Muito oportuno o que diz o texto do professor Júlio Zabatiero (doutor em Teologia, professor da Escola Superior de Teologia em São Leopoldo/RS e Coordenador de Pós-graduação e Pesquisa da Faculdade Unida de Vitória/ES, da Igreja Luterana do Brasil) sobre o protestantismo pentecostal, no subtítulo Pentecostalismo e Cultura Brasileira: “(…) É entre essa população em permanente aflição, desgarrada de seus valores mais caros, que a mensagem pentecostal vai deitar raízes, oferecendo toda sorte de lenitivos para o sofrimento e estruturas de sentido para os desorientados, mas sem atentar, no entanto, para as causas reais que produzem continuadamente o mal estar social que caracteriza a sociedade como um todo (…)”.
É exatamente para “essa população em permanente aflição” que os caciques do neopentecostalismo, em ação muito mais forte e determinada, irão oferecer seus milagrosos lenitivos prometendo acabar com o sofrimento do povo brasileiro. Os pesos pesados do neopentecostalismo no Brasil, a saber, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Deus é Amor e Igreja Renascer em Cristo (e outras de menor expressão, algumas das quais dissidências destas, mas que usam o mesmo esquema de mercantilismo da fé), encontraram um terreno fértil e apropriado para deitar suas raízes. O fato de o Brasil ser tido como o maior país católico do mundo não quer dizer nada, pois, como todos sabemos, grosso modo, é um catolicismo nominal, sem evangelização. Ou seja, a maioria da população católica pratica um catolicismo devocional, sem compromisso com a fé teologal. Grande parte dos que estatisticamente se dizem católicos, são também freqüentadores de terreiros de umbanda e candomblé e levam suas oferendas a Iemanjá, a deusa do mar, na passagem de ano novo. O sincretismo católico-espírita é uma realidade.
Quando falo da prática de um catolicismo devocional estou me referindo a um tipo de religiosidade popular bem entranhado no povo brasileiro, povo simples e sofrido que, principalmente em épocas de crise, na impossibilidade de contar com a eficiência da ação dos governos na solução de seus problemas, recorre à ajuda da fé fazendo promessas a Santo Expedito e Santa Rita de Cássia que, no catolicismo popular, são patronos dos desesperados e dos casos impossíveis. Salvo exceções, esse é o tipo de fiel católico que migra para outras igrejas, em sua maioria absoluta para as igrejas que pregam a “teologia da prosperidade”, isto é, as igrejas neopentecostais.
A propósito, estudos da CNBB mostram que na década de 1990 e início desta década, cerca de 1 milhão desses católicos migraram por ano para essas igrejas. Foi e é nesse contexto altamente favorável que o neopentecostalismo deitou raízes e se expandiu. Edir Macedo, Romildo R. Soares, Davi Miranda, Estevam e Sônia Hernandes, líderes dos quatro maiores grupos neopentecostais aqui no Brasil, citados acima, sabem em que tipo de terreno estão pisando. Tanto que, consolidado o sucesso da teologia da prosperidade no Brasil, rumam para a África, onde a situação é parecida com a nossa e, de certa forma, até pior, em termos de miséria e sofrimento.
O Brasil, com sua etnia diversificada, com seu povo naturalmente religioso, com sua índole direcionada a crendices e ao sincretismo e, além disso, por ser um país que traz as marcas de alguns séculos de exploração colonialista, e que, livre desta exploração, achou-se vítima de décadas da não menos nefasta exploração capitalista, que levou grande parte de sua população à miséria, pobreza, analfabetismo, desemprego ou subemprego, doenças e uma série de sofrimentos advindos de sua dependência e sujeição econômica aos países ricos do hemisfério norte, ao FMI e outros. Some-se a isso tudo uma outra causa endêmica de sofrimento e pobreza do povo que é o alto grau de corrupção que se instalou em sucessivos governos. Muitos desses problemas estão superados ou em superação, não obstante serem visíveis e perceptíveis na vida da população pobre as marcas do impiedoso capitalismo neoliberal que não permite aos pobres usufruírem equitativamente das benesses de uma economia globalizada.
Tudo isso gera uma situação de necessidade crônica no povo, o que faz do Brasil um terreno fértil e propício para um tipo de religião centrada na teologia da prosperidade, que, como nenhuma outra, sabe explorar os pontos fracos da população pobre, principalmente das periferias (periferia do Estado, pois, geralmente, são desassistidos, e periferia da religião, pois quase sempre não são evangelizados), prometendo, já para o aqui e agora, a tão sonhada felicidade, em forma de saúde e prosperidade financeira, em troca, é claro, de uma generosa contribuição em dinheiro.
