Com as tremendas responsabilidades que pesam sobre ele, o Papa Francisco olha para o futuro: o seu futuro, o futuro da Igreja, o futuro do mundo…
1 – Qual o futuro de Francisco? Ele sabe que tem 85 anos e que anda em cadeira de rodas e que há rumores de renúncia no ar, tão desejada por alguns sectores ultraconservadores que anseiam por ver-se livres dele.
De qualquer forma, mesmo sentindo-se um pouco diminuído, não está nos seus planos a renúncia para breve. Disse-o recentemente a duas jornalistas mexicanas, María Antonieta Collins e Valentina Alazraki:
“Não tenho nenhuma intenção de renunciar. Para já, não.”
Repetiu a mesma coisa na conferência de imprensa no regresso da recente “peregrinação penitencial” ao Canadá. Confessou que uma eventual renúncia
“não é uma catástrofe: pode-se mudar de Papa, isso não é um problema”.
De qualquer forma, acrescentou,
“não pensei nessa possibilidade. Isso não quer dizer, porém, que não venha a pensar nisso num futuro próximo.”
Evidentemente, não poderá
- “continuar com o mesmo ritmo de viagens de antes.
- Com a minha idade e com esta limitação, devo poupar-me um pouco para servir a Igreja ou até pensar na possibilidade de me afastar”.
De qualquer forma, declarou:
“continuarei a fazer viagens e a estar perto das pessoas, pois julgo que a proximidade é um modo de servir.”
Deu como quase certa a sua viagem ao Cazaquistão em Setembro –
“é uma viagem tranquila, é um congresso” –
e reiterou
- a sua intenção de ir à Ucrânia
- e realizar a visita à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul,
- prevista para os princípios de Julho e adiada por causa da recuperação do joelho.
2 – Entretanto, a ida ao Cazaquistão, de 13 a 15 de Setembro próximo, foi confirmada pelo Vaticano. Para participar no VII Congresso de Líderes de Religiões Mundiais e Tradicionais.
Precisamente aí poderia dar-se o tão desejado encontro com o Patriarca de Moscovo, Cirilo, que, desgraçadamente, continua a abençoar a invasão e a guerra da Ucrânia.
Francisco, pelo contrário, com mais de 70 intervenções a favor da paz,
- tem manifestado disponibilidade para visitar tanto Kiev como Moscovo,
- colocando a diplomacia da Santa Sé ao serviço de uma mediação em ordem a uma paz justa e duradoura.
Como acaba de declarar o Secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, à revista italiana de geopolítica “Limes”,
“o Papa gostaria de ir a Kiev para levar consolação e esperança às pessoas afectadas pela guerra”,
anunciando igualmente a sua disposição para ir a Moscovo,
“desde que haja condições que sejam realmente úteis para a paz.”
Afirmou:
- “A diplomacia da Santa Sé não está vinculada a um Estado mas a uma realidade de direito internacional que não tem interesses políticos, económicos, militares.
- Põe-se ao serviço do bispo de Roma, que é o pastor da Igreja universal.
- A Igreja é pacifista porque crê e luta pela paz”.
Parolin reconheceu que o diálogo entre Roma e Moscovo é
“um diálogo difícil, que avança com pequenos passos e também experimenta altos e baixos”, mas “não está interrompido”.
Francisco vive sobremaneira preocupado com o perigo nuclear. Por isso, não se cansa de declarar como doutrina oficial da Igreja que “o uso e a posse de armas atómicas são imorais”.
3 – Francisco deixa uma marca indelével na Igreja.
- Ele não quer uma Igreja “autorreferencial”, ela tem de estar aberta ao mundo, “em saída”.
- A liturgia tem de ser viva, não um ritual seco.
- Contra uma Igreja piramidal, centrada na hierarquia, afirma uma Igreja sinodal, na qual todos têm voz, sem tabus.
Certamente a Igreja tem de ser fiel à tradição, mas uma tradição viva, contra o imobilismo…
E, aqui, voltando à citada conferência de imprensa, fica um exemplo de abertura.
Uma das perguntas incidiu sobre os contraceptivos. E Francisco aproveitou para reflectir sobre o dogma e a moral em vias de desenvolvimento, citando S. Vicente de Lérins, no século X:
- “a verdadeira doutrina para avançar e desenvolver-se não pode ficar parada, isto é, consolida-se com o tempo, mas sempre em contínuo progresso”.
- “Uma Igreja que não desenvolve o seu pensamento em sentido eclesial é uma Igreja que recua, e este é o problema hoje de tantos que se dizem tradicionais”,
impedindo que a Igreja avance, apenas “porque sempre se fez assim.”
São “tradicionalistas”, “retrógrados”.
Deste modo, Francisco mostrou a abertura actual à contracepção.
Ainda sobre a renúncia.
Francisco é jesuíta, e há um ponto essencial para um jesuíta: o discernimento.
Ele irá, portanto, segundo as circunstâncias, discernindo, para tomar a decisão certa. Como ficou dito,
- irá ao Cazaquistão em Setembro.
- Em 28 de Agosto, visitará Aquila, cidade italiana onde se encontra o túmulo de Celestino V, o último Papa, antes de Bento XVI, a renunciar.
- Mas, logo no dia seguinte, os cardeais todos do mundo estão convocados para uma reunião.
Francisco quer aconselhar-se sobre a reforma da Cúria e, sobretudo, o processo sinodal.
É minha convicção que ele, excepto no caso de total incapacidade,
- não renunciará enquanto Bento XVI viver.
- E tudo fará para poder estar presente, em Outubro de 2023, no Sínodo sobre a sinodalidade.
4 – Como ele próprio disse, quando vir que “não posso continuar ou prejudico ou sou um estorvo”, espera “ajuda” para tomar a decisão de retirar-se.
E, retirado, não será “Papa emérito”, mas “bispo emérito de Roma”. E que fará?
“Gostaria de atender confissões e ir visitar os doentes”.
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Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/francisco-olhando-para-o-futuro-15087839.html