
Stefano Caprio – 15 Junho 2022
Na Foto: Papa Francisco com Hilarion Alfeev, no Vaticano em 06/10;2021 / DAQUI
A substituição repentina do “ministro das Relações Exteriores” ortodoxo mostra o alinhamento do patriarca de Moscou com a política agressiva do presidente russo.
A reportagem é de Stefano Caprio, publicada em Tempi, 13-06-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
- porque absorveu na jurisdição moscovita a Igreja da Crimeia,
- que havia permanecido dependente de Kiev mesmo após a anexação de 2014.
O aviso de Moscou aos ucranianos
O patriarcado, acima de tudo,
- ofereceu uma réplica autoritária à decisão do sínodo análogo, realizado alguns dias antes pelos coirmãos ucranianos,
- membros da Igreja presidida pelo Metropolita Onufryj (Berezovsky), que sempre permaneceu em comunhão com Moscou e agora declarou a sua independência.
Na decisão da cúpula presidida pelo Patriarca Kirill (Gundjaev), expressou-se
- “o desapontamento com a pressão sobre a Igreja na Ucrânia
- [“UPZ”, Ukrainskaja Pravoslavnaja Zerkov, para distingui-la da “PZU”, Pravoslavnaja Zerkov Ukrainy, que distingue a Igreja autocéfala],
- manifestando o nosso apoio àqueles que foram obrigados a omitir o nome do patriarca na liturgia”,
e por isso
“lembramos que a decisão de mudar o status da UPZ só pode ser tomada dentro do procedimento canônico, que inclui a deliberação do Concílio local da Igreja Ortodoxa Russa”.
Para além da linguagem burocrática curial, Moscou adverte que
- os ucranianos não podem autodeterminar sua própria dimensão eclesial, “provocando um novo cisma” após o ocorrido em 2019,
- quando o patriarca de Constantinopla, Bartolomeu (Archontonis), concedeu o Tomos de autocefalia, a declaração de autonomia eclesiástica, à Igreja PZU presidida pelo metropolita de Kiev, Epifanyj (Dumenko).
“A Crimeia é nossa”
Kirill também decidiu proclamar “a Crimeia é nossa”, “Krym Naš!”,
- o famoso grito de vitória de Vladimir Putin na Praça Vermelha na noite de 18 de março de 2014, quando o referendo da Crimeia decidiu pela anexação à Rússia.
- Então, o patriarca contestou o triunfo com a sua ausência na reunião e deixou Sebastopol nas mãos de Onufryj;
- hoje, ele o ameaça de excomunhão caso torne efetiva a declaração de independência, modificando os estatutos que vinculam a sua Igreja a Moscou.
Na realidade, a UPZ é autônoma há algum tempo,
- pois desde os anos 1990 ela obteve de Moscou a faculdade de poder se autogerir,
- justamente para não deixar a arma do nacionalismo ucraniano aos “autocéfalos”.
O Patriarcado de Moscou manteve apenas um primado de honra, para lembrar o vínculo indissolúvel entre russos e ucranianos, que é a principal motivação da “operação militar especial” iniciada em 24 de fevereiro.
Todas as contradições do mundo russo
O arcebispo Lazar (Švets) de Simferopol, de 83 anos, novo herói nacional da “resistência” às influências externas e às tentações de cisma, permaneceu à frente da Metropolia da Crimeia.
Hierarca de longa data,
- tornou-se bispo em 1980 na Argentina nos tempos de Pinochet, tornando-se exarca patriarcal para a América Latina,
- onde chegou a celebrar em 1988 o “Milênio do Batismo da Rus’,
- o início do renascimento religioso do pós-comunismo, até renomear a praça em Buenos Aires perto da Igreja russa como “praça do santo príncipe Vladimir”.
De volta à sua terra natal, foi protagonista da reabertura de igrejas e mosteiros na Ucrânia, onde chegou a concorrer ao Parlamento em 1990, antes do fim da URSS.
