Pós-teísmo e pós-religião: um diálogo necessário. Artigo de Andrés Torres Queiruga

 

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Andrés Torres Queiruga – 30 Agosto 2022 | Foto: DAQUI

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“Não me parece historicamente justo ou hermeneuticamente aceitável o insistente recurso de elaborar uma espécie de caricatura que, com o nome de ‘teísmo‘ e a referência a ‘um Senhor no céu‘, onipotente e arbitrário, desqualifica em bloco e com palavras duras toda a tradição. Identificando o abuso com o uso e os defeitos com a essência, a compreensão da fé no Deus de Jesus se reduz a essa visão”,
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escreve Andrés Torres Queiruga, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 30-08-2022.

 

Eis o artigo.

 

Não faz muito tempo, surgiu entre nós uma viva polêmica em torno do amplo e pluriforme movimento de pós-teísmo e pós-religião (1).
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Dado que coincidiu pessoalmente com o tema que desenvolvia no meu já longo trabalho sobre Jesus Cristologia, decidi publicar, com pequenos ajustes, as páginas que lhe dedico. Acredito que, dada a importância do fenômeno, ele não deveria estar ausente do diálogo teológico.
Essas sugestões querem contribuir para isso.Enfrentar a situação teológica atual significa não apenas tomar conhecimento dela, mas compreendê-la na complexidade de suas dimensões intrínsecas:
  1.  sabendo que se tornou impossível continuar mantendo a “interpretação calcedônia” ao pé da letra o paradigma clássico, que vai fundamentalmente de Niceia à entrada da Modernidade];
  2.  que isso não significa ignorar que, dentro de seu condicionamento cultural, a experiência originária da fé cristã se exprime e se transmite verdadeiramente;
  3.  e, portanto, não se trata de simplesmente negá-lo, apagá-lo da história;
  4. mas a tarefa teológica consiste em recuperar essa experiência, repensando-a numa interpretação que a torne vivível e compreensível na situação atual.

    “Na frase sou ateu, Deus está em ‘sou’.” – Crédito: Religión Digital

     

    Colocando esses quatro pontos sobre ela como uma falsilha transparente, aparecem as quatro posições teológicas que a habitam .

    • Não se trata de descrevê-los detalhadamente, pois os limites nem sempre são claros e as nuances e sobreposições se multiplicam.
    • São antes indícios que marcam quatro tipos de orientação e que, na medida em que não se deixem levar pelo estreitamento dogmático,
    • podem enriquecer as buscas que movem esse “período de elaboração” [refiro-me à estruturação dos processos históricos de Amor Ruibal: aquisição, elaboração e síntese].

     

    Deixando de lado a posição que se reduziria a uma pura imobilidade fundamentalista, é possível dividi-los em dois grupos, que se distinguem por sua maneira de se situar diante da crise do paradigma calcedônico.

    • Ao primeiro grupo pertencem as duas posições que coincidem no abandono total ou quase total dele  e que se distinguem pela radicalidade com que o fazem.
    • O mais extremo vem do ateísmo e simplesmente nega seu “valor religioso”.

    Para este momento de nossa reflexão interessa principalmente de forma indireta. Já aludi a isso, mencionando a discussão entre Joseph Ratzinger/Bento XVI e Paolo Flores d’Arcais sobre a interpretação de dados históricos sobre Jesus.

    É um exemplo eloquente de como a recusa em reconhecer a necessidade de uma mudança radical na interpretação tende a paralisar a teologia e fortalecer as razões da rejeição ateísta.

     

    “Deus existe?”, de Bento XVI e Paolo Flores d’Arcais

     

    A outra posição é o que geralmente é chamado de pós-teísta ou pós-religioso .

    • Não nega seu valor para a fé “religiosa”;
    • mas, como se apresenta no paradigma tradicional, o rejeita – com diferentes graus de explicitação ou profundidade – em seu “valor teológico”.
    • O panorama que apresenta é amplo e genérico: algumas manifestações não só vão além de Calcedônia, mas também o Evangelho, alcançando a “era axial” e até além.

     

    Ultimamente adquiriu força especial no espaço euro-americano de língua espanhola, embora acolha ativamente as preocupações “religiosas”da não-dualidade na tradição oriental e na espiritualidade ateísta ocidental;

    • presta atenção ao grande mundo pós-colonial e às diferentes iniciativas teológicas sobre as margens individuais e sociais;
    • e ainda se refere à teologia da morte de Deus e outras formas radicais de secularização (incluindo uma inclusão questionável de Dietrich Bonhöffer) (2).

     

    Seu radicalismo contra os “religiosos” não significa abandonar a abertura à Transcendência.

