O “não” do Papa Francisco ao sacerdócio das mulheres: resquícios do patriarcado

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Foto: Papa Francisco saúda a bispa luterana Antje Jackelén no aeroporto de Malmö, na Suécia. / L’Osservatore Romano
Temos apoiado em quase tudo o que o Papa Francisco tem escrito e ensinado. Mas neste ponto me permito afastar-me criticamente (pois este é também o ofício da teologia razonada).

Ultimamente o Papa Francisco surpreendeu os teólogos com uma entrevista dada à revista jesuita America de 22 de novembro, dizendo um “não”ao sacerdócio das mulheres.
Utilizou uma argumentação inusitada, tomada de um teólogo ex-jesuita Hans Urs von Balthasar, muito erudito mas metido numa relação singular com uma médica e mística suiça Adrienne von Speyer. Dele o Papa toma uma distinção que lhe permitiu negar ao sacerdócio à mulher: o princípio-mariano e o princípio-petrino.

Curiosa e inusitada é esta distinção do Papa Francisco. Maria seria  a esposa da Igreja, enquanto Pedro é seu condutor.

Observemos que dizer Maria como esposa da Igreja é uma metáfora e não um definição real como afirmar “a Igreja é a comunidade dos fiéis”.

Será correta e justa esta distinção metafórica rara na tradição  mas retomada por num teólogo erudito, mas tido como estravagante?*

Vale sublinhar a seguinte lógica:

  • sem o Espírito Santo não haveria Maria.
  • Sem Maria não haveria Jesus.
  • Sem Jesus não haveria Pedro, feito  o principal dos Apóstolos.
  • Sem Pedro não haveriam sucessores, chamados Papas.

Temos apoiado em quase tudo o que o Papa Francisco tem escrito e ensinado. Mas neste ponto me permito afastar-me criticamente (pois este é também o ofício da teologia razonada).

Sinto-me apoiado na argumentação dos melhores teólogos da atualidade, somente para citar o maior deles, meu antigo professor em Munique, Karl Rahner

É praticamente unânime a opinião desses teólogos de que

  • não há nenhum empecilho doutrinário que impeça o acesso das mulheres ao sacerdócio, como o tem feito outras igrejas cristãs não católicas.
  • Somente uma visão masculinista da fé cristã e certa interpretação dos evangelhos, contaminada pela visão patriarcal  sustentam  o “não”.

A argumentação a favor do sacerdócio para as mulheres é abundentísima e minuciosa, coisa que o fiz no meu livro Eclesiogênese de 1982/2021.

Em certos pontos, a argumentação papal, não evita certa contradição, como por exemplo:

  • Maria pode gerar Jesus, seu filho, mas não pode representá-lo na comunidade.
  • Isso soa até ofensivo à grandeza de Maria, portadora permanente do Espírito.
  • Pedro que chegou a trair Jesus e este chegou a chamá-lo até  de “satanás” por não admitir que  padecesse e morresse, pode representar Jesus.

Aqui há uma inegável desproporção, culturalmente explicável.

Quem possui maior excelência?

Logicamente é Maria, sobre a qual veio o Espírito Santo e estabeleceu sua morada permanente nela (“episkiásei soi”:Lc 1,35) a ponto de elevá-la à altura do Divino.

Somente  a alguém elevado  à altura do Divino (Maria)  vale afirmar:

“o Santo gerado (por ti) será chamado   Filho de Deus”.

A função de Maria e de Pedro são de natureza totalmente distinta.

  • Pedro não é pai de Jesus, enquanto Maria é verdadeiramente sua mãe biológica.
  • Somente alguém, ainda refém do secular patriarcalismo, pode colocá-los no mesmo patamar.

Não sem razão, a mulher nunca teve, até hoje, sua cidadania eclesial reconhecida. O evangelho se encarnou na cultura da época que entendia a mulher como um “mas”, quer dizer,

“um ser humano deficiente ainda a caminho de sua humanidade”.