A independência de Kiev
- ocorreu enquanto ele presidia a diocese de Odessa e Kherson, uma das áreas mais afetadas pelo conflito atual,
- e apoiou ativamente o pedido de autocefalia que os ucranianos dirigiram a Moscou em 1992,
- mas ao mesmo tempo pediu que a sua diocese permanecesse “nas dependências diretas do patriarca de Moscou”.
Lazar, portanto,
- encarna todas as contradições atualmente em jogo em nível eclesiástico,
- até mesmo as do “mundo russo” em todos os continentes,
- onde o Patriarcado de Moscou se propõe como a única verdadeira Igreja Ortodoxa para todos os povos.
Quem é Hilarion
A exaltação de Lazar se contrapõe à destituição de Hilarion, que, por sua vez,
- encarna a “nova geração” dos ortodoxos pós-soviéticos,
- em uma corrida de revezamento ideal de restauração do velho no lugar do novo,
- muito mais significativa do que aquela com o jovem metropolita Antonij, chamado a ocupar o lugar de “ministro das Relações Exteriores” patriarcal.
Hilarion, 58 anos, foi consagrado bispo em 2001, no alvorecer do putinismo, e também se orgulha de uma importante missão estrangeira.
- Enviado como vigário do lendário metropolita de Surož, Antonij (Bloom), na Inglaterra, em pouco tempo reduziu a nada a síntese da Ortodoxia russa e da cultura anglo-saxônica que caracterizava a Igreja naquelas terras,
- demonstrando ser o perfeito “agente especial” para a russificação do mundo.
Por isso, Kirill, que se tornou patriarca em 2009, cedeu-lhe o seu lugar no Departamento das Relações Exteriores, que Hilarion presidiu, portanto, durante esses 13 anos.
O hipotético escolhido
O departamento está sediado no mosteiro moscovita de São Daniel, cuja restituição foi um dos primeiros sinais do degelo em relação à religião, antes mesmo de Gorbachev nos anos 1980. Kirill o usou durante anos como a verdadeira sede do poder eclesiástico, deixando ao seu antecessor Aleksij II (Ridiger) apenas os modestos escritórios perto da Catedral de Cristo Salvador, herança da marginalização dos tempos soviéticos.
A tomada de posse do grande mosteiro naturalmente fazia de Hilarion o “escolhido” mesmo na hipotética linha de sucessão patriarcal, que em todo caso ainda está longe de chegar a um ponto decisivo.
Kirill, aliás, adotou com o seu herdeiro uma política muito congênita a ele, a da “reviravolta dos fidelíssimos”: depois de tê-lo transferido por anos de uma sede a outra, quando o colocou na cúpula da São Daniel, tirou-lhe quase todos os poderes, desmembrando a estrutura elefantina do departamento em uma série de outros dicastérios, onde ele poderia colocar seus outros discípulos, permanecendo como o único chefe de toda a máquina.
Boas relações com o Vaticano
O papel diplomático de Hilarion, portanto, devia permanecer apenas honorário,
- limitando-se a executar as ordens do líder supremo e seguindo-o como uma sombra,
- como ocorreu no histórico encontro em Havana com o Papa Francisco em 12 de fevereiro de 2016.
- Hilarion sempre se ateve ao roteiro, mas tentando acrescentar elementos que pudessem deslocar algum refletor sobre ele.
Em 2009,
- ele criou o instituto para aspirantes e doutores “Cirilo e Metódio”,
- um centro de alta especialização teológica que se coloca acima de todos os seminários e academias da Rússia,
- aproveitando os anos de Oxford e das suas pesquisas no campo histórico-patrístico.
Tendo feito também seus estudos de juventude no conservatório, Hilarion ganhou uma certa notoriedade como compositor de música sacra e profana, e suas obras eram inevitavelmente inauguradas no Vaticano, às vezes até antes do que em Moscou.