    Por isso,

    • na medida em que é determinado pelo fato de reconhecer o esgotamento teológico do paradigma tradicional
    • e a necessidade urgente de buscar uma renovação para viver e anunciar o que há de mais recente e transcendente na cultura de hoje,
    • abre a possibilidade objetivo do diálogo.

    Partindo dessa base comum, trata-se de calibrar a profundidade exigida pela mudança, procurando elucidar suas justas consequências.

     

    Especificamente, apresenta a questão de saber se esse paradigma deve ser abandonado sem mais delongas,

    • porque seus desequilíbrios e mesmo suas distorções na interpretação são tais que impossibilitam a continuidade nos fundamentos da experiência de crer;
    • ou se, pelo contrário, essa continuidade não é apenas possível, mas necessária e frutífera.

    Não é necessário lembrar que todo o percurso deste discurso situa-se decisivamente nesta segunda opção.

    • Mas isso não significa, mas implica, a conveniência e até a necessidade de estabelecer um diálogo que,
    • reconhecendo a dissidência, acolha coincidências e busque possíveis convergências para o bem de todos.

     

    Começando pela segunda, ou seja, pelas coincidências, que surgem sobretudo do reconhecimento da urgência de uma mudança radical,

    • acredito que a energia e a clareza da rejeição devem servir como um importante sino de alerta para que a teologia de hoje finalmente leve a sério o necessidade de uma grande reforma.
    • Não se pode ignorar que, mesmo dentro das próprias igrejas, a persistência na interpretação tradicional produz uma confusão que atinge níveis cada vez mais elevados de ausência na prática cristã,
    • manifestada no vazio alarmante que deserta de assistir às celebrações.

    E, no mundo cultural, fomenta uma verdadeira hemorragia de abandono e, o que é pior, gera uma ampla atmosfera de simples desinteresse pelo Evangelho e mina a credibilidade da fé na raiz.

     

    “Um novo cristianismo para um novo mundo; A fé além dos dogmas”, de John Shelby Spong

     

    Por outro lado,

    • é justo reconhecer que o acentuado distanciamento que essa posição adota das formulações teológicas recebidas e das práticas religiosas, tanto no culto quanto na piedade pessoal,
    • está favorecendo positivamente novos modos de expressão que estejam em sintonia com a sensibilidade ambiental.
    • Isso lhe permite desenvolver possibilidades tanto de explicação conceitual quanto de evocação simbólica, que facilitam a abertura à Transcendência e motivam sua aceitação e experiência.

    De fato, tudo indica que,

    • tanto dentro como fora das comunidades crentes,
    • sua influência está se mostrando efetiva em pessoas e ambientes que não entendem a linguagem teológica, se sentem desconfortáveis com a “religião oficial” ou estão praticamente fora dela.

     

    Juntamente com o reconhecimento cordial de tudo isso, também não podem ser ignoradas as razões do dissenso.

    • A primeira e, a meu ver, fundamental está no radicalismo com que formula uma rejeição,
    • que tende a negar pão e sal a toda uma tradição que, apesar de seus defeitos e limitações, passou dois milênios alimentando a fé de milhares de milhões.
    • Deve sugerir o próprio fato de que, mesmo assim, promoveu toda uma cultura de entregas generosas e estoques esperançosos.

    Intelectualmente,

    • muitos gênios entre os grandes da humanidade trabalharam em sua elaboração e constantes reajustes. Hegel sabia vê-lo bem:
    • “Seria ruim se não houvesse sentido em algo que durante dois milênios foi a representação mais sagrada dos cristãos” (3).

     

    Nesse sentido,

    • não me parece historicamente justo ou hermeneuticamente aceitável o insistente recurso de elaborar uma espécie de caricatura que, com o nome de “teísmo” e a referência a “um Senhor no céu“, onipotente e arbitrário,
    • desqualifica em bloco e com palavras duras toda a tradição.

    Identificando o abuso com o uso e os defeitos com a essência, a compreensão da fé no Deus de Jesus se reduz a essa visão.

    Não se percebe que,

    • sem descuidar o que há de justo nessas críticas, muitos teólogos estiveram – nós estivemos – trabalhando na reinterpretação e atualização da fé cristã
    • com não menos radicalidade do que a suposta naquelas desqualificações, e, às vezes, com uma dedicação ainda anterior a eles (4).

     

    (Se neste momento uso a primeira pessoa do plural, é porque, num espírito fraterno de diálogo, me parece justo afirmar duas coisas.

