
António Marujo | 5 Mai 2022 |
Na Foto: Josef Kentenich, em Milwaukee (EUA), durante o exílio entre 1951 e 1965, por causa de acusações não esclarecidas. Foto: Direitos reservados.
“Temos todo o interesse em que se esclareça” o que aconteceu com o fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt (MAS), padre Josef Kentenich, acusado de abusos sexuais e de abuso de poder, diz ao 7MARGENS Ana Sanches, que integra a presidência nacional daquela organização católica.
A declaração da responsável surge na sequência da notícia de que o processo de beatificação do fundador de Schoenstatt, que morreu em 1968 e cujo processo foi aberto em 1975, tinha sido suspenso.
Foi o bispo da diocese alemã de Trier (Tréveris), Stephan Ackermann, que tomou a decisão, com o acordo do Vaticano, depois de há dois anos terem surgido várias alegações, que retomavam suspeitas antigas.
“Estamos sintonizados com a decisão, porque nos interessa, como família de Schoenstatt, que o assunto fique clarificado de uma vez por todas”, diz Ana Sanches.
A presidência nacional do movimento de Schoenstatt em Portugal divulgou também uma carta aos directores e coordenadores diocesanos das diversas estruturas do movimento.
- “Acolhemos esta decisão em união de Família e devemos não só conhecê-la, como acolhê-la com confiança.
- A Divina Providência desafia-nos para aproveitar este momento como um impulso criador de mais profundo conhecimento sobre a pessoa, o carisma e a missão do nosso Pai e Fundador”,
diz o documento, a cujo texto o 7MARGENS teve acesso.
Na carta, a presidência nacional do MAS descreve o que aconteceu:
o bispo Ackermann entendeu que,
- “antes de prosseguir com o processo de beatificação, é preciso clarificar definitivamente as acusações levantadas contra o Padre Kentenich em 2020
- que, ainda que já fossem conhecidas e esclarecidas na investigação do processo de beatificação, devido à reserva, não eram de conhecimento geral”.
Numa entrevista dada terça-feira, 3, ao jornalista alemão Felix Neumann, o bispo de Tréveris afirmava:
- “Havendo alegações de abuso, o procedimento deve ser diferente do previsto num processo de beatificação.
- Se surgirem novos dados que respondam satisfatoriamente a todas as questões em aberto, não se exclui a possibilidade de que o processo possa ser retomado.”
A carta da direcção portuguesa, presidida pelo padre Juan Barbudo, recorda ainda que em Março do ano passado foi revelado que
- um cidadão dos EUA fizera, já nos anos 90, uma queixa contra Kentenich.
- Essa acusação tinha sido averiguada pela diocese de Milwaukee,
- mas o bispo Ackermann pediu agora a revisão do processo de acordo “com os critérios actuais em relação às situações de abuso”.
Também é importante que
- as acusações sejam esclarecidas de forma independente em relação ao processo de beatificação,
- que assim fica suspenso “até que as alegações sejam refutadas”,
- dizem ainda os responsáveis nacionais do movimento.
A par disso, as pessoas que trabalham no âmbito do processo de beatificação continuam o seu trabalho.
Novos documentos

Josef Kentenich, fundador do movimento de Schoenstatt: “É preciso ainda pesquisar-se muito mais”, diz o bispo Ackermann. Foto: Direitos reservados.
Na entrevista citada, o bispo Ackermann afirmava ainda que
- o aparecimento de novos documentos nos últimos dois anos mostra que não se esgotou “o que se tem a dizer sobre a vida, a obra e a espiritualidade” de Kentenich.
- “É preciso ainda pesquisar-se muito mais.
- Ao mesmo tempo, porém, não posso continuar o processo de beatificação de uma pessoa contra a qual existem acusações que, no momento, não podem ser refutadas com segurança”, justificava.
“Acolhemos com toda a confiança a decisão do bispo de Tréveris, para termos noção do que aconteceu e aguardando os resultados da comissão independente”,
reforça Ana Sanches, que acrescenta já ter a direcção portuguesa do movimento pedido audiências ao bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, e ao patriarca de Lisboa, Manuel Clemente.
Também a presidência internacional do movimento divulgou uma carta a anunciar a decisão e a afirmar que a beatificação e canonização “não são um fim em si mesmo”.
E acrescenta:
- “Está em questão o Padre Kentenich autêntico, com a sua grandeza e limitações, mas especialmente como estimulante figura profética, que queremos profundamente reconhecer e transmitir.
- Ele era e continua a ser um sinal de contradição”,
diz a carta, assinada pelo padre Juan Pablo Catoggio.
O responsável internacional do MAS considera esta nova situação como
“uma oportunidade e um desafio para que seja conhecida a verdade histórica com seriedade e em liberdade profundamente investigada”.
Tarefa “complexa que custará muito tempo e energia, bem como recursos financeiros”, ela será acolhida pela direcção de Schoenstatt garantindo que a vida e mensagem do fundador “sejam estudadas e divulgadas exaustivamente” – há já “um grupo internacional de investigação” a trabalhar nesse sentido.
O bispo Ackermann afirmava ainda na entrevista que
“a suspensão do processo de beatificação não é um juízo negativo sobre o trabalho de todos aqueles que estão envolvidos nos vários grupos e institutos do Movimento de Schoenstatt”.
Josef Kentenich nasceu em 1885 em Gymnich e morreu em 1968 em Schoenstatt, pequena localidade perto de Coblença, entre Frankfurt e Colónia. A fundação do movimento dedicado ao apostolado e sob a invocação de Maria, dá-se em 1914.
Kentenich esteve preso no campo de concentração de Dachau, durante o período nazi, mas depois da guerra o movimento cresceu.
O movimento cria pequenos santuários marianos nos sítios onde se encontra implantado: no mundo, são actualmente mais de uma centena e em Portugal há quatro na Gafanha da Nazaré (Ílhavo), Soutelo (Braga), Lisboa e Canidelo (Gaia).
O processo de beatificação do padre Kentenich foi aberto em 1975 em Tréveris.

Casa-mãe do movimento de Schoenstatt, na Alemanha. Foto: Direitos reservados.