender a cada dia, não só com suas palavras mas também, e sobretudo, com seus gestos. E ele o está fazendo nos primeiros seis meses de pontificado.

Os que pensam que Francisco, com sua simplicidade de pároco de interior, sua linguagem plana e seu sorriso sempre nos lábios, seja um simples ou um ingênuo se equivocam. Este papa, que não parece papa, chegou a Roma da periferia da igreja com um programa bem concreto: mudar não só o aparelho enferrujado da máquina eclesiástica como também ressuscitar o cristianismo das origens.

O simbolismo de seus gestos começou desde que apareceu na sacada central da Basílica de São Pedro, vestido de branco e dizendo-se “bispo”, pedindo que as pessoas na praça o abençoassem. Não perdeu desde então um minuto para semear de gestos inesperados seus primeiros meses de pontificado, para espanto de muitos, dentro e fora da igreja.

E o continuará fazendo. Por exemplo, com esse plano de tornar cardeal uma mulher. Ele sabe que o tema feminino dentro da igreja não está resolvido e não pode esperar. Ele o deixou claro com duas frases lapidares em sua última entrevista a “Civiltá Católica”: “A igreja não pode ser ela mesma sem a mulher”. Não é só uma afirmação. É uma acusação. A frase também pode ser lida assim: “A igreja ainda não está completa porque nela falta a mulher”.

Como introduzir na igreja essa peça essencial, sem a qual a igreja “não pode ser ela mesma”? Foi o que disse na mesma entrevista: “Precisamos de uma teologia profunda da mulher”.

E essa teologia, o papa dá a entender, não pode ser construída no laboratório do Vaticano, apadrinhada pelo poder. Está sendo construída pelas mulheres dentro da igreja: “A mulher está formulando construções profundas que devemos enfrentar”, diz.

Francisco quer resolver esse problema durante seu pontificado porque está convencido de que a igreja hoje está manca e coxa sem a mulher no lugar que lhe corresponderia, que seria nem mais nem menos o que já teve no início do cristianismo, onde exerceu um enorme protagonismo. Pelo menos até que Paulo cunhou sua teologia da cruz e hierarquizou e masculinizou a igreja.

O papa sabe que para levar a cabo a revolução que tem em mente precisa “escutar” a igreja, não só a de cima, mas também a de baixo, onde estão se realizando, por parte da mulher, “construções profundas”.

Poderia, entretanto, abrir caminho ele mesmo com alguns gestos que obrigariam a colocar com urgência o tema da mulher sobre o tapete, ou, se se preferir, sobre “o altar”. E um desses gestos seria nomear uma mulher cardeal. É impossível? Não. Hoje, segundo o direito canônico, pode haver cardeais que não sejam sacerdotes, basta que sejam diáconos.

Mas, alguém poderia dizer, hoje a mulher ainda não pode ser diaconisa, como o foi há 800 anos e sobretudo nas primeiras comunidades cristãs. Pois essa é também uma das reformas que Francisco tem na cabeça. Não se trata de um dogma. A mulher poderia ser admitida ao diaconato amanhã mesmo.

Como escreveu Phyllis Zagano, da Universidade de Loyola em Chicago, a maior especialista da igreja nesse tema, “o diaconato feminino não é uma ideia para o futuro. É um tema do presente, para hoje”.

E conta que teria abordado o tema com o cardeal Ratzinger, antes de ser papa, que lhe respondeu: “É algo em estudo”. Para Bento 16 ficou na ideia, mas o papa Francisco poderia acelerar o processo. Hoje, as igrejas Apostólica Armênia e Ortodoxa Grega, ambas unidas a Roma, já contam com diaconisas.

Chegada a mulher ao diaconato, o papa já pode, sem mudar o atual direito canônico, tornar uma mulher cardeal com o título de diaconisa. Mais ainda, bastaria mudar a atual norma para permitir que um laico, e portanto uma mulher, possa ser eleita cardeal, já que houve pelo menos dois casos na igreja em que foram nomeados cardeais dois laicos: o duque de Lerma em 1618 e Teodolfo Mertel em 1858.

