Cúpula do G-20, a mais incômoda para Obama em cinco anos

Críticas da Presidenta Argentina ao papel dos Estados Unidos

O norte-americano não passou bem na cúpula do G-20. Posou como visita na Rússia. E sua política agressiva para com a Síria concitou escassos apoios. Caso bombardeie, esse repúdio crescerá. Obama pode acabar seu mandato pior que Bush.

O Grupo dos 20 países mais importantes se reúne uma vez ao ano. Inicialmente, era um círculo mais fechado, de 7-8 potências, segundo somaram ou não a Rússia, e, após a crise global de 2008, decidiram convidar outros países, mesmo quando alguns, como a Argentina, não podem ser considerados “de elite”.

Havia uma razão bem objetiva para essa ampliação: escutar outras campanhas para entender as causas daquela crise e discutir medidas para, pelo menos, encaminhá-la. Também pesou um objetivo político, de enganar à opinião pública com o fato de que o poder mundial se democratizava, com novos atores. Se as fraturas do planeta capitalista se aprofundassem, o G-7 poderia partilhar tal responsabilidade com os flamejantes sócios e explicar que o fracasso não era somente seu.

Nos últimos cinco anos, o G-20 não cumpriu nenhum papel positivo na saída da mencionada crise. Não adotou medidas de fundo que houvessem requerido fulminar o papel reitor do capital financeiro internacional e das multinacionais, que exercem o poder por meio da banca comercial, dos organismos de crédito internacional e da Organização Mundial do Comércio (OIT).

Porém, tampouco foi capaz de tomar decisões mais modestas, como o controle efetivo dos movimentos especulativos das finanças e bancos que haviam estado entre as causas do estouro de 2008 e da queda do Lehman Brithers. A Cúpula dos dias 5 e 6/9 passados, em São Petersburgo, Rússia, não foi a exceção. A presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner ficou contente porque sua delegação conseguiu introduzir no documento uma crítica às “guaridas fiscais”, como serão denominados os beatíficos “paraísos fiscais”, de agora em diante.

Não foram acordadas medidas concretas, punitivas, contra essas guaridas, muitas das quais estão situadas em domínios norte-americanos e europeus. Que dizer que, na prática, independente de como sejam denominados, serão sempre paraísos…

Ocupados na guerra

O documento de São Petersburgo incluiu alguns parágrafos sobre a necessidade de reativar a economia e o comércio internacionais. Algumas reuniões de jovens do G-20, elogiadas pela mandatária argentina, se pronunciaram para que esse desenvolvimento tivesse um sentido mais social e atenda às necessidades postergadas de milhões de pessoas.

Evidentemente, os líderes do G-20, pelo menos Barack Obama e seus colegas das principais potências, não têm em mente políticas para encarar esses dramas. O seu atrasa vários anos. Pensar que em janeiro passado a Organização Internacional do Trabalho (OIP) expressou que ao longo de 2013 os desempregados aumentariam mais de 5 milhões. A soma total de atingidos chegaria a 202 milhões.

Frente a essa realidade, algumas promessas de declarações sem sustentação prática, uma vez ao ano, soam como farsa. São a prova de que, em vez de ocupar-se de assuntos importantes para a humanidade, esses governos estão preocupados em ver como invadem países, tal como, hoje, maquinam contra a Síria. A cita em São Petersburgo demonstrou que nisso andam os ocupantes da Casa Branca, o de Downing Street 20, de Londres e alguns aliados da União Europeia. Estão preocupados com os lucros de seus bancos e multinacionais; para apropriar-se do gás e do cru do Oriente Médio e para agredir quem passar em seu caminho.

Obama rancoroso

O presidente estadunidense, assumido seu primeiro mandato, em janeiro de 2009, vem desgastando-se ante os olhos do mundo como mais um político imperial, na longa lista dos que se sentaram no Salão Oval.

Inclusive, para muitos cidadãos de seu país, como também para o pensador Noam Chomsky, o seu, no caso de atacar a Síria, seria um crime de guerra. Pequeno problema para a academia Nobel ter como premiado um criminoso de guerra. Bom, diriam seus membros mais conformistas; demos também o prêmio a Henry Kissinger; a Frederick de Klerk, da áfrica do Sul, a Shimon Peres, de Israel… O que acontece se há uma mancha a mais no Nobel?

Além dessa dupla face, o afro-americano é rancoroso. E assim atuou em São Petersburgo, porque, por despeito com a Argentina, entre outras razões, vetou que o documento do G-20 contivesse críticas aos “fundos abutres”.

A presidenta argentina teria como um de seus objetivos de sua viagem à Rússia trazer uma condenação a esses fundos especulativos, que buscam cobrar ao país dívidas milionárias, sem ter ingressado em 2005 e 2010 a respectivas permutas da dívida.

