Minha existência foi contínua busca de “mais vida”. Vejamos por que.
– “Mais vida” para atingir a vida. Mais vida de meus pais, Luiz e Benta Gonzaga, de Brusque SC. Estavam casados há 6 anos, e não conseguiam ter filhos. Apesar dos esforços médicos e tratamentos caseiros. Um dia o médico disse a mamãe: “Benta, só Deus! A medicina esgotou seus recursos!”. Então ela e papai, obedecendo a dito popular e à fé adotaram uma menina e fizeram promessa de consagrar a Deus o filho que nascesse. Pois não é que imediatamente eu fui concebido?…
– “Mais vida” na infância. Meus pais possuíam uma chácara de setenta metros quadrados, com cafezal, frutas e árvores. Nossos vizinhos eram impraticáveis para minhas brincadeiras de criança: os presos da cadeia pública, as freiras de um colégio, os seminaristas e padres de um seminário, e os defuntos do cemitério brusquense… Então eu me deliciava correndo pela chácara, trepando nas árvores mais altas, saboreando frutas (jabuticabas, laranjas, pêssegos, grumixamas, pitangas, bergamotas, araçás, uvas) e caçando passarinhos de gaiola (naquele tempo era permitido). Assim preparei meu espírito na paz e meu corpo no atletismo.
– “Mais vida” religiosa. Desde os 6 anos meus mui religiosos pais (ele era congregado mariano; ela, do apostolado da oração) me encaminharam à paróquia e me tornei coroinha. Decorei todas as frases do latim e diariamente “ajudava” a missa do padre Roberto, capelão das freiras do colégio, às 5:30 da madrugada… Aos sábados e domingos me unia aos demais coroinhas da igreja matriz.
– “Mais vida” vocacional. Nem tinha eu 10 anos, meus pais e o pároco, Pe. Vicente, me convenceram de ir para o seminário, para ”ficar padre”. Criança inocente e dócil, lá fui eu para o Seminário menor metropolitano de Azambuja, a 3 km de nossa casa, com 1 mala, num carro de mola (puxado por 2 cavalos). Era fevereiro de 1941. – “Mais vida” física e intelectual. Nos 7 anos de seminário menor sempre procurei ser dos primeiros nos estudos e nos esportes. Em vários bimestres consegui o 1º lugar no boletim; e nos outros ficava entre os 3 primeiros. Igualmente nos esportes me sobressaia, tanto nos “jogos sérios” (corridas no pátio) como no futebol (goleiro) e vôlei. Na piscina nadava muito bem e mergulhava “como um peixe”… Mantive a mesma postura nos 3 anos de filosofia, no Seminário Maior de São Leopoldo RS, nos anos 1948 a 1950. Meu nome sempre constava na seleção de futebol e vôlei.
– “Mais vida” colaborativa. Ao iniciar os estudos teológicos, aceitei o pedido do saudoso Arcebispo de Florianópolis, D. Joaquim Domingues de Oliveira, para ajudar os padres do Seminário de Azambuja a lecionar aos seminaristas. Por um ano e meio fui professor de matemática, português, álgebra e história. Como prêmio fui contemplado com a honrosa escolha de ir para Roma, Itália, para cursar a teologia.
– “Mais vida” histórica e turística. Nos 4 anos de vivência italiana me dediquei – além dos estudos propriamente ditos – a conhecer tudo que era possível da história civil e religiosa de Roma e da Itália, bem como dos melhores pontos turísticos.
– “Mais vida” universitária. Num gesto corajoso matriculei-me também na Universidade Internacional de Estudos Sociais Pro Deo no curso superior de jornalismo, e assim voltei em 1956 para o Brasil como teólogo e jornalista. Anos mais tarde, trabalhando na CNBB Regional Sul IV, ainda me formei em Pedagogia no RS.
– “Mais vida” pastoral. Apesar de ser convidado a lecionar no Seminário, preferi a vida pastoral junto ao povo de Deus. Minha primeira experiência foi em Itajaí, como vigário cooperador da única paróquia de então – 1956 a 1960. Dias na sede, e muitos dias nas 15 capelas do interior, fazendo de tudo (na época não havia diáconos nem ministros). O que mais cansava eram as longas horas de confessionário.
– “Mais vida” paroquial. Em início de 1961 fui escalado para morar no outro lado do Rio Itajaí-Açu, Navegantes. A fim de organizar uma nova paróquia, a desmembrar de Itajaí. Morei bom tempo num quarto da casa da família Gaya e corajosamente construí a igreja matriz, hoje Santuário de N. Sra. dos Navegantes. Em agosto de 1962 foi constituída a paróquia, com 9 capelas. Nos 10 anos de pastoral navegantina construí várias capelas novas, reformei outras, e levantei em cada comunidade um salão de festas e reuniões. Mais que isso, organizei todos os grupos e comissões existentes na época: diretoria de igreja, catequistas, cantores, apostolado da oração, legião de Maria, grupos bíblicos, dirigentes bíblicos, coroinhas, ação católica, etc. Sendo eu insuficiente para tanto trabalho, contratei 2 moças – uma ex-religiosa e uma professora – e assim surgiu a primeira experiência de equipe paroquial de padre com leigos em SC. Foi uma vivência lindíssima e mui valiosa, tanto para o povo de Deus como para nós 3. Éramos 3 irmãos, unidos no trabalho, na oração, nos estudos e também na recreação. Inúmeros padres de outras paróquias, e até de outros Estados, vinham nos entrevistar e conhecer a inédita experiência.