O cardinalato não pressupõe a consagração presbiterial nem episcopal. Os cardeais são conselheiros do papa, e sua função principal é eleger o novo sucessor de Pedro. Há algum inconveniente em que uma mulher possa dar seu voto no silêncio do conclave? Seu voto valeria menos que o de um homem?

Um jesuíta me dizia: “Conhecendo este papa, não lhe tremeria a mão tornando cardeal uma mulher, e até lhe encantaria ser o primeiro papa que permitisse que a mulher pudesse participar da eleição de um novo papa”.

Quando Francisco, em sua longa entrevista, insiste em que não quer fazer as mudanças precipitadamente e que prefere “escutar” a igreja, é porque essas mudanças, algumas surpreendentes, já estão em sua mente, talvez bem enumeradas. Quer apenas apresentá-las com o aval não só da hierarquia, como do povo de Deus.

Com este papa, como dizia Federico Fellini, “la nave va”. Com Francisco, os pilares da igreja começam a se mover. E muitos começam a tremer. De medo. Dentro, e não fora da igreja. Fora começam a ressoar as notas do estupor e até da incredulidade. “Com este papa quase está me dando vontade de me tornar católica”, escreveu ontem uma leitora neste jornal.

Algo se move, e talvez irreversivelmente na igreja, justamente no momento em que no mundo laico e político, no campo da modernidade, os relógios parecem ter parado, todos ao mesmo tempo.

Juan Arias

PARA LER MAIS:

  • 07/05/2013 – Diaconisas na Igreja alemã: ”Retorno às origens do cristianismo”
  • 22/07/2009 – Estados Unidos barram entrada de irmã diaconisa
  • 26/05/2009 – Casa Matriz de Diaconisas festeja 70 anos, mas com preocupações
  • 17/10/2008 – Diaconisas, mulheres-padres, bispas: “Ratzinger, por que non possumus?”
  • 22/09/2013 – Teólogos pedem que papa nomeie mulheres cardeais
  • 01/07/2013 – O compromisso social das Igrejas e o papel-chave das mulheres
  • 01/05/2013 – O papa, os cardeais e as mulheres
  • 30/04/2013 – Um diaconato específico para as mulheres
  • 04/04/2013 – As mulheres têm um ”papel especial” na Igreja, afirma Papa Francisco
  • 20/03/2013 – ”Que o Papa Francisco expanda o papel das mulheres”. Artigo de James Keenan
  • 18/01/2013 – O sentido da ordenação e como as mulheres foram gradativamente excluídas
  • Respostas de 4

    1. Não acredito no que estou lendo! Felizmente o Papa Francisco vai nos levar ao aggiornamento, que tanto esperamos.

    2. Fico satisfeito com o desejo de Francisco e só não concordo inteiramente com Manuela porque acredito no que estou lendo. O diaconato feminino – de grande valor – pode chegar, sim, a uma mulher cardeal! Hosanas! Com o abraço do Emmanuel.

    3. Pra ele poder nomear uma mulher cardeal primeiro ele deve modificar a doutrina Bíblica e a Carta com tom infalível de João Paulo II sobre a ordenação de mulheres, depois mudar o Código de Direito Canônico que permite apenas sacerdotes presbíteros serem cardeais, depois ele deve estender a ordenação feminina até o episcopado, uma vez que cardeais podem eleger o novo papa e uma vez que sendo ao menos presbítero, o cardeal eleito deve ser instantaneamente ordenado bispo para poder assumir o trono de São Pedro. Não acredito que um papa cairia em apostasia.

    4. Sr. Elton,

      1. Se não me engano a Bíblia não fala em Cardeais.

      2. para ser Cardeal não precisa ser ordenado/a. Faz 150 anos que pela última vez um leigo foi feito cardeal: Theodulf Mertel. Foi cardeal durante 40 anos e foi uma das pessoas com mais influência na Curia Romana daquele tempo. Nunca foi sacerdote. Foi nomeado cardeal em 15 de março de 1858.

      ver: http://www.domradio.de/nachrichten/2008-03-12/vor-150-jahren-wurde-zuletzt-ein-nicht-priester-kardinal

      Portanto…..

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *