Isso depois de quatro anos de exceção na política externa brasileira, um período que analistas já definiram para a DW Brasil como sendo de alinhamento automático com os Estados Unidos.
O governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, um entusiasta do ex-presidente Donald Trump,
- adotou uma estratégia de viés personalista na relação entre os dois países
- no período em que o mandato do brasileiro coincidiu com o do republicano.
Assim, o Brasil muitas vezes assumiu, de forma automática, a agenda da política externa americana.
Isso incluía a participação numa espécie de “conexão judaico-cristã para salvar a civilização”, como definiu um especialista para a DW Brasil.
- A aliança brasileira com os Estados Unidos de Trump e com Israel do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu
- tinha um viés antiglobalista, de resistência a órgãos internacionais, como as Nações Unidas.
O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, outro apoiador de Trump, chegou a escrever um artigo, antes de virar chanceler sob Bolsonaro, no qual afirmava que Trump poderia “salvar o Ocidente”.

Governos do PT
Nos governos petistas anteriores, de Lula e Dilma Rousseff,
- a política externa brasileira havia procurado se afastar de uma posição vista por líderes petistas como subalterna aos grandes blocos de poder,
- em especial os Estados Unidos e o Ocidente.
A desconfiança da esquerda brasileira em relação aos Estados Unidos é antiga. Além de um componente ideológico que remete à Guerra Fria, ela se explica pela história:
- os apoios dos EUA a golpes de Estado na América Latina, ou mesmo a participação neles,
- e os subsequentes apoios aos regimes militares que se seguiram.
Assim, a chegada ao poder do maior partido da esquerda brasileira trouxe consigo certa expectativa de como seriam as relações do Brasil com os Estados Unidos.
Lula, e também Dilma, apostaram
- na integração regional (Mercosul), na chamada Cooperação Sul-Sul (em especial com os países africanos),
- e também na aproximação com outras potências regionais,
- mesmo que de governos autoritários, como a Rússia e a China, em especial no âmbito do Brics, de olho no comércio.
Isso não significa, contudo, que as relações com os Estados Unidos tenham sido postas de lado.
- Lula foi duas vezes aos EUA se encontrar com o presidente George W. Bush, e este esteve duas vezes no Brasil.
- A relação de Lula com Bush, um republicano, foi, aliás, melhor do que com Barack Obama, um democrata.