– “Mais vida” de oração e angústia. Sim, isso mesmo! Apesar de toda a linda atividade como padre acima descrita, de 13 incansáveis anos, constatei que o papa Paulo VI e sua equipe se afastavam cada vez mais do espírito e da prática do Concílio Vaticano II, deixando a mim e a inúmeros colegas padres desapontados e até revoltados com esse retrocesso. Simultaneamente – e por causa disso – comecei a sentir a solidão e a angústia como pessoa humana. Meu amor ao sacerdócio estava acima de tudo, mas o retrocesso da Igreja e o isolamento humano me angustiavam cada vez mais. Passava horas e horas em oração e meditação para superar a crise. Vivia no meio do povo e para o povo, mas me sentia só e “perdido no espaço”. Pregava o amor, a união das pessoas, mas só podia ter amizades superficiais. Se visitasse 3 vezes a mesma família, já surgia o comentário malicioso que eu estava “interessado” na mãe ou na filha da família… Era um eterno fugitivo do amor. Minha angústia chegou a tal ponto que meu corpo somatizou. No dia de finados, 2 de novembro de 1968, estourou uma veia safena acima do joelho, que me obrigou a cirurgia imediata de emergência, na qual foram extraídas totalmente as 2 veias safenas. Diante dessa situação crítica pedi ao Sr. Arcebispo afastamento por 1 ano das atividades paroquiais, e permaneci no Rio de Janeiro. Lá entrei em profunda auto-análise, em muitas horas de oração, e cursei o primeiro curso do Ibrades – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento – para padres e religiosos. Voltei para Navegantes por mais um ano, 1970, ainda indeciso sobre meu futuro.
– “Mais vida” diocesana. Então meu Arcebispo, Dom Afonso Niehues, que muito me estimava e que conhecia minha problemática, sabendo que eu permaneceria no clero pelo menos por mais 2 anos, me convidou para integrar a recém-formada equipe do Regional Sul IV da CNBB, em Florianópolis. Com o saudoso colega Pe. Osmar Muller, já falecido, percorríamos as 7 dioceses catarinenses, orientando bispos, padres, religiosos e leigos, interligando-os com a CNBB nacional e com o Vaticano. Nossa vida era um contínuo vai-e-vem às dioceses, a Brasília, ao Rio de Janeiro e a outras cidades brasileiras onde aconteciam Encontros ou Congressos de interesse.
– “Mais vida” na MAIOR opção. Após 4 anos e 8 meses de dolorosa mas também válida gestação, após muita meditação, oração e diálogo com pessoas maduras, veio a grande decisão: êxodo do clero celibatário. Dom Afonso me ajudou a exarar a carta-solicitação de dispensa do voto de celibato. E aconteceu algo significativo: em 2 meses voltou a dispensa, quando muitos colegas a aguardavam há anos… Abril 1973.
– “Mais vida” na diáspora. E agora, Gilberto?! Emigrei da Igreja com “uma mão na frente e outra atrás”. Sem 1 real de indenização ou coisa parecida. Era preciso reagir. Fui morar em Joinville SC, bairro, numa casa de madeira alugada, sem geladeira, sem fogão, sem móveis, sem cama. Sobrevivi de cursos comportamentais ministrados a alunos de colégios e a funcionários de empresas e hospitais. Em 1974 me casei com a assistente social Aglésia e tivemos um casal de filhos. Em 1975 nos mudamos para Florianópolis, onde abri um Centro de Treinamentos com outro colega padre casado, Jacó Anderle. Em 1979 ingressei na Secretaria Estadual do Trabalho, coordenando o treinamento do funcionalismo público. Até que me aposentei, em 1992, mas continuei ministrando cursos intensivos na área comportamental pelo Brasil afora. Até hoje.
– “Mais vida” na evangelização. Minha atividade profissional eu a considero uma autêntica evangelização. Continuo a obedecer ao mandamento do Mestre Jesus: “ide pelo mundo todo e evangelizai toda criatura”. Evangelizar é antes de tudo anunciar o amor na sua tríplice dimensão. Pois o tema central de meus cursos é amor e respeito a si, ao próximo, e assim a Deus. Já declarei em depoimento a RUMOS: uma idosa freira que participou de meu curso no oeste catarinense declarou: “foi o melhor retiro de minha vida”. Conclusão. Tenho profunda convicção que minha vida antes e depois da vivência celibatária é permanente resposta ao grande e maior apelo de Cristo: “Ide e evangelizai”. Participo de seu “povo sacerdotal”. Celebrar missa, ministrar sacramentos são gestos bons e bonitos. Mas sinto que é igualmente sacerdotal EVANGELIZAR!
Prof. Gilberto Luiz Gonzaga
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