Não diz outra coisa Santo Tomás de Aquino (depois repetido por Freud?) e, no fundo, é o que se ae pass na mente das mais altas autoridades eclesiásticas, cardeais e papas.

  • As mulheres são menos, pelo fato de serem mulheres,
  • embora mulheres e homens são igualmente imagem e semelhança de Deus (Gn 1,28).

Mais ainda:

  • a maioria da Igreja são mulheres  e, mais, as mães e as irmãs de todos os demais homens.
  • Portanto, têm uma proeminência inegável.

O único que escapou desta visão reducionista foi o Papa Bento XVI ao dizer numa entrevista de rádio em 2005:

  • ”Creio que as próprias mulheres com seu impulso e sua força, sua superioridade e com seu potencial espiritual saberão criar o seu espaço.
  • Nós devemos procurar a por-nos na escuta de Deus, para que não sejamos nós que as impediremos (Bento XVI, 5,VIII,2006)”.

Há eminentes razões para sustentar a conveniência e até a necessidade das mulheres que quiserem, aceder ao ministério sacerdotal.

Diz uma eminente teóloga e feminista holandesa, A. van Eyde:

”A Igreja mesma ficaria ferida em seu corpo orgânico se não desse lugar à mulher dentro de suas instituições eclesiais”(Die Frau im Kirchenamt, 1967, p. 360).

A Igreja hierárquica não pode, dado o avanço da consciência da igualdade dos gêneros, se transformar num reduto de conservadorismo e de machismo.

Há aqui uma concepção estéril e engessada no passado, da positividade da fé.

  • Esta não é um recipiente de águas mortas, mas uma fonte de águas vivas, capaz de vivificar novas iniciativas em razão da mudança das mentalidades e dos tempos.

Elas, em sua fina sensibilidade, captam o sentido claro dos sinais dos tempos e o expressam com uma linguagem mais adequada aos nossos dias.

 

Vejamos os principais argumentos.

Primeiramente,

  • foi uma mulher a testemunhar o fato maior do cristianismo, a ressurreição de Jesus, Maria Madalena, chamada por isso de “apostola dos apóstolos”.
  • Sem o evento da ressurreição não haveria Igreja.

Foram elas que seguiam Jesus e garantiam-lhe a infra-estrutura material de sua missão.

  • Elas nunca traíram Jesus, enquanto o principal deles, Pedro,o traiu por ocasião da paixão.
  • Após a sua crucificação, acabrunhados, os apóstolos  o abandonaram e se dirigiram para suas casas, enquanto elas velavam ao pé da cruz  acompanhando a sua agonia.

Foram elas que cuidaram, dois dias após seu sepultamento, da conclusão do ritual sagrado da unção do corpo com óleos sagrados.

Portanto, elas mereceriam e merecem uma centralidade inigualável na comunidade cristã. E até hoje, o patriarcalismo cultural internalizado na mente dos que detém a direção da Igreja, mas também no mundo, as mantém subalternas.

Na Amazônia profunda e e outros lugares distantes,

  • são elas que levam a fé, fazem tudo o que um padre faz,
  • sem, no  entanto, poder celebrar a eucaristia, por não serem mulheres ordenadas no sacramento da Ordem.

No entanto, há mulheres, líderes de comunidades, conscientes da maturidade de sua fé, que assumem a totalidade dos sacramentos.

  • Não celebram a missa (que é um conceito litúrgico e canônico), mas a ceia do Senhor como vem descrita na Epístola de São Paulo aos Coríntios.
  • Não o fazem num espírito de ruptura com a instituição, mas num sentido de serviço a toda a comunidade, sempre em comunhão teológica com toda a Igreja.

A comunidade, segundo o Concílio Vaticano II,

  • tem o direito de receber a sagrada Eucaristia que lhes
  • é negada pelo simples fato de não haver um sacerdote ordenado e celibatário.

Teologicamente importa enfatizar, o que é na prática totalmente esquecido, que há somente um único  sacerdócio na Igreja, aquele de Cristo.