O que azedou as relações entre Brasil e Estados Unidos nos governos petistas foi o escândalo de espionagem da NSA, o serviço secreto americano que grampeou os telefones de Dilma e de ministros e assessores dela.
O escândalo levou a presidente a cancelar uma visita de Estado – a mais elevada na diplomacia – a Washington, onde seria recebida por Obama, em 2013.
Na época, chamou a atenção na Europa
- o fato de que a postura de Dilma em relação às revelações de espionagem
- foi muito mais dura do que a adotada por líderes europeus.
Agora, após o retorno de Lula à Presidência da República, o desafio da diplomacia brasileira
- será equilibrar uma posição de defesa da democracia (que pautou a oposição do PT a Bolsonaro e pela qual obteve o apoio do governo de Joe Biden)
- com os interesses comerciais brasileiros na China e na Rússia, dois regimes autocráticos e antagonistas dos Estados Unidos.
Ao lado do chanceler federal da Alemanha, Olaf Scholz, Lula já descartou ajuda à Ucrânia, o que é hoje uma prioridade dos EUA e do Ocidente, certamente para não desagradar a Rússia.
Parceria histórica
Brasil e Estados Unidos têm um histórico de proximidade diplomática que começa já em maio de 1824, com o reconhecimento da independência do Império do Brasil pelos Estados Unidos, menos de dois anos depois do “Grito do Ipiranga”, e o estabelecimento de relações diplomáticas.
- Isso se deu em 26 de maio de 1824, quando o então presidente do Estados Unidos, James Monroe, recebeu o encarregado de negócios do Brasil junto aos Estados Unidos.
- Monroe punha em prática, assim, o que ele mesmo havia estabelecido um ano antes e que ficaria conhecido como a Doutrina Monroe.
Esta podia ser resumida na frase “A América para os americanos”.
- A doutrina, contrária ao colonialismo europeu, definia as bases da política externa a ser adotada pelos Estados Unidos para as antigas colônias europeias na América,
- que iam, uma após a outra, conquistando sua independência.
Tanto durante o império quando nas décadas iniciais da República, o relacionamento entre as duas nações foi marcado pela cordialidade.
- O imperador dom Pedro 2º até mesmo visitou os Estados Unidos em 1876, no âmbito das comemorações dos 100 anos da independência do país da América do Norte.
- Já na chamada República Velha, foi sobretudo a atuação do Barão de Rio Branco à frente do Itamaraty, de 1902 a 1912, que garantiu o bom andamento das relações diplomáticas,
- naquilo que, décadas depois, o historiador norte-americano Bradford Burns chamaria de a “Aliança não escrita”.
O termo sugere que as relações entre Brasil e EUA eram marcadas pela reciprocidade e pelo apoio mútuo mesmo sem um tratado diplomático bilateral formal.
Ápice dessa fase foi a abertura da embaixada do Brasil em Washington, em 1905. O que hoje parece ser algo banal era raro na época, exclusivo de grandes capitais.
Em 1904 apenas sete países tinham embaixada em Washington (Alemanha, Áustria-Hungria, França, Grã-Bretanha, Itália, Rússia e México), nenhum país tinha embaixada no Brasil.
Também não havia embaixadas dos EUA na América do Sul.
A Política da Boa Vizinhança
Nos anos 1930, o Brasil se tornou um dos principais alvos da política externa do presidente Franklin Delano Roosevelt para a América Latina, conhecida como a Política da Boa Vizinhança.
O principal princípio dessa política era
- a renúncia dos Estados Unidos a interferir em assuntos internos ou mesmo intervir numa outra nação americana,
- renunciando assim ao que havia sido definido no governo do presidente Theodore Roosevelt, em 1904, no chamado Corolário Roosevelt.

A Doutrina Monroe originalmente não previa intervenções.
- A alteração dela por meio do Corolário Roosevelt levou os EUA a adotar uma postura de polícia internacional
- e a interferir em vários países americanos, incluindo o envolvimento na Revolução Mexicana, na década de 1910, e a ocupação do Haiti, em 1915.
A ideia de que os Estados Unidos passariam a ser um “bom vizinho” incluía também uma abordagem cultural, o que se refletiu
- no intercâmbio de artistas entre Brasil e Estados Unidos
- e na assimilação de artistas e elementos da cultura popular brasileira pela indústria cultural dos EUA.

- Foi aí que surgiu o Zé Carioca, criado por Walt Disney, que passou várias semanas no Rio de Janeiro.
- E também a ida de Carmen Miranda, então a cantora mais famosa do Brasil, para Hollywood é uma consequência da Política de Boa Vizinhança.
Além de Disney, também os diretores de cinema Orson Welles e John Ford visitaram o Brasil. E o escritor gaúcho Erico Veríssimo foi aos EUA, onde também teve obras suas traduzidas e publicadas.
- A Política da Boa Vizinhança aprofundou as relações entre Estados Unidos e Brasil,
- o que se mostrou ainda mais importante para os EUA diante do aumento da influência, sobretudo comercial, mas também ideológica, da Alemanha nazista na América do Sul a partir dos anos 1930.
Base área de Natal e a FEB
Com o início da Segunda Guerra Mundial, o Brasil, como fornecedor de matérias-primas, cresceu em importância tanto para a Alemanha como para os Estados Unidos.
O governo do presidente Getúlio Vargas mantinha uma posição de neutralidade ambivalente entre os dois polos, tendo no governo
- representantes de forte tendência ao Eixo, como o ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra,
- e outros de forte inclinação para os EUA, em especial o ministro das Relações Exteriores, Osvaldo Aranha.
A ambiguidade brasileira refletia as divisões internas do governo.
Mas muitos historiadores também veem pragmatismo nessa postura,
- tanto por interesses comerciais como porque o Brasil tinha um trunfo que interessava aos dois lados:
- o Nordeste, mais precisamente Natal e Fernando de Noronha, de importância estratégica para o apoio às operações militares no norte da África.
E o governo Vargas usou esse trunfo para obter vantagens econômicas.
- Um empréstimo do governo americano possibilitou a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda, o berço da industrialização brasileira.
- A outra opção era a Alemanha, com a participação da Krupp.
A contrapartida à CSN
- foi o alinhamento gradativo e definitivo do Brasil aos Aliados manifesto
- inicialmente nas construções de bases militares americanas em solo brasileiro (Natal)
- e, depois, na criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB).
A famosa visita dos presidentes Franklin Delano Roosevelt e Getúlio Vargas a Natal, já em janeiro de 1943, serviria para acertar detalhes da participação brasileira.
Com o ataque japonês a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, e a entrada oficial dos americanos na guerra,
- a posição pró-Aliados dentro do governo brasileiro se tornaria ainda mais forte,
- pois o interesse dos Estados Unidos pelo que acontecia no continente americano era cada vez maior.

