Lakeland – 13 abril 2022 – Imagem: Reprodução
A antropologia humana e a ética sexual estão sujeitas a mudanças. Mas o conhecimento de que fomos criados à imagem divina para amar e ser amados é eterno.
O comentário é do teólogo estadunidense Paul Lakeland, diretor do Centro de Estudos Católicos da Fairfield University e ex-presidente da Sociedade Teológica Católica dos Estados Unidos. O artigo foi publicado em La Croix International, 13-04-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Eu concordo com muito do que Paul Baumann diz em sua repreensão a Margaret Rankl por ser liberal demais (“From the Church to the Woods”, 23-03-2022 [disponível em inglês aqui]).
Em primeiro lugar e acima de tudo, é a contestação dele à decisão dela de deixar para trás uma comunidade de fé de que ela gostava e um pastor que pregava boas homilias em favor de um passeio na floresta.
Não há nada de errado em comungar com a natureza, mas se perde o ponto católico em questão de que, desde o primeiro momento da criação da humanidade, somos seres-em-relação.
Portanto,
- encontramos Deus como membros de uma comunidade,
- não como indivíduos, seja descontentes ou não.
- Os católicos obtêm a força espiritual que têm a partir da sua comunidade paroquial local, muito mais do que da Igreja global.
Até mesmo João Paulo II achava que a esperança da Igreja estava nas melhores paróquias católicas dos Estados Unidos, embora a Comissão Internacional sobre o Inglês na Liturgia de alguns anos atrás tenha descartado a tradição ao retornar ao Credo do “Eu creio”, abandonando o “nós” muito mais sólido teologicamente.
Bauman também está certo ao dizer que é muito fácil descartar questões difíceis ou sensíveis e também provavelmente conflitivas pelo fato de elas não se enquadrarem em alguma versão do liberalismo condicionada pelo tempo.
Há algo a ser dito sobre a insistência de Johann Baptist Metz de que a genialidade da visão católica sobre as coisas está na sua “produtiva não contemporaneidade”.
Mas não estou tão certo de que Bauman acerta o alvo quando pergunta:
- “Como é que alguém pode entender a antropologia e a ética sexual tradicional do catolicismo,
- se o casamento, há muito tempo solenizado como um ato performado por ‘um homem e uma mulher’ diante de Deus,
- não é mais definido por tais identidades dadas por Deus?”.
Formular a sua questão dessa forma pode parecer eminentemente sensato, até que reconheçamos que é a pergunta errada.
Deixe-me reformulá-la assim:
- “Como é que alguém pode entender a antropologia e a ética sexual tradicional do catolicismo, se o casamento, há muito tempo solenizado como um ato performado por ‘um homem e uma mulher’ diante de Deus,
- não é mais definido pelas distinções biológicas encontradas no relato da criação do Gênesis?”.
Antropologia “imutável”?
Receio que a resposta curta seja que
- não podemos entender, não porque somos liberais,
- mas porque respeitamos o avanço do entendimento científico.
Quando fazemos a pergunta dessa forma, somos forçados a perguntar sobre a valência da “antropologia tradicional”.
- A antropologia é impermeável ou absolvida pelo processo histórico?
- Se não for, as identidades masculina/feminina, como Bauman parece entendê-las aqui,
- deveriam ser descritas com tanta confiança como “dadas por Deus”?
Parece-me um erro supor que a ética sexual possa estar ligada a uma antropologia “imutável”.
A ética sexual depende da antropologia, com certeza, do nosso entendimento do que é ser um ser humano.
- A antropologia filosófica ou teológica não é mais imune à mudança do entendimento histórico
- do que o geocentrismo ou até o heliocentrismo que o substituiu por um tempo.
O que é imutável na visão do Gênesis se encontra na verdade teológica de que
- os seres humanos são dependentes de um Deus criador,
- que escolheu fazê-los à imagem e semelhança divinas.
O restante da história, os detalhes são aquilo que o autor do Gênesis colocou sobre o Criador, extrapolando aquilo que o autor ou autores sabiam que era o caso em seus próprios tempos em relação às origens da vida bilhões de anos antes.
Quando a ciência chega a entender mais plenamente o que é ser humano,
- ela não está refutando a nossa dependência de um Deus criador;
- em vez disso, ela está fazendo avançar o nosso conhecimento do que significa ser feito à imagem e semelhança de Deus.
Entre os fatos históricos salientes do nosso momento atual que parecem exigir um ajuste à antropologia cristã, há dois de grande importância.
Primeiro,
- homens e mulheres que têm atração sexual pelo mesmo sexo estão seguindo as suas inclinações naturais
- e parecem, em todos ou quase todos os aspectos,
- viver e funcionar no nosso mundo moderno exatamente da mesma forma que seus concidadãos heterossexuais.
Um corolário disso é o fato de que a atividade sexual se dissociou da procriação.
O impulso sexual instintivo do mundo animal encontrou agora o caminho rumo à oportunidade de escolhas sexuais responsáveis verdadeiramente humanas.
- A biologia diz que a relação sexual entre homens e mulheres tende à procriação.
- A teologia católica disse por muito tempo que a relação sexual que não está aberta à possibilidade de procriação é objetivamente pecaminosa.
- O senso comum diz que os seres humanos sabem empregar as relações sexuais com responsabilidade, seja a serviço da procriação, seja a serviço da intimidade amorosa e do prazer sexual mútuo.
Em segundo lugar,
- é indiscutível que os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, sejam abençoados por um ritual ou não,
- são marcados pela reciprocidade amorosa tanto quanto os relacionamentos heterossexuais.
Uma das mudanças mais significativas no nosso mundo hoje é que
- há uma abertura ainda relativamente nova sobre a identidade sexual, em consequência da qual todos nós conhecemos homens e mulheres que são gays, lésbicas ou transgêneros,
- e podemos ver que eles não são melhores nem piores do que ninguém,
- e que eles têm sucesso ou fracassam na vida aproximadamente nas mesmas porcentagens.
Em outras palavras, são pessoas normais em todos os aspectos importantes. E nada é mais normal do que o desejo de amar e ser amado.
Quando unimos esses dois pensamentos e insistimos na intenção do Criador de fazer os seres humanos à imagem e semelhança divinas de Deus – uma imagem que não é nem “generificada” nem sexualizada – e na impossibilidade de frustrar essa vontade divina, fica certamente claro que ser feito à imagem divina é ser criado para amar.
Onde quer que haja amor genuíno, Deus aí está.
Quando nos afastamos da antropologia ultrapassada e confiamos nos nossos olhos dados por Deus, não há nenhuma forma racional de negar que o amor genuíno não está confinado aos relacionamentos heterossexuais.
Se a Igreja refletisse sobre esses fatos, tanto biológicos quanto teológicos, poderia encontrar o caminho rumo à celebração de uniões amorosas onde quer que ela tenha a sorte o suficiente de encontrá-las.