A Igreja Universal do Reino de Deus, expressão maior do neopentecostalismo no Brasil, arrecada por ano, segundo dados da Receita Federal, a cifra astronômica de 1 bilhão e 400 milhões de reais em forma de dízimo de seus pobres fiéis. O filão de ouro parece ser inesgotável, a ponto de Edir Macedo, seu fundador e líder, condicionar seus pastores com treinamentos e técnicas de persuasão quase infalíveis que fatalmente levam os fiéis a abrirem generosamente os bolsos e a carteira.
Mas quem é Edir Macedo, o poderoso chefão da Universal, a maior igreja neopentecostal do Brasil? É um homem polêmico, que desde 1992 vem sendo arrastado por processos na justiça. Já esteve preso sob as mais diversas e graves acusações, que vão desde o charlatanismo, estelionato e lesão à boa fé popular. Atualmente é processado pelo Ministério Público e a Polícia Federal pelos crimes de falsidade ideológica, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Mais recentemente (2009) foi acusado pelo Ministério Público Federal de “formação de quadrilha e lavagem de dinheiro” (cf. JN dias 12, 13, 14 e 15/08/2009). As denúncias estampadas na mídia dão conta de que o líder da Universal é “o maior detentor de concessões na mídia eletrônica brasileira, com 23 emissoras de TV, entre elas a geradora da Rede Record, e 40 de rádio, e que a extensão financeira do conglomerado, registrado no paraíso fiscal das Ilhas Jersey, serviria para “esquentar” o dízimos recebidos pela Universal” (Folha de São Paulo, 15/12/2007). Segundo a investigação do COAF, braço do Ministério da Fazenda responsável pelo combate à lavagem de dinheiro, ao menos 50 empresas como emissoras de rádio e TV, especialmente a Rede Record, gráficas e agências de turismo, fazem parte do patrimônio de Edir Macedo, e são beneficiados por doações feitas por fiéis em todo o país (Estadão, 13/08/2009).
Ou seja, conforme as denúncias do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e Receita Federal, o fundador e líder da Igreja Universal do Reino de Deus cometeu crimes de “apropriação indébita”, que no jargão popular quer dizer roubo (desvio de dinheiro de dízimo) e “enriquecimento ilícito” (lavagem de dinheiro). A denúncia dos promotores contra Edir Macedo e mais nove de seus pastores, diz textualmente: “A atuação da quadrilha não conheceu limites. Seus integrantes se utilizaram da Igreja Universal do Reino de Deus para a prática de fraudes em detrimento da própria igreja e de inúmeros fiéis” (G1 Brasil Notícias, 11/08/2009).
Macedo é ainda proprietário, entre outros valiosíssimos bens, de mansões em Miami (USA) e em Campos do Jordão (SP), esta possuindo até heliporto, que, juntas, ultrapassa o valor de 10 milhões de dolares, valor incompatível com seus ganhos como pastor.
Isto não fica bem no currículo de quem se diz ser um “humilde pregador do evangelho”, em nome daquele que, de tão pobre, não tinha onde reclinar a cabeça (Mt 8, 20). É vergonhoso e vexatório que esse tipo de religião praticada pelos neopentecostais se intitule de protestante, pois, como se sabe historicamente, o protestantismo começou com a revolta de Lutero contra a corrupção na Igreja, notadamente a simonia, a venda de coisas sagradas, como por exemplo as indulgências.
Uma das características identitárias do neopentecostalismo é que “a fé é vivenciada como um mecanismo estratégico para alcançar, de forma mágica, bens simbólicos e, especialmente, corpóreos e materiais”. Ou seja, o protestantismo atual identificado com o neopentecostalismo caracteriza-se por fazer da fé um negócio. E, observe-se, não um negócio qualquer, mas um negócio altamente rentável, conforme as cifras já citadas acima, que têm por fonte a própria Receita Federal e o Ministério Público Federal. É o mercantilismo da fé, coisa que certamente faria corar de vergonha o próprio Lutero.
Fico pensando em que, se Lutero se insurgiu naquela época contra a corrupção na Igreja, substanciada na venda de indulgências, o que não faria hoje diante do que fazem alguns de seus seguidores, como os já citados acima, especialmente o líder da Igreja Universal, que vende não indulgências, mas a própria fé?
Pe. Paulo Jorge Lúcio – padre casado.