Os que vêm sob o nome de “sacerdote”, são apenas figurações e representantes do único sacerdócio de Cristo.

  • É Ele quem batiza, é Cristo quem consagra, é Ele quem confirma.
  • O sacerdote age apenas “in persona Christi” “no lugar de Cristo”.
  • Vale dizer, torna visível o que ocorre invisivelmente.

Sua função

  • não pode ser reduzida, como sustenta a argumentação oficial, ao poder de consagrar,(coisa que predominou somente a partir do segundo milênio),
  • uma expressão de poder do clero que se assenhoreou de todas estas funções.

Tal concentração de poder sagrado constituiu o clericalismo, em tantas ocasiões, fortemente criticado pelo Papa Francisco. 

No caso, entretanto, concernente ao acesso das mulheres ao sacerdócio tenha ele também decaído em certo clericalismo, melhor,

  • forçado a manter a praxe tradicional para não criar um verdadeiro cisma na Igreja
  • por parte dos grupos aferrados à tradição e mais que tudo, aos privilégios agregados ao clericalismo.

A função do sacerdote ministerial não é acumular todos os serviços, mas coordená-los para que todos sirvam à comunidade.

  • Pelo fato de presidir a comunidade, preside também a eucaristia.
  • Mas se esta, sem culpa, estiver privada dela, ela mesma pode organizar a celebração da ceia do Senhor.

Todos os serviços (que São Paulo chama de “carisma”que são muitos)

  • podem muito bem ser exercidos pelas mulheres
  • como se mostra nas igrejas não romano-católicas e nas comunidades eclesiais de base.

Daí compreende-se que mulheres, conscientes de sua maturidade na fé, na ausência do ministro ordenado, elas mesmas assumem tal ministério, fazendo-o em seu estilo próprio de mulher.

Não devem solicitar licença à autoridade eclesiástica, porque esta, canonicamente, dirá “não”. Mas elas o fazem em perfeita comunhão teológica com a totalidade da Igreja. E assim é plausível, justo e teologicamente fundado  presidirem a Ceia do Senhor.

Logicamente, o sacerdócio feminino não pode ser a reprodução daquele masculino. Seria uma aberração se assim fosse. Deve ser um sacerdócio singular, com o modo de ser da mulher com tudo o que denota sua feminilidade no plano ontológico, psicológico, sociológico e biológico.

Não será a substituta do padre. Mas verdadeira representante sacramental do Cristo invisível que por elas se torna visível.

Natural e lógico seria se o Papa reconhecesse oficialmente o que elas já fazem na prática e assim tornaria a Igreja, realmente, de irmãos e irmãs, sem exclusões e hierarquizações ontológicas injustificadas.

Podemos dizer sem medo de errar:

  • essa divisão entre ordenados e não ordenados (leigos e padres) não se encontra na tradição do Jesus histórico
  • que queria uma comunidade de iguais e todo poder com mero serviço à comunidade
  • e não como fator de privilégios, de títulos e vantagens sociais e até financeiras.

Tempos virão em que a Igreja romano-católica acertará seu passo com o movimento feminista mundial e com o próprio mundo, rumo a uma integração do “animus” e da “anima”(do masculino e do feminino) para o enriquecimento do humano e da própria comunidade cristã.

Os tempos já estão maduros para este salto de qualidade. Só falta a coragem de dar esse passo necessário e inevitável.

 

Nota

[1] Hans Urs von Balthazar ao tempo em que eu estava submetido ao “silêncio obsequioso” publicamente, em Roma, me denunciou como alguém que negava a divindade de Cristo, coisa que jamais o fiz.

Respondeu-lhe um teólogo-jornalista, na primeira página de um diário de Roma com estas palavras:

”Covarde, acusas caluniosamente a alguém que não pode se defender por estar sob o silêncio obsequiso”.

Sua obra principal é A glória do Senhor(em sete volume sobre a fé como estética e contemplação). Foi feito Cardeal pelo Papa João Paulo II, mas morreu dois dias antes, quando se dispunha ir a Roma.

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