
O ‘marine’ Mannig teve acesso a esses documentos enquanto trabalhava perto de Bagdá, capital do Iraque, como analista de inteligência militar, entre setembro de 2009 e maio de 2010, quando foi preso. A partir dessa data, esteve aprisionado durante mais de nove meses na prisão militar de Quântico, no nordeste dos Estados Unidos, sob tortura e em condições que o relator da ONU qualificou de cruéis, desumanas e degradantes, denunciadas pelo próprio soldado. Em abril de 2010, foi trasladado para a prisão militar de Fort Leavenworth, no Kansas. No dia 21 de maio de 2013, a juíza militar Denise Lind fechou um ano e meio de visitas preparatórias e fixou as regras para o julgamento que, sob medidas estritas de segurança e a portas fechadas, sem nenhum público nem meio de comunicação presente, se realizará provavelmente até finais de agosto, na prisão de Fort Meade, no Estado de Maryland, próximo a Washington.
A causa do soldado Manning tem sido apoiada com decisão pelas organizações de defesa dos direitos civis. Segundo o jornal britânico The Independent, ao redor de mil simpatizantes e ativistas para a defesa dos Direitos Humanos reuniram-se ao lado da entrada de Fort Meade no dia do início do julgamento levando cartazes com mensagens como “Liberdade para Bradley” e “Bradley Manning preso por ter exposto crimes de guerra”. Esse é o pano de fundo do assunto. Entre os participantes na demonstração, encontrava-se Daniel Ellsberg, um antigo integrante do Departamento de Defesa, que filtrou documentos secretos do Pentágono sobre os massacres perpetrados pelas tropas norte-americanas na guerra do Vietnam.
Segundo seu advogado defensor, David Coombs, o soldado Manning, agora com 25 anos, se declarará culpado por 10 dos cargos menores que lhe são imputados (ou de 11, segundo outra versão); porém, rechaçará os cargos mais graves, entre eles o de “ajuda ao inimigo”, que é castigado com a prisão perpétua e nenhuma possibilidade de liberdade condicional, por ter transferido para WikiLeaks informação confidencial sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão e mais de 250 mil cabos do Departamento de Estado. Em uma conferência prévia ante a imprensa e em presença da citada juíza militar, Manning declarou que nunca quis prejudicar seu país e agregou: “Acreditava que a publicação (dos documentos confidenciais) poderia provocar um debate político sobre nossas forças armadas e nossa política exterior em geral”. Dessa forma, estava admitindo a transmissão intencionada de um vídeo que mostra um helicóptero de combate disparando contra civis iraquianos, em julho de 2007, bem como informações sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão, e sobre os detidos e torturados na base militar estadunidense de Guantánamo, em território usurpado a Cuba. Tudo isso –reiteramos- é o que realmente importa.
A juíza Lind anunciou que, no julgamento a portas fechadas, testemunharão 24 pessoas, entre eles um dos Navy
Seals que participou na operação em que o líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden, foi assassinado, durante o assalto à sua residência, no Paquistão, em maio de 2011. Divulgou que em dita residência encontravam-se documentos filtrados por WikiLeaks.
Ao examinar a ata de acusação, argumentaram com razão que a documentação do Departamento de Defesa substraída por Manning não foi entregue a nenhuma organização nem Estado inimigo dos Estados Unidos; mas, a um meio de comunicação internacional dirigido por Julian Assange (WikiLeaks), o que não significa nenhuma ameaça à segurança de seu país; mas, em todo caso, um antídoto contra a perpetuação das práticas criminosas e desumanas cometidas pela superpotência militar em territórios iraquianos e afegãos (e em outros mais).
Por outro lado, ficou demonstrado que o perigo para os Estados Unidos não deriva da difusão de informação verdadeira; mas, ao contrário, da ocultação, da deformação e da falsidade. Foi o que aconteceu com a invasão do Iraque, desencadeada sobre a base da mentira da posse de armas de destruição massiva pelo regime de Saddam Hussein, e que culminou com a morte de 4.500 soldados estadunidenses, de centenas de milhares de iraquianos e de “uma devastação material sem precedentes, cuja estela de barbárie ainda persiste”, como foi escrito.
Em um editorial de La Jornada, do México, lemos uma certeira caracterização: “A possibilidade de que Manning seja condenado por difundir informação sobre diversas atrocidades cometidas por Washington contrasta com a impunidade de que gozam os autores materiais e intelectuais de atos de barbárie como o perpetrado no dia 12 de julho de 2007, em Bagdá, pela tripulação dos helicópteros Apache contra o repórter Namir Noor-Eldeen, da Agência Reuters, e outras 10 pessoas; as múltiplas torturas na prisão de Abu Ghraib e em outros cárceres controladas pelo Pentágono; a eliminação de suspeitos em postos de controle; a ocultação de milhares de mortes e o assassinato de civis em mãos de tropas invasoras, além de outras práticas criminosas, cujos autores, possivelmente, foram condecorados como heróis de guerra”.
Concluindo, o julgamento contra Manning é um sintoma mais da decomposição moral, política e jurídica da
superpotência, exercida contra os que têm a coragem e a clarividência de denunciar a barbárie e os abusos que comete em várias regiões do mundo. As ameaças para a segurança dos Estados Unidos e para a paz mundial não derivam das revelações difundidas através de WikiLeaks, mas das múltiplas operações bélicas do império, várias das quais estão em curso, em nome de sua aspiração ao domínio mundial.
Além de tudo isso, Julian Assange continua detido na Embaixada do Equador em Londres, sem previsão de liberdade, por culpa da atitude inaudita de David Cameron e de sua Majestade britânica de impedir sua extradição para o Equador, tal como reclama insistentemente, com espírito libertário e justiceiro, o governo de Rafael Correa.
Veja mais:
– Brasil – A revolta é contra o aumento das passagens, mas o movimento é outro (Revista Fórum)
– Brasil – Protestos: Por que esses vândalos não sofrem em silêncio? (Leonardo Sakamoto)
– Mundo – A brecha entre ricos e pobres em seu maior nível em 30 anos (Latinoamericana 2013)
– Mundo – Refugiados e tráfico de pessoas (Pe. Alfredo J. Gonçalves)
– Cuba – Cuba, Estados Unidos e a luta contra o terrorismo (Salim Lamrani)