Assim, em 28 de janeiro de 1942,
- o Brasil rompeu relações com os três países do Eixo,
- e, no final de agosto do mesmo ano, declarou guerra à Alemanha e à Itália.
A FEB, porém, seria criada apenas um ano depois, e iria se unir ao esforço de guerra em julho de 1944, a menos de um ano do final do conflito.
Golpe de Estado de 1964
A presença dos militares da FEB na Itália, em combates ao lado dos americanos,
- elevou a influência dos Estados Unidos nas Forças Armadas brasileiras,
- bem como o intercâmbio entre oficiais brasileiros e americanos.
Muitos brasileiros foram estudar no exterior,
- principalmente na Escola das Américas no Panamá, centro de treinamento “anticomunista” criado pelos Estados Unidos,
- e na National War College, que serviu de inspiração para a criação da Escola Superior de Guerra.
Essa relação entre os militares dos dois países acabaria desempenhando um papel no golpe de Estado de 1964,
- sobretudo pela presença no Brasil, como adido militar, de Vernon Walters, um velho conhecido dos militares brasileiros dos tempos da Segunda Guerra.
- Walters, que falava português, havia sido o elo entre as tropas brasileiras e aliadas na Itália.
Mas nem por isso foram os EUA que idealizaram o golpe.
- O golpe de Estado que depôs o presidente João Goulart em 1964 foi planejado e executado por militares brasileiros
- que eram contrários, inicialmente, a Vargas e depois ao herdeiro político dele, Jango,
- com o apoio de parte da sociedade brasileira e também da imprensa.
Se o governo dos Estados Unidos não esteve diretamente envolvido na deposição, é certo, porém, que
- acompanhava a situação com atenção (pois temia que o Brasil seguisse os passos de Cuba),
- instigava a derrubada de Jango, financiava opositores, simpatizava com os golpistas
- e estava preparado para ajudá-los militarmente, se isso viesse a ser necessário.
Em julho de 1962, o embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, reuniu-se na Casa Branca com o presidente John Kennedy para falar sobre a situação política no Brasil.
A conversa foi a primeira a ser gravada pelo novo sistema secreto de gravações do Salão Oval.
Na reunião,
- Gordon opinou que era importante fortalecer os militares contrários a Jango por causa do perigo “comunista”,
- como disse Kennedy, interrompendo o interlocutor e completando a frase.
A guinada comunista de Cuba, sob Fidel Castro, tornara o governo americano extremamente sensível a qualquer movimento da esquerda latino-americana.
E Jango, na visão dos EUA, já dera sinais de que poderia abrir o Brasil para o comunismo.
O governo americano chegou a preparar um apoio militar, que incluía
- um porta-aviões,
- seis contratorpedeiros,
- um porta-helicópteros
- e quatro petroleiros.
Mas a Operação Brother Sam, como ficou conhecida, foi abortada em alto mar por não ser mais necessária: Jango estava no Uruguai, e o golpe havia triunfado.
