Chile: as regras do novo processo Constituinte

OUTRASMÍDIAS – ESTADO EM DISPUTA

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Por Michele Mello, no Brasil de Fato – Publicado 14/12/2022 – Foto: DAQUI
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Após a vitória pelo “não” em setembro, governo e parlamento chegam a um acordo. Serão 50 constituintes eleitos pelo povo, com paridade de gênero e cadeiras indígenas. Mas Congresso terá instrumentos para interferir nas propostas.

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No Chile, governo e bancadas parlamentares chegaram, nesta segunda (12), a um acordo para reiniciar o processo constituinte, após a vitória do “não” no plebiscito de setembro deste ano.

O “Acordo pelo Chile” foi ratificado por 14 partidos políticos,

desde as legendas da direita tradicional, como União Democrática Independente, Partido Liberal e Renovação Nacional,

até a bancada progressista, que inclui o Partido Comunista, o Partido Socialista e Convergência Social, agrupação de Gabriel Boric.

documento com 12 pontos 

  • estabelece a criação de um Conselho Constitucional,
  • composto por 50 constituintes eleitos por voto popular de acordo com as regras de proporcionalidade estabelecidas pela lei eleitoral vigente,
  • mas com abertura para inscrição de candidaturas independentes.

O organismo terá paridade de gênero e cadeiras reservadas para nações indígenas.

Os conselheiros terão cinco meses para elaborar uma nova proposta de texto constitucional e as normas deverão passar por aprovação de 3/5 do Conselho para serem incluídas na redação final da Carta Magna.

 

Outro ponto acordado foi a criação de uma comissão com 24 especialistas encarregados de assessorar os constituintes.

O organismo também terá composição paritária entre homens e mulheres.

No entanto, sua composição será por meio de indicação:

  • 12 membros apontados pela Câmara de Deputados,
  • outros 12 pelo Senado,
  • de acordo com o peso proporcional de bancada.

Também será levado em conta a “trajetória profissional, técnica e acadêmica” para a indicação.

Esse grupo terá poder de veto sobre os artigos propostos pelo conselho constitucional.

Além disso,

  • ainda haverá um comitê técnico de admissibilidade composto por 14 pessoas do campo jurídico, definidas pelo Senado,
  • que terá a responsabilidade de revisar as normas aprovadas pelas outras duas instâncias: comissão de especialistas e conselho constitucional. 

“Todos tiveram que mudar suas posições políticas originais.

“Queremos

  • que o sistema político seja capaz de dar respostas aos cidadãos,
  • que as diferenças menores fiquem de lado,
  • e que pelo bem do Chile sejamos capazes de chegar a acordos que melhorem a qualidade de vida na nossa pátria”,

acrescentou Gabril Boric.

Foram três meses de negociação

 marcados por críticas de setores da esquerda, que exigiam a garantia de participação popular nesta nova etapa do processo, enquanto os partidos de direita – que realizaram a campanha pelo “não” no plebiscito de outubro – conseguiram aprovar as medidas que exigiam desde o início do processo constitucional, em 2020:

  • a predominância de parlamentares eleitos no organismo que irá elaborar a nova constituição;
  • e a inclusão de uma comissão de especialistas para acompanhar o grupo de constituintes.

A base da argumentação da campanha de desprestígio da antiga Convenção Constitucional chilena, promovida pelos partidos de direita e por conglomerados de imprensa, era a falta de formação acadêmica necessária para a redação de uma nova constituição para o país.

  • “O país demanda certezas, sanar feridas, reconstituir confiança e levar adiante um processo constituinte exitoso
  • para que a Constituição seja um fator de unidade”,

disse o presidente do Senado, Alvaro Elizalde, do Partido Socialista, agrupação da ex-presidenta Michelle Bachelet.

 

Chilenos da campanha pelo aprovo nas praças do centro de Santiago após vitória do “não” no referendo de 4 de setembro / Martin Bernetti / AFP

Vozes divergentes

Apesar do acordo político amplo, houve críticas vindas tanto da direita como da esquerda.

  • O Partido Republicano, do ex-candidato à presidência pela extrema direita, José Antonio Kast, não referendou o acordo e mantém as críticas ao “ímpeto refundacional”do atual governo.
  • O Partido de la Gente (PDG – Partido das Pessoas) também se negou a firmar o documento, o que levou à renúncia de três deputados. 
  • Por outro lado, Natividad Llanquileo, ex-constituinte pela Coordenadora Plurinaiconal, disse que quem perde são os independentes, “os partidos tomaram o controle, isso é inegável”, declarou a meios locais. 

 

“Não gosto de nada desta proposta, mas acredito na democracia representativa como forma de resolver nossos conflitos”,

disse o ex-constituinte Fuillermo Nammor, do grupo Independentes Não Neutros (INN).

Bárbara Sepulveda, que liderou a bancada do Partido Comunista e da coalizão Chile Digno na última Convenção Constitucional, tentou apaziguar os ânimos.

“Não é um acordo perfeito, mas nenhum seria. O processo deve continuar porque o Chile ainda precisa de uma constituição

  • que supere o Estado subsidiário,
  • consagre direitos sociais,
  • avance em igualdade e paridade de gênero,
  • e proteja o meio ambiente”,

disse a ex-deputada constitucional.

Relembre o processo

Em setembro, a opção “rejeito” venceu com 61,8%, equivalente a 7,8 milhões de votos, contra 38,1% do “aprovo”,

  • numa votação obrigatória que teve cerca de 80% de participação do eleitorado –
  • rompendo um recorde dos processos eleitorais chilenos na última década.

Logo após a derrota, a coordenação da campanha “Aprovo Dignidade” defendeu a realização de uma nova constituinte. Já a plataforma de direita “Chile Vamos” propunha que a constituição fosse escrita

  • por um comitê de especialistas
  • ou por uma comissão parlamentar
  • para “encurtar e melhorar o processo”. 

 

Imediatamente após a divulgação do resultado oficial do plebiscito,

  • Boric convocou os líderes das bancadas parlamentares
  • para dialogar sobre uma nova proposta para chegar a um acordo de continuidade do processo.

A nova proposta do processo constituinte ainda deverá ser aprovada por um novo plebiscito constitucional, com voto obrigatório.

O calendário proposto prevê

  • a criação da comissão de especialistas já em janeiro,
  • eleição dos representantes do conselho constitucional em abril,
  • início dos trabalhos em 21 de maio,
  • entrega do projeto final de Carta Magna em 21 de outubro,
  • e o plebiscito final para ratificar a constituição no dia 26 de novembro de 2023.

Desta forma, o Chile abandonaria sua Constituição vigente, promulgada em 1980 durante aditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

 

Michele Mello

Fonte: https://outraspalavras.net/outrasmidias/chile-as-regras-do-novo-processo-constituinte/

 

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