Buenos Aires, set. de 2011 – Encontro latino-americano das lideranças do Movimento das Famílias dos padres casados
Segundo o Anuário Pontifício (2008), na Argentina, há 5648 sacerdotes. Estima-se que ao longo dos últimos 20 anos, 1100 deixaram o ministério. Por que, depois de no mínimo seis anos de formação, eles abandonam? Será que eles deixam somente quando eles se apaixonam ou existem razões que nada têm a ver com o celibato? Como é passar de ‘Padre’ para ‘Papai’?
Uma piada interna entre os católicos garante que ninguém conhece “quanto sabem os jesuítas, quantos são os franciscanos e quanto dinheiro tem o Vaticano.”
Poderíamos acrescentar que também ninguém sabe quantos padres deixaram o ministério.
“Segundo a Igreja a pessoa que foi ordenado sacerdote nunca deixa de o ser, mas pode perder, por várias razões, o estado clerical. Se você quer se casar dentro das regras da igreja, você precisa de uma dispensa do papa.
Aparentemente, desde este ano o processo administrativo pode ser gerido por um outro Órgão do Vaticano: a Congregação para o Clero, “diz o teólogo Ezequiel Silva. O processo leva anos. Se concedido, o ex-padre pode se casar em uma cerimônia na igreja, mas “feito com cautela e sem pompa.” Não pode pregar ou ler as leituras bíblicas na Missa, a menos que autorizado pelo bispo. Também, não pode trabalhar em seminários ou exercer funções de direção no campo da pastoral, ou gerenciar bens paroquiais.
Quando eles saem, vão sem casa, dinheiro, trabalho ou contribuição para a pensão. A inserção deles no mundo do trabalho é difícil, apenas com os estudos teológicos e experiência pastoral. “Um amigo me disse que ele não saiu porque tudo que ele sabia era para ser padre” Ir trabalhar em quê?, pergunta Ruben Dri, que deixou o sacerdócio em 1976.
Ao contrário da crença popular, não todos vão embora quando se apaixonam por uma mulher; antes, eles se desencantam… com a Igreja. Em 1983, Nelson Valenti, de 21 anos, tinha um namoro desde o colégio e alguns valores muito claros sobre a verdade e a liberdade. Mas ele se despediu da sua namorada, deixou seus estudos de arquitetura na UBA, e entrou no seminário de Moron. “Não era o misticismo, mas um profundo desejo de transformar a realidade e um forte sentimento de que todos precisavam de Deus”. Aos 26 anos, um sacerdote, três anos mais tarde, não. “Ex-padres e divorciados têm algo em comum – afirma ele”: Sua ex fica com tua casa e a Igreja fica com teus sonhos e ideais “.
Valenti lembra que, em meio à hiperinflação, enquanto seus companheiros lutavam para encher as cozinhas de sopa, um bispo convidou-o a passear pela Europa. “Não era para fins pastorais – esclarece ele- . Recusei-me e pareceu ‘escandaloso’. Ele nunca entendeu o que significava esse conceito para certos membros do clero. “Eu adoro cantar e costumava fazê-lo com uma freira em festas religiosas populares. Fui proibido, porque “não ficava bem.” Mas passear pela Europa, enquanto as pessoas passavam fome não ficava mal. Olhar para uma mulher era escandaloso; ignorar um pobre, não.”
Cansado de hipocrisias, voltou para casa dos pais. “Os primeiros dias foram difíceis. O mundo te parece pequeno… sem comunidade, sem atividades. Para muitos tu só eras o Pe. Nelson e ao sair, não existes mais, és um traidor. A vida me fez encontrar com algumas pessoas que se confessavam comigo. Será que acreditam que vou contar os pecados deles? – se pergunta ele rindo.
Lembra que precisou de algum tempo para se acalmar e reorganizar. Nos classificados dos jornais, encontrou antes um trabalho de vendedor de publicidade. Com 30 anos experimentou sua iniciação sexual com a “liberdade e tranqüilidade”, e entrou numa fase de descoberta “muito emocionado”. Ele recebeu um diploma de locutor e se licenciou em Ciências Sociais. Se apaixonou por uma mulher divorciada e se casou com ela.
Após 14 anos de casamento se separou. Ele tem um filho, Agostinho, o centro de suas preocupações e alegrias. “Como padre nunca senti que precisava de um filho, era o pai de todos. Mas descobri que um filho próprio é o ápice da paternidade. Apaixona-me falar com ele sobre a justiça, solidariedade e gerar nele, sempre mais, uma liberdade genuína, sem preconceitos, que lhe permita levantar vôo e fazer sua própria história “. Não ficaria triste se no futuro ele quiser se tornar um padre: “Se o fizer bem e pode ser extremamente feliz”, diz ele.
Embora desencantado com a instituição, não perdeu seus ideais nem abandonou sua fé. Seu filho frequenta uma escola religiosa, ele vai à igreja, rezar em sua biblioteca, convive com a Bíblia, com a acumulação de capital de Rosa Luxemburgo. Esclarece que é a favor do celibato opcional, porque “é uma conseqüência do compromisso sacerdotal”.
Ele afirma que está “orgulