PROVAÇÕES – IGREJA – NATAL

Uma bela, sólida e pertinente Meditação e Mensagem de Natal de nossos colegas de Belo Horizonte, José Lino e Beatriz.

Pode-se, honestamente, chamar de “Provações da Igreja”, como certos membros da hierarquia insistem em apresentar, os frutos podres de uma hierarquia omissa e/ou conivente com tantos gravíssimos abusos sexuais dentro dela, desde há muito tempo, em vários continentes?

Chamar  isto de “provações”, seria no mínimo um absurdo, com o qual não podemos concordar em hipótese alguma. Seria como querer tampar o sol com a peneira, porque,  não é possível que Deus, que é Pai e Mãe, queira provar sua Igreja desse modo: permitindo que crianças e jovens inocentes sejam vítimas da índole  doentia e pervertida de alguns padres” – do texto abaixo.

Repassado por João Tavares

 

Motivados por u’a mensagem Natalina um tanto quanto anômala:  “as provações que atingiram a Igreja, neste ano de 2010, transformem-se em  graças e bênçãos para quantos neste Natal contemplem no Recém-Nascido…. que sendo rico, se fez pequeno e indigente por nós…”, resolvemos fazer algumas indagações e considerações pertinentes e comentar situações que há muito, nos intrigam, como cristãos e FMPC (Família do Movimento dos Padres Casados).

Não ficou claro quais seriam as provações pelas quais a Igreja passou neste ano. O que se sabe, e que foi amplamente divulgado pela imprensa, neste e nos anos anteriores, foram os crimes de “pedofilia” cometidos por membro do Clero, no mundo inteiro. A mídia, para usar uma expressão popular, “nadou de braçada” nesse pântano infecto. A onda de escândalos foi tão grande que chegou a respingar nas camadas superiores da Hierarquia Católica. Vários Bispos foram afastados de suas dioceses, ou porque foram coniventes com criminosos ou porque foram omissos em tomar as providências cabíveis nos diversos casos.

Chamar  isto de “provações”, seria no mínimo um absurdo, com o qual não podemos concordar em hipótese alguma. Seria como querer tampar o sol com a peneira, porque,  não é possível que Deus, que é Pai e Mãe, queira provar sua Igreja desse modo: permitindo que crianças e jovens inocentes sejam vítimas da índole  doentia e pervertida de alguns
padres. Tais crimes são tão hediondos e terríveis que marcam a alma de suas vítimas pelo resto de suas vidas, deixando nelas traumas tão profundos, para os quais, até agora, não se encontraram remédios. Que fique claro: não estamos dizendo que “pedofilia” seja crime exclusivo dos homens da hierarquia católica.

Há um rol extenso de catástrofes que, lato sensu, poderiam ser qualificadas de provações, mas sem lógica pensar assim, porque são situações que estão, direta ou indiretamente ligadas as forças da natureza, que atingem as pessoas indistintamente, independente de serem da Igreja ou não. Entre essas, estão: secas regionais, enchentes em áreas altamente povoadas, fome, surto de doenças endêmicas, terremotos, tsunames, etc.

Queremos um Natal pleno de bênçãos e graças, sim, não  para corrigir mazelas e crimes que são frutos de mentes más e pervertidas, porque, nesses casos Deus não costuma intervir, por razões óbvias, mas que seja vida e luz para as famílias. Vejam a parábola do “filho pródigo”, em que o pai sabia, ou pelo menos, previa o que o filho iria fazer saindo de casa, mas, assim mesmo,  não o impediu. Deixou que fosse gastar sua herança com prostitutas, sabendo que ele voltaria na hora em que o dinheiro acabasse, por isso ficou esperando e quando ele apareceu na curva da estrada, o recebeu de braços abertos.
Interessante que a história não fala que ele (filho – homem – adulto), em suas andanças, tenha prejudicado ou explorado alguma criança ou jovem.
Mais um motivo para a gente pensar que “pedofilia”e coisas semelhantes não podem ser consideradas “provações” para a Igreja, como Povo de Deus.
A ternura de um Menino numa fria manjedoura deve  mover nossos corações para trabalhamos pela paz e pela justiça, e para que haja mais fraternidade entre os homens. Que nossos votos de “Feliz Natal” ultrapassem as simples palavras. Hoje, mais de 2000 mil anos depois, que  homens e mulheres de boa vontade sejam capazes de ouvir e entender a verdadeira  mensagem evangélica. E  a Igreja sobretudo, pelos seus Dirigentes, seguindo a Estrela,  aponte  os caminhos
seguros para a Casa do Pai, com exemplos sem discriminações nem proibições que, em vez de construir, só solapam os alicerces do Reino e atrasam a caminhada do Povo de Deus.
Os erros e pecados que nas últimas décadas macularam, e até hoje maculam e deformam a face da Igreja, são frutos da maldade de mentes pervertidas e desestruturadas, que só serão corrigidos e sanados através de ações firmes, corajosas e efetivas provenientes das autoridades competentes.
Nestes casos, seria prudente atender e entender o alerta dado por Cristo, em Mt. 24,43: é preciso vigiar, para não ter que tomar providências só depois que a casa tiver sido arrombada. E não adianta chorar sobre o leite derramado.

