
Manuel Brandão Alves | 20 Set 2022
Foto: O encontro A Economia de Francisco vai realizar-se em Assis, “lugar que o Papa afirma ser o melhor símbolo de uma mensagem de humanismo e fraternidade”. / DAQUI
Depois do evento dos jovens cabe-nos a nós receber os empenhamentos objeto do Pacto para a mudança global e, através da sua operacionalização, introduzir-lhe a seiva que a sabedoria dos mais velhos é capaz de dar.
Ainda não se aperceberam? Pois então despachem-se porque faltam poucos dias. (já começou: NdR)
Faltam poucos dias para quê? Eu bem me parecia que andavam distraídos do facto de que, a partir do dia 22 de setembro e até ao dia 24, se vai realizar em Assis o primeiro grande encontro presencial sobre a Economia de Francisco.
No último dia estará presente o Papa Francisco que, com os participantes,
- vai assinar um Pacto para mudar a economia atual e atribuir uma alma nova à economia de amanhã.
- O Pacto é um compromisso com a Economia de Francisco,
- com vista a uma mudança global nos termos em que funciona a economia e em como se produzem e distribuem os seus resultados.
E tem este evento muita importância?
- O encontro é a primeira reunião global a realizar-se, presencialmente, depois do lançamento do movimento pelo Papa Francisco através da sua Carta Apostólica de 1 de maio de 2019.
- Encontros anteriores (por exemplo em março de 2020) não puderam ser presencialmente levados a cabo, em razão da pandemia, mas tiveram lugar no formato digital.
Antes de falarmos do Encontro de Assis com início no próximo dia 22, importa analisar onde é que o Papa quer chegar, com esta iniciativa, com quem e de que modo.
Com muita oportunidade, o professor Américo Mendes escreveu, já há algum tempo, que
- estamos perante um tema luminoso, mas que não pode ser reduzido a um simples evento, o de Assis ou qualquer outro.
- Em vez de um evento temos, antes, perante nós, um novo advento que não é um acontecimento muito bem situado no tempo, mas antes um caminho de conversão permanente.
A mensagem principal de Francisco é a de colocar a fraternidade no centro da economia.
Com efeito, uma economia fraterna não encontra espelho na economia atual.
Para que o encontre terá de ser uma economia diferente,
- que faz viver em vez de matar, que inclui e não exclui,
- que humaniza em vez de desumanizar,
- que cuida da criação em lugar de a devastar.
O funcionamento da economia terá de estar sujeito a princípios que estão radicalmente afastados dos que têm conduzido ao estado em que a economia se encontra.
Mas a nova economia não está à mão na loja ao lado.
Terá de ser paciente e duravelmente construída, exigindo o compromisso permanente de muitos, de todos, e durante muito tempo:
– No respeito pela salvaguarda do meio ambiente;
– Com a prática da justiça em relação aos pobres;
– Com a busca de soluções para os problemas estruturais da economia, corrigindo os modelos de crescimento atuais que são incapazes de garantir
- o respeito pelo meio ambiente,
- o acolhimento da vida,
- o cuidado da família,
- a equidade social,
- a dignidade dos trabalhadores
- e os direitos das gerações vindouras;
– Na construção de um modelo económico novo, fruto de uma cultura da comunhão e baseado na fraternidade, na equidade e na justiça;
– Através da busca e adoção de outras modalidades de entender a economia e o progresso, combatendo a cultura do descarte e dando voz a quantos não a têm;
– Fazendo da economia um instrumento portador de paz, de igualdade e de sustentabilidade.
À economia de boa esperança a que Francisco deu esta configuração rapidamente se começou a designar por Economia de Francisco.
Mas atenção, apesar da multiplicidade de confusões,
- este Francisco do título não é o de Roma, mas o de Assis,
- lugar que o Papa afirma ser o melhor símbolo de uma mensagem de humanismo e fraternidade,
- porque foi aí que Francisco de Assis se fez pobre com os pobres e irmão universal.
E quem é que é convocado para fazer esta nova economia?
