
frei Bento Domingues, O.P. – 25 setembro 2022/ Foto: Reprodução
O Papa desencadeou um movimento porque, em vez de promover a vida dos mais pobres, a economia arruína-os cada vez mais.
1. A característica do pontificado do Papa Francisco não é a de multiplicar iniciativas e realizações de ordem pessoal.
- Desde as tentativas de reforma da Cúria, ao envolvimento com o vasto mundo dos migrantes que fogem da fome e das guerras;
- da visão de um mundo a partir dos pobres e de todas as periferias existenciais;
- de despertar a sociedade para uma concepção da vida como realidade intergeracional, intercultural e inter-religiosa;
- de não descansar enquanto a pedofilia e o seu encobrimento, por parte do clero, não se tornem empenhamento de toda a Igreja e da sociedade para acabar com essa tragédia;
- de fazer do Sínodo dos Bispos o Sínodo de toda a Igreja,
mostrou sempre que procura, em todas as suas iniciativas, o envolvimento crescente de todas as pessoas de boa vontade.
Para este Papa, desde Março 2013, as suas questões são as de toda a humanidade, a fraternidade universal, como manifestou
- na Laudato Si’ (a ecologia integral, cuidado da Casa Comum),
- na Carta A Fraternidade Humana em prol da paz mundial·e da convivência comum — a quatro mãos —
- assim como na Fratelli Tutti.
Não são documentos para figurar nas estantes religiosas,
- são tentativas de mobilização de pessoas e grupos que podem e devem trabalhar por um mundo outro, um mundo de paz activa.
- São convocatórias.
Como mostrou nos encontros com os movimentos populares,
- trata-se sempre de olhar o mundo a partir de baixo, a partir do mais elementar figurado com os 3T:
- terra, tecto e trabalho, isto é, três direitos sagrados.

Francisco com os jovens em Assis – Foto: Reprodução
No seu documento programático, A Alegria do Evangelho (2013),
- denunciou a economia que mata, expressão que teve um grande eco,
- tanto entre os que a apoiavam — católicos ou não — como entre os que a censuravam,
- com o argumento de que o Papa não é um economista.
Teria exorbitado da sua missão de pastor da vida espiritual. Deixe, de uma vez para sempre, a política económica para os debates entre economistas, nas suas diversas orientações.
De facto, não conheço nenhuma obra de ciência económica assinada pelo Papa Francisco.
Também neste domínio, revelou-se um bom pastor:
- desencadeou um movimento — A Economia de Francisco — precisamente porque a economia dominante não tem em conta o espírito do Santo de Assis,
- em vez de promover a vida dos mais pobres, arruína-os cada vez mais.
E ainda neste domínio, segue fiel ao seu estilo: não faz aquilo que não sabe, mas faz fazer quem sabe ou pode vir a saber.
2. É paradoxal a minha situação ao escrever esta crónica.
- Ao elaborá-la, só podia conhecer uma parte do percurso da chamada Economia de Francisco e o anúncio de um evento do futuro, a realizar-se de 22 a 24 deste mês.
- Quando aparece publicada, é sobre um evento que já terminou no qual não participei.
- Dir-se-á que o melhor seria ignorar o que, por outro lado, não quero nem posso ignorar.
O que desejo destacar é que o evento, em Assis, com a participação de tantos jovens de tantos países e a presença activa do Papa Francisco, não pode ser a clausura de um percurso.
- Seria uma traição ao convite que Bergoglio enviou, no dia 1 de Maio de 2019, a economistas, agentes de mudança, empreendedores e empreendedoras com menos de 35 anos em todo o mundo.
- Seria também trair o trabalho online dos últimos dois anos que não se deixou vencer pela pandemia, envolvendo milhares de jovens de 120 países dos cinco continentes.
O Papa designou o professor Luigino Bruni para director científico deste grande projecto. Nesta reunião sem precedentes, além dos jovens, participarão também muitos especialistas de renome, incluindo
- Prémio Nobel da Paz de 2006, Muhammad Yunus,
- Prémio Nobel da Economia de 1998, Amartya Sen,
- Jeffrey Sachs ou Stefano Zamagni, entre vários outros
- como os portugueses, Ricardo Zózimo, Professor da Universidade Nova, e Américo Mendes, da UCP Porto.
Toda a movimentação desenvolvida, desde 2019, não pode ter prazo de validade.
O que aconteceu, nos últimos três dias, foi a realização de um programa preparado ao longo do tempo.
O perigo destas realizações, por mais que se diga o contrário, é confundi-las com a lógica dos festivais: realizou-se e acabou. No entanto, é preciso dizer que, desde há muito, tudo tem sido feito para contrariar essa tendência.
Um dos sinais foi dado no dia 24,
- ao apresentar ao Papa um pacto que ele e os jovens assinaram em conjunto, de forma pessoal e colectiva
- para se comprometerem neste caminho rumo a uma economia com alma, que não deixa ninguém para trás,
- como tinha explicado a jornalista da equipa de Economia de Francisco, Lourdes Hércules.
3. A esperança
- é que a Economia de Francisco faça parte de um processo mais amplo que possa levar os jovens e os adultos a comparar as suas propostas com importantes realidades da economia, finança e energia.
- É continuar a confrontar-se e confrontar os grandes da terra para que o acontecimento de Assis não seja só um sonho.
Quando tantos jovens
- se disponibilizam a trabalhar para dar substância aos sonhos e experimentar a profecia de uma economia, que não deixa ninguém para trás e que sabe viver em harmonia com as pessoas e com a terra,
- toda a Igreja se deve alegrar e sentir o dever de se informar, seguir e acompanhar esse processo,
- evitando a tentação de querer encaixotar os jovens e os seus projectos em estruturas preexistentes,
- como tinha dito a irmã Alessandra SmerilIi, secretária do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que é parte desta iniciativa.
Importa, agora, dar a conhecer o percurso realizado até ontem e partir para uma etapa que divulgue, no ensino secundário e universitário, nas empresas, nos movimentos sindicais, nas Igrejas, para que saibam combinar o culto com esta nova cultura económica.
Como toda esta movimentação aconteceu a partir de iniciativas católicas, tentando envolver a sociedade e as igrejas cristãs e outros movimentos religiosos e humanistas,
- é fundamental dispor de um calendário de avaliação dos passos que se forem dando.
- Não para reproduzir o acontecimento emblemático dos últimos dias,
- mas pelo contrário, tanto ao nível da investigação como das realizações, perguntar-se sempre o que está a acontecer de novo.
Não estou a dizer nada de inédito. Apetece-me lembrar o que li numa entrevista de 2019 de Ricardo Zózimo, que envolve também Américo Mendes:
— Há três coisas que eu quero levar:
- o nosso entusiasmo por esta iniciativa,
- a nossa vontade de que isto não seja um ponto de chegada nem um ponto de partida, mas um ponto de celebração
- e de nos lançar para a frente, ideias para conseguir mudar os modelos económicos [1].
A situação actuaI está cheia de imprevistos, também de ordem económica, a partir da invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin e também das suas ameaças cada vez mais loucas.
[1] Agência Ecclesia, 18/7/2019; cf. também Manuel Brandão Alves (7Margens, 20/9/2022).
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Frei Bento Domingues
in Público, 25.09.2022
https://www.publico.pt/2022/09/18/opiniao/opiniao/protesto-acolhimento-novo-caminho-2020704
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