Diante dessas calamidades, ficamos tristes e chegamos a pensar que é verdade o que diz o poeta: “O Povo de Deus pelo deserto caminhava… era rico em graça, mas às vezes, só tinha o pó da estrada…”
Natal, pergunta-se, é tempo de esperar que os céus se abram e façam chover o Justo, com bênçãos e graças para lavar tanta  sujeira? Não
cremos!
Enquanto isso, o Povo de Deus continua caminhando (até quando?) rezando e  pedindo perdão… pedindo perdão para seus pastores. Nesse contexto caótico poder-se-ia perguntar ainda: E a falta de padres, na Igreja, é “provação? A resposta honesta é NÃO. Não porque a hierarquia não está fazendo questão de padres, mas de homens celibatários para serem ordenados padres. Este “artigo”, contudo, está em falta no mercado, e vai diminuir e até acabar de todo. É evidente que
não é provação, pois há séculos que se está  pedindo sem alcançar: Mitte Domine, operários in messem tuam… Ou Deus está surdo ou nãoquer mais esse tipo de operários para a sua Messe! Hoje, um grandecontingente da Igreja, pensa, e com razão, que a segunda hipótese seja a verdadeira.

Qual será o motivo de tanto silêncio? O objeto é bom!. A causa é justa! Mas o pedido está mal feito. As pessoas, e não são poucas,  já não acreditam mais que o padre seja um poço de santidade, principalmente no que se refere a sexo, mas abomina e execra os pedófilos, e, não podia ser de outra forma. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Salvo engano, achamos que já passou da hora de a hierarquia católica dar uma mexida com seriedade, profundidade e honestidade na estrutura que está aí caquética a mais não poder. Estamos no século XXI e o império dos patriarcas e imperadores do século IV, que convocaram o Concílio de Nicéia,  já não existe mais, e as investidas dos protestantes no século XVI por causa das indulgências e outras mazelas do Poder de Roma, que motivaram o Concílio de Trento,  estão, também, superadas.

O mundo se modernizou, a ciência evoluiu, as notícias já andam nas asas das “teles”, a juventude não acredita mais em sexo só para depois do casamento, a AIDS está matando aos montes, Jung, Freud, Alan Kardec, Carlos Mesters, Leonardo Boff  e muitos outros autores sérios e de peso são lidos cada vez mais por um número cada vez maior de pessoas. Enganam-se os que pensam que o povo continua ignorante e acreditando em tudo que se lhe passa como se verdade fosse.

Cá fora, a impressão que se tem, olhando para dentro dos “muros da Igreja”, é de que a Estrela do Natal está se apagando ou sua Luz está totalmente desfocada, pois gastam-se energias preciosas discutindo “sexo de
anjo”, e o essencial fica relegado a 2º plano. Que pena! Tudo isso leva parte considerável do Povo de Deus, cada vez mais, a desinteressar-se por religião, principalmente a Católica e a buscar respostas para seus questionamentos fora a Igreja.

Mas, estamos no Natal,  e, é preciso não perder a fé nem a esperança. Vamos esperar,  orar,  caminhar e acreditar no que o anjo anunciou: “Não tenhais medo, pois vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: Hoje, na cidade de Davi ( para nós, é aqui e agora) nasceu para vós um SALVADOR, que é o CRISTO SENHOR”.

Belo Horizonte, 15 de dezembro de 2010.
José Lino e Beatriz

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