Obama não repudiou os abutres e nem deixou que a reunião os mencionasse de maneira crítica. Tampouco, nos dias prévios, seu governo se apresentou como “amicus curae” ante a Corte de Apelações de Nova York, como fez a França, para favorecer a apelação dos advogados que representam a Buenos Aires contra os falhos do juiz Thomas Griesa e da própria Corte, favoráveis aos questionados fundos.

O mandatário estadunidense chegou à reunião russa atravessando seu pior momento político em quase cinco anos. Em seu país e no mundo, a agressão a Damasco tem cada vez mais detratores. O Brasil e o México o criticam porque sues presidentes foram alvo de espionagem da NSA. O Parlamento britânico se opôs ao pedido de David Cameron de secundá-lo no ataque à Síria. O papa enviou uma nota ao G-20, pedindo uma solução pacífica nesse país. Vladimir Putin foi um férreo opositor à agressão e, como dono da casa, introduziu o tema Síria na agenda, sabendo que Obama ficaria espetado.

Pode atacar da mesma forma

“Estou muito só aqui nesse mundo abandonado”, diz uma canção dos anos 60, letra de “La balsa”, de Lito Nebbia. Essa parte pode servir para simbolizar como Obama se encontra nesse momento.

Seu plano de atacar a Síria teve o voto favorável, apertado, de um comitê do Senado e é mais problemático que consiga o aval majoritário amplo na Câmara de Representantes. Seu primeiro apoio foi obtido com meias mentiras, de que não envolveria soldados no terreno e de uma operação somente durante 60 dias, prorrogáveis por mais 30. E se a Síria mantém sua resistência por mais tempo, o que fará a Casa Branca?

Os demais aliados têm sérias dificuldades para secundá-lo na aventura bélica. É o caso de Cameron. Outros governos europeus põem uma prudente distância com esse programa tão pouco atrativo, tais como a Alemanha, a Itália e as autoridades da União Europeia, como o português José Manuel Barroso, da Comissão Europeia e o belga Herman van Rumpuy, titular do Conselho Europeu.

O próprio Secretario Geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-Moon, tampouco é favorável e reclamou tempo para a paz. Pediu em São Petersburgo que se aguardasse pelo menos o relatório dos inspetores de armas das Nações Unidas, que estiveram investigando nos subúrbios de Damasco sobre a alegada utilização de armas químicas.

Esse expediente das “armas químicas” tem dado espaço para comparações da atual campanha contra a Síria com a guerra de mentiras prévias à agressão ao Iraque. Isso não só aconteceu no plano das denúncias e polêmicas; também chegou ao fático, pois a agência oficial síria Sana manifestou que o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, havia pretendido ilustrar a responsabilidade do governo de Al Assad com uma fotografia do ataque químico de 21 de agosto de 2013, em Damasco, com… uma foto tomado por um fotógrafo italiano em 2003, no Iraque. Duas mentiras se unem por uma mesma fotografia, fato que ecoou até no New York Times.

Obama pode bombardear a cidade de Damasco e outros pontos da Síria, apesar de sua solidão e em meio às críticas cruzadas da maior parte da humanidade.

O G-20 pode romper-se

Se o norte-americano dá ao Pentágono de Chuck Hagel a ordem de atacar, com naves e aviões situados no Mediterrâneo e em zonas próximas, e, independentemente do resultado que pode acontecer no campo de batalha, tal agressão pode trazer alguns dos seguintes movimentos ou consequências políticas:

– Radicalização dos movimentos populares e de governos do Oriente Médio. A ideia de “Todos somos Síria” pode estender-se.

– Aumento do anti-imperialismo na América Latina e no Terceiro Mundo, fortalecendo-se governos como os da Venezuela, do Equador, da Bolívia etc.

– Divisão política no interior dos EUA, onde os democratas pagarão o maior preço, e aumento de reclamações populares nos EUA e na Europa contra os ajustes e pela paz.

– Maior desagregação do espectro de alianças que hoje os EUA mantêm a duras penas com a União Europeia, a Aliança do Pacífico, e governos árabes pró-ocidentais.

– O G-20 não se reunirá em tempos normais, ou pelo menos não com assistência dos enviados de Washington. O Grupo pode romper-se ou desaparecer, sob o peso de tais diferenças e surgir outros espaços de debate do poder mundial que hoje se perfilam no Brics, na Alba e na Organização de Cooperação de Xangai. Se alguém pergunta o que aconteceu com o G-20, teriam que responder que Obama o rompeu com ajustes e com bombas.

Tradução: ADITAL

 

Emilio Marín

 

Jornalista argentino

Fonte: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=77496

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