Congresso Nacional, um outro rendez-vous

Há tempos eu produzi uma matéria jornalística para os espaços onde assino coluna (jornais, revistas e portais) a qual dei o nome de “Rendez-Vous da República”, em que critiquei o bordel em que estavam os altos escalões da República (Executivo, Judiciário e Legislativo) pelo péssimo exemplo dado à cidadania nacional.

Rendez-vous (randevú) para quem não lembra, é o nome que se dava, antigamente às casas de tolerância, naquela época mais recatadas que o atual bordel da República.

Na época, minha crítica distinguiu, entre outras coisas, a espetacularização que o STF fez recair sobre os julgamentos do “mensalão”, cujo epílogo ainda não se fez notar, deixando antever, como falei à época, tratar-se mais de uma pirotecnia ideológica do que jurídica. Muita galinha e pouco ovo.

Pois agora, um “outro rendez-vous” se instalou em Brasília, na Câmara Federal, como se a “Casa da Tia Carmen” lá tivesse reaberto as suas portas para suas práticas pouco morais, de busca de interesses e lucro. Revelando um desprezo absoluto por sua imagem e pelo julgamento da opinião pública, a instituição Congresso se auto-desmoralizou através de um ato de tolerância concedido de forma espúria ao Deputado Natan Donadon, condenado (já está cumprindo a pena em Brasília, na Papuda) a treze anos, por peculato e outros quejandos, condenação esta em última instância: irrecorrível. Casa de tolerância e rendez-vous são sinônimos.

Depois desses deslizes morais o que vamos ensinar aos nossos filhos, alunos e crianças do Brasil? Hoje, a mídia do mundo todo comenta essa desfaçatez, e ri de nós, um país que há poucos dias, ante as manifestações dos jovens e cidadãos de bem, prometia um banho de moral para lavar a política brasileira.

No dia da votação, alguns deputados se inscreveram para a sessão e foram embora, só para ganhar o jetom. Até para serem desonestos eles são covardes.

Entrevistado nas ruas de Brasília, o povão coitado, aquele que paga a conta e exige moralidade revelou sensações de vergonha, impotência e indignação. Cento e trinta e um deputados foram contra a cassação…

Não se sabe quem votou, pois com o voto secreto (não havia saído uma lei banindo essa prática?) não se sabe quem foram os lacaios que agiram à sorrelfa. Condenado, Donadon pode ser chamado de criminoso. Pois seus pares, na contramão da ética, decidiram mantê-lo na Casa, quem sabe como um paradigma de moralidade.

Eles reclamam quando a gente fala que na Câmara Federal há muitos ladrões… que no Congresso “existem mais de quinhentos picaretas” (lembram dessa?) e votando de forma secreta, eles confirmaram sua fama de safados.

Espera-se que alguém faça alguma coisa contra essa instauração de mais um rendez-vous na casa do povo.

ARTIGO ESCRITO EM 28/08/2013

Antônio Mesquita Galvão.

Filósofo, teólogo, escritor, doutor em Teologia Moral

Fonte: enviado pelo autor, via e-mail: kerigma.amg@gmail.com

 

 

Uma resposta

  1. Nunca foram tão precisas e oportunas as palavras do “grande” Rui: “De tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a rir-se da honra, desanimar-se da justiça e ter vergonha de ser honesto”.
    Hoje, agora, cada brasileiro pode também dizer: Diante de tanta desfaçatez, diante de tanta canalhice e de tanta desonestidade e covardia dos deputados e senadores do Brasil, sinto vergonha de ser brasileiro.

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