Hilarion e Tikhon
Não faltaram, portanto, motivos de tensão entre Kirill e Hilarion, pois o patriarca não tolera que os seus subordinados se movam de modo autônomo e brilhem, mesmo que parcialmente, com luz própria.
Kirill, portanto,
- posicionou ao redor do seu primeiro “delfim” uma série de outros colaboradores próximos,
- começando pelo seu atual substituto, o muito jovem Metropolita Antonij (Sevrjuk), 36 anos, bispo desde 2015,
- que ainda em 2009 ele havia cooptado como seu secretário pessoal, a ponto de ser definido como “afilhado de Kirill”.
No entanto, Hilarion permaneceu no seu posto por todos esses anos,
- até porque ele era a contrapartida necessária para outra estrela emergente do clero ortodoxo russo,
- o atual metropolita de Pskov, Tikhon (Ševkunov).
Ele vem de um círculo muito diferente da “ortodoxia política”de Kirill, que colaborava em Moscou com as instituições estatais desde os tempos soviéticos;
- Tikhon era um monge de Pskov, convertido nos anos 1980,
- expoente da ala mais intransigente da Ortodoxia, precisamente a dos mosteiros.
Mais tarde, ficou famoso como “pai espiritual de Putin”,
- tendo sido o conselheiro do futuro presidente quando este escolheu o cristianismo como uma fé e uma ideologia ao mesmo tempo,
- que salvava a Rússia da total desagregação.
Hilarion e Tikhon
- permaneceram assim até agora como os dois antagonistas na interpretação do papel da Igreja no novo Estado,
- o primeiro mais “institucional”e o segundo mais “ideológico”, entre Kirill e Putin,
- na nova edição da “sinfonia bizantina” na qual os dois poderes deveriam estar em pé de igualdade com papéis diferentes,
- exceto pelas contínuas vontades recíprocas de prevaricação.
Distanciamentos
Agora Kirill parece claramente alinhado com a vontade de Putin, que na guerra ucraniana
- expressa a ideia agressiva e apocalíptica de uma Rússia ortodoxa
- que deve salvar os povos irmãos e o mundo inteiro.
Tikhon permaneceu nos bastidores, já tendo cumprido amplamente o seu papel de inspirador nos últimos anos,
- e se limita a controlar a situação a partir da distante Pskov,
- que também faz fronteira com a Bielorrússia e fica muito perto da Ucrânia.
Hilarion também tentou ficar longe das polêmicas, mas os últimos fatos eclesiásticos foram fatais para ele.
- Após o pronunciamento do Sínodo de Kiev pela independência, ele se limitou a afirmar que em nível canônico “nada havia mudado”,
- e evidentemente isso foi como um distanciamento da necessidade de se impor aos ucranianos, como se quisesse sugerir que também parassem as ações militares.
A saga do patriarca e dos metropolitas
A gota d’água que fez transbordar o copo foi a viagem de Hilarion a Budapeste, em 5 de junho, na qual o metropolita devia e limitar a agradecer ao presidente Orbán por ter se oposto às sanções contra Hilarion.
Hilarion, por sua vez,
- deu ampla divulgação do seu colóquio com o cardeal Peter Erdo, um dos prelados católicos mais autorizados da atualidade,
- para sublinhar a importância de manter contato com interlocutores estrangeiros, talvez até os chefes de Estado ocidentais.
A saga do patriarca e dos metropolitas ainda está longe de terminar, conhecendo os personagens e aguardando os desdobramentos de uma situação internacional cada vez mais dramática.
- Alguns comentaristas interpretam o exílio húngaro de Hilarion como mais uma oportunidade para conquistar um papel independente como protagonista
- ou até como uma jogada combinada do próprio Kirill,
- para ter uma carta a mais para jogar, dependendo dos resultados futuros.
Certamente, a Igreja Ortodoxa Russa mostrou, não apenas com essas últimas escolhas,
- que a separação entre política e religião ainda é uma questão atual da Europa
- e também obriga os laicíssimos ocidentais a relerem a história para conhecer o futuro.

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Stefano Caprio
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