
Todos estamos elogiando tudo o que o Papa Francisco disse e fez durante a semana passada no Brasil. Com exceção de alguns ranzinzas e de má vontade, há unanimidade na apreciação, extremamente positiva, da visita apostólica desse nosso maravilhoso irmão e pai.
Mas, sejamos francos e sem rodeios. Por tudo o que o Papa disse e fez, até há alguns anos ou meses, haveria as seguintes alternativas:
- se fosse um seminarista, certamente seria convidado a deixar o seminário;
- se fosse um sacerdote, provavelmente seria advertido, julgado imprudente, sem tato, corria o risco de expor a Igreja a más interpretações, poderia receber uma censura canônica ou convidado para um curso de espiritualidade em universidade romana;
- se fosse pároco, dariam um jeito de transformá-lo em administrador paroquial ad tempus, sob observação;
- se fosse um professor de teologia, indiscutivelmente, se não perdesse a cátedra, teria de se submeter a um silêncio obsequioso (por muito menos o Pe. Comblin não pode dar cursos em universidade católica);
- se fosse um bispo, estaria encerrada a sua carreira, despertaria ciumeira, não seria eleito para funções na conferência episcopal, seria removido para regiões inóspitas;
- se alguém lhe desse apoio, ficaria na mira da suspeição, seria considerado um inocente útil a serviço de um perigoso solidarismo, estaria na lista dos não confiáveis para as iniciativas pastorais.
Não creio que isso aconteceria no Brasil, afinal de contas julgamos não estarmos tão aparelhados assim, mas em algumas dioceses ou países deste vasto mundo… Ah! Isso aconteceria sim.
E, no entanto, o que o Papa disse e fez –graças a Deus– pertence a mais genuína e fiel tradição evangélica, a mais pura doutrina da Igreja. Nele convergem as mais belas virtudes do cristianismo, as mais densas tradições dos Padres da Igreja, o incomparável testemunho da misericórdia do Pai, o seguimento de Jesus, o Bom Pastor, a força do Espírito que renova a face da terra, a fervente oração.
Manifestou uma comovente ternura pela Virgem Mãe de Deus e nossa, incansável carinho pelos jovens, pelas crianças, pelos anciãos e pelos simples, valorizou a mulher, respeitou os marginalizados, na humildade que o leva a um despojamento e desapego pouco usual entre os homens, até mesmo entre os homens de Deus.
Não fez o gênero do messias milagreiro; mas deu-nos o exemplo daquilo que o Evangelho apresenta como gradação maior que o milagre da ressurreição dos mortos: “os pobres estão sendo evangelizados” (Mt 11,5).
Feliz de quem não se escandalizar a respeito de Cristo e de seu Vigário!
Para não me estender demasiado, uma coisa ainda me preocupa e, como bom mineiro, me preocupa e me deixa desconfiando. Até a imprensa, que costuma ser tão medíocre nas coberturas sobre religiões, que muitas vezes demonstra verdadeira má vontade para com a Igreja, parte dela se compraz em explorar unicamente os fatos negativos da vida eclesial, e que demonstra uma impressionante falta de inteligência e lerdeza para acompanhar a evolução do catolicismo, essa mesma imprensa –claro que não podemos botar certas emissoras confessionais nesse préstito– parece unânime em acolher a significação positiva do Papa Francisco para a Igreja e para o Brasil.
Será que, pela primeira vez, estamos nos curvando diante dos fatos?
Sinais dos tempos?
Domingos Zamagna – Adital