Na sua Carta de 1 de maio de 2019, Francisco convoca-nos a todos, porque entende que
“todos somos chamados a rever os nossos esquemas mentais e morais, para que estejam mais em conformidade com os mandamentos de Deus e com as exigências do bem comum”.
É verdade que
- convidou, de modo especial os jovens,
- nas instituições de formação, no mundo do trabalho, ou como empresários,
- porque sendo eles que detêm o futuro, são eles os principais protagonistas da mudança.
Tendo havido este convite especial, rapidamente e em muitos lugares ele foi transformado em convite exclusivo retirando do palco o “todos somos chamados”que Francisco tinha em primeiro lugar enunciado.
Não poucas vezes os jovens que tinham recebido o “convite especial”
- foram enquadrados por menos jovens que procuraram orientar o que poderiam vir a ser as suas iniciativas,
- porventura com receio de que mais uma iniciativa de Francisco se viesse a transformar numa aventura corrosiva da ordem até aqui estabelecida.
Pensarão que tudo está e ficará bem se nos ficarmos pela mudança do discurso sem que nada de estrutural se altere.
- É para que isso não continue a acontecer que todos teremos de dizer que estamos presentes, fazendo das nossas comunidades ecos vivos e sementeiras viçosas da nova economia.
- Não podemos permitir-nos que a Economia de Francisco seja um objeto de adorno que, nas nossas igrejas, nas nossas comunidades, nos nossos meios de comunicação
- apenas surja nos momentos em que se tem de enfeitar discursos ou outros eventos.
É tempo de voltarmos ao Grande Encontro de Assis.
Os três dias do acontecimento são um tempo forte de reflexão e de compromisso com o percurso já feito e com o que ainda falta fazer para realizar a Economia de Francisco.
Para eles são convocados, sobretudo, os jovens, mas convém evitar duas tentações.
- A primeira é a de pensar que fazer a Economia de Francisco é realizar uns encontros de vez em quando, proporcionando ambiente de festa que é sempre indispensável à mobilização, sobretudo dos jovens.
- A segunda, porventura mais grave, é o de acreditar que se os mais novos estão envolvidos então os que o não são poderão pousar descansados.
Feito o alerta para as perversidades vejamos o que há de substancial no Encontro de Assis.
São três dias, cada um deles com uma temática específica, embora interligadas. Os três terminarão na manhã do dia 24 com a assinatura de um Pacto em que estará envolvido o Papa Francisco.
No primeiro dia, o mote será o de celebrar o encontro propriamente dito:
- a alegria do encontro e a apresentação dos resultados do trabalho até agora realizado.
- Pela minha parte gostaria que no fim do encontro nos dissessem como é que os que não foram a Assis se podem empenhar na operacionalização desses resultados.
No dia 23, os participantes do encontro vão estar voltados para o futuro.
Em vários locais de Assis (aldeias) os participantes procurarão descobrir o que poderão fazer sobre questões tão importantes como:
- a agricultura e a justiça, estilos de vida, gestão e dom, finanças e humanidade, políticas para a felicidade, as mulheres na economia, a pobreza e a gestão energética, etc.
- Sem dúvida, desafios plenos, para toda uma vida, para cada um e para a vida em comum.
Estou extremamente ansioso por tomar conhecimento do que nos dirão sobre o que irão ver nessas digressões pelas aldeias.
No terceiro e último dia, teremos a presença e as palavras do Papa Francisco.
- Depois de descobrir como é que os jovens estão a tomar como tarefa sua a Economia de Francisco,
- ele vai formalizar o compromisso dos jovens através da assinatura com eles de um Pacto sobre o futuro que querem construir e no qual vão estar envolvidos.
Depois do evento dos jovens cabe-nos a nós receber os empenhamentos objeto do Pacto para a mudança global e, através da sua operacionalização, introduzir-lhe a seiva que a sabedoria dos mais velhos é capaz de dar.
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Manuel Brandão Alves
é professor catedrático (aposentado) do ISEG, Universidade de Lisboa.
Fonte: https://setemargens.com/o-que-temos-nos-a-ver-com-a-economia-de-francisco/