    A primeira é que,

    • mesmo sem personalizar, mais de uma vez senti intimamente que essas desqualificações ferem a compreensão da fé que compartilhamos tantos teólogos e teólogas.
    • Eu pessoalmente dediquei um trabalho bastante longo para repensar seu pensamento, tentando deixar claro que ele não é nada parecido com a caricatura mencionada
    • e que, de fato, ele tem não deixaram de examinar e denunciar as deformações que uns aos outros rejeitam.

    A segunda é uma questão que, de certa forma, me intriga:

    • alguns teólogos entre aqueles que supõem que essa compreensão da fé “teísta” realmente a viveram como adultos?
    • uma forma tão incuravelmente deformada como a apresentam hoje?).

     

    Deixando de lado esse aspecto (mais) subjetivo, há alguma observação no objetivo que, na minha opinião, também merece ser revista.

    Tendo reconhecido cordialmente a sensibilidade de atualização e a capacidade expressiva de muitos tratamentos, atrevo-me a alertar para dois perigos que me parecem graves:

    • por um lado, o cultivo insuficiente (ou pelo menos a falta de tratamento expresso e eficaz) dos problemas epistemológicos e hermenêuticos que intervêm no amplo e difícil tema da interpretação exegética, dogmática e teológica;
    • por outro lado, a dupla propensão, a meu ver, não suficientemente controlada, a avanços históricos dados como óbvios, que em alguns casos podem ir até à própria cosmogénese,
    • e, por outro, a um certo fascínio pelos avanços científicos, que, por mais avançados que sejam, não devem negligenciar o alerta para não incorrer em um metabasis eis allo genos,(a fuga, o salto para outro gênero, ou assunto – NdR) ferindo a especificidade do discurso teológico.

     

    Em todo o caso, é claro que todas estas observações são discutíveis

    • e que são feitas não só com a intenção de construção objetiva,
    • mas também com respeito pela intenção e esforço despendidos nessa procura de novos horizontes,
    • quando em alguns casos sou também homenageado com a amizade de seus autores.

    Acredito, de fato, que o estabelecimento de um diálogo (mais) sereno poderia ajudar a todos nós.

     

    A este tipo de crítica,

    • não para resvalar para uma certa “fúria de destruição“,
    • mas para se inserir numa “desconstrução” da forma de interpretar a fé tradicional,
    • cujo objetivo primordial é empenhar-se na delicada e difícil tarefa de uma “reconstruçãoque revive na cultura de hoje a força viva de raízes antigas.

    Por sua vez, o outro tipo de teologia, menos radical na forma e creio que não suficientemente radical na substância, faria bem em abraçar esse impulso renovador e colaborar na busca de caminhos inéditos para a criatividade teológica.

     

    Notas

    1. Antonio Duato dá conta do surgimento, Convite para recolher no ATRIO o debate sobre Não-teísmo e fé em Deus ( https://www.atrio.org/2021/04/19397/  ).

    2. Uma apresentação animada pode ser observada no manifesto promovido por “Servicios Koinonia, info@servicioskoinonia.org ”, amplamente implementado, especialmente nos países ibero-americanos, em cuja promoção José Maria Vigil desempenha um papel incansável.

    Na Itália, Ferdinado Sudati é amplamente divulgado, promovendo traduções e fazendo contribuições pessoais perspicazes. A publicação do mencionado manifesto provocou uma polêmica reação por parte de A. FierroEl sindios de un cristiano sin Dios (pode ser visto, em: https://www.atrio.org/2022/07/el-sindios – de-um-cristianismo-sem-deus/ ). Feita a partir do ateísmo, mostra as questões que vêm de um lado que também merece atenção.

    3. Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie, ed. Suhrkamp, Bd 18, 253.

    4. Permitam-me assinalar pessoalmente um fato que considero significativo:

    • no ano 2000 publiquei meu livro:O Fim do Cristianismo Pré-Moderno. Desafios para um novo horizonte.
    • Em 1999, John Shelby Spong, com Roger Lenaers um dos grandes e sérios referentes do movimento, publicou: Por que o cristianismo deve mudar ou morrer. Um bispo fala aos crentes no exílio. Eu não o citei, porque eu não o conhecia na época. Mas basta comparar os títulos para entender duas coisas: 1) a coincidência na intenção e até nas críticas mais decisivas, que se confirma pelo exame do conteúdo e seu tratamento e 2) a diferença no alcance do diagnóstico: Spong falou de “cristianismo” sem mais e de possível “morte”;
    • Delimitei expressamente, falando do cristianismo “pré-moderno” e só dele anunciava o “fim”.

     

    Andrés Torres Queiruga, 70 anos de pensamento en galego

    Andrés Torres Queiruga

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/categorias/621711-pos-teismo-e-pos-religiao-um-dialogo-necessario-artigo-de-andres-torres-queiruga

 

 

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