“A presença do ódio é constitutiva do neoliberalismo.” Entrevista com Jorge Alemán

Oscar Ranzani – 10 Setembro 2022

 O prestigioso psicanalista e escritor argentino Jorge Alemán exilou-se na Espanha em 1976, em plena ditadura argentina, e quando o país ibérico acabava de iniciar a transição para a democracia, após quase quarenta anos do regime ditatorial de Francisco Franco, que morreu em 20 de novembro de 1975. Na época, Alemán tinha 25 anos. Desde então, vive em Madri.
 (Fuente: Sofía Genovese)

Jorge Alemán – Foto: DAQUI

Autor de numerosos livros que dão conta de um pensamento que une psicanálise, filosofia e política, além de livros de poesia, durante a segunda metade dos anos 70 fez parte da vanguarda da psicanálise lacaniana na Espanha e é um dos intelectuais mais consultados.

Mas ele nunca se esqueceu de sua terra. Por isso, quando perguntado sobre até que ponto sua teoria pode explicar o que a sociedade argentina está vivendo, 

Alemán consegue traçar um panorama agudo e lúcido tanto do discurso capitalista que Jacques Lacan abordou, quanto do discurso de ódio no presente argentino.

A entrevista é de Oscar Ranzani, publicada por Página/12, 08-09-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

Em que aspectos se cumprem as características do discurso capitalista de que falava Lacan nestes tempos?

Em todos os aspectos. É a minha tese. Há uma homologia estrutural entre o discurso capitalista e o neoliberalismo.

neoliberalismo

  • é o triunfo, em termos heideggerianos, da técnica.
  • É a ideia de formatar o cérebro através das estruturas cognitivas, das nanotecnologias e das redes de computadores.
  • É administrar o cérebro como se fosse uma empresa.

Ao mesmo tempo, o neoliberalismo tenta passar a culpa por toda a violência do sistema para o sujeito; isto é, o próprio sujeito é culpado de todas as circunstâncias adversas que ele tem que viver neste mundo.

A ideia é que cada sujeito considere sua liberdade em termos de custo-benefício.

Tudo isso foi previamente afirmado por Lacan quando escreveu o discurso capitalista.

Ele falou

  • da rejeição do amor; ou seja, esta espécie de gestão da alma que existe agora com os termos empatia, autoestima e resiliência
  • que, na realidade, são termos que tentam treinar os sujeitos para suportar qualquer coisa
  • ou para que a única realidade desses sujeitos seja o seu narcisismo.

Lacan também anunciou nesse discurso o mais-gozo, um termo muito problemático.

  • Não se encontra apenas na classe dominante, mas também desempenha seu papel nos setores explorados e oprimidos.
  • Basta ver quando se diz que há muitos setores da população em diferentes partes do mundo que votam contra seus próprios interesses.

Se a estrutura do discurso capitalista fosse lida como devia, ver-se-ia que eles não estão votando contra seus próprios interesses.

Mas os interesses dos sujeitos

  • não são seus interesses vitais,
  • não são os interesses do princípio do prazer,
  • não são interesses homeostáticos.

Eles estão em um além. São interesses ligados ao gozo.

E quando você coloca os interesses ligados ao gozo, tudo se torna muito mais problemático. Entende-se por que em uma favela há trocas de armas e marcas de todos os tipos. Finalmente, há um mercado.

As exigências e os imperativos de desempenho continuam a operar no coração mesmo da pobreza.

 

“Há muito medo de que tudo fique pior do que está”, você disse a esse cronista em 2017, quando Mauricio Macri já era presidente. Diante dos acontecimentos ocorridos nos últimos tempos, sua análise teve um caráter inegável de previsão.

Sim, piorou muito. O mundo está muito pior. Ou seja,

  • em consequência dos efeitos de destruição no discurso capitalista dos pontos de ancoragem,
  • surgiu um tipo de subjetividade que não tem onde se amarrar, que flutua, como diria Lacan;
  • que não tem um horizonte político onde se incluir.

E o receptáculo de tudo isso tem sido a extrema direita.

Não devemos confundi-la com as extremas direitas históricas.

A extrema direita é uma agenda, não um partido político.

  • E é esse híbrido de neoliberalismo e estrutura que se dispõe a fazer a destruição de todos os laços sociais, do sujeito,
  • e transformar tudo em uma espécie de performance e treinamento para quem pode entrar no mercado ou para quem fica de fora.

 

E como analisa a partir da teoria psicanalítica os discursos de ódio e por que eles pegam em alguns sujeitos dessa maneira?

  • Se a pessoa não tem nenhum legado simbólico,
  • se o horizonte histórico em que ela pode se reconhecer foi destruído,
  • as pulsões de morte e as pulsões de destruição estão em todos os sujeitos.

E se o sujeito é capturado de tal maneira

  • que ele não tem mais história e a única coisa que ele ouve é o que está se movendo no presente absoluto
  • e o que está se movendo está constantemente chamando à destruição e ao ódio de quem quer reintroduzir o campo transformador do popular,
  • bem, há muito tempo o neoliberalismo entendeu que não vai se legitimar pelas instituições, que tem que ser legitimado pelo ódio.

Se você olhar como o neoliberalismo funciona dos Estados Unidos à Europa, observará que não buscam a legitimidade nas organizações institucionais, mas que a presença do ódio é constitutiva do neoliberalismo.

 

E o tipo de rejeição que ocorreu com o kirchnerismo é muito semelhante a uma rejeição que se espalha pelo mundo? A pergunta é porque na Argentina costuma-se falar de uma semelhança entre 1955 e o tempo presente em termos desse tipo de discurso.

Obviamente, a Argentina tem suas peculiaridades.

  • Primeiro, há o ódio clássico ao peronismo.
  • Em segundo lugar, há o ódio ao feminino, encarnado na figura de Cristina,
  • quando o feminino assume uma vocação política de transformação e de levar o campo popular ao poder.

Isso se torna insuportável para muitos sujeitos, como o cara que buscava seu “minuto de glória”.

Este sujeito que outro dia procurou o seu “minuto de glória” é fruto do seu ódio e da intersecção desse ódio com todos os aparelhos mediáticos que promovem, que não têm outra consistência senão o ódio que promovem.

 

Chegou-se ao limite de que muitos sujeitos rejeitam a vice-presidente até por causa de sua voz. Como os discursos de ódio se configuram no nível individual?

Então.

  • O ódio acaba sendo não algo direcionado a apenas uma forma de pensar. O ódio se dirige ao ser.
  • Esse é o poder que o ódio às vezes tem sobre o amor: o ódio se dirige à própria existência.
  • Então, a voz, os gestos, o corpo, o jeito de se mover, tudo isso alimenta o ódio.

 

E de que maneira você acha que se pode analisar a ideologia na formação psíquica? Ou talvez o psíquico seja o criador da ideologia?

A grande contribuição da esquerda lacaniana – e trabalhei isso no meu último livro, Ideologia –

  • é a relação muito problemática, mas, enfim, relação entre a ideologia e o fantasma.
  • A ideologia tem a ver com a reprodução das relações sociais de produção, isto é, com a exploração e a opressão,
  • mas o fantasma empresta à ideologia uma superfície de inscrição.

Por exemplo, o que estávamos vendo neste sujeito outro dia. Esse sujeito, por qualquer motivo, realiza-se através de um ato violento que nele visa alcançar seu “minuto de glória”. 

Isso não é algo meramente ideológico, é também de ordem fantasmática.

O grande mérito de Althusser é que,

  • ao ler Lacan e escrever sobre os aparelhos ideológicos do Estado, inscreveu o problema do estágio do espelho; isto é, o das identificações dentro da ideologia.
  • Portanto, se você vê um imigrante na Europa que vota na extrema direita, diz-se: “Mas como pode ir contra os seus interesses?”

Volto a insistir neste ponto:

  • depende de quais identificações você tem,
  • porque quando a história desaparece, as identificações se tornam muito fortes.

 

Freud dizia que uma mente saudável é aquela que não nega a realidade, mas se esforça para transformá-la. Se aplicado ao coletivo, em que aspectos esta é uma sociedade doentia e como pode ser transformada?

Os acontecimentos vão dizê-lo, porque a sociedade está realmente muito doente.

Há muitos lugares no mundo, por exemplo, aqui na Espanha,

  • onde a coalizão formada pelo PSOEIzquierda Unida e Podemos fez as coisas com muito bom senso, levando em conta a pandemia, a guerra e o tempo que lhe tocou governar.
  • E é provável que perca a eleição.

Por quê?

Do outro lado tem essa direita desinibida que propõe que não vai pagar a luz, que já afirmou na época que a quarentena era uma imposição.

Devemos ter em mente que

  • ficamos do lado dos argumentos, do lado das restrições, do lado do “devemos renunciar pelo bem comum”,
  • e a direita está em processo de desinibição para que sejam posteriormente distribuídos por todas as partes.

Enquanto isso, a fratura do social torna-se cada vez mais profunda e a desigualdade aumenta. No gozo proposto pela extrema direita está o aumento da desigualdade.

 

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Oscar Ranzani

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/622049-a-presenca-do-odio-e-constitutiva-do-neoliberalismo-entrevista-com-jorge-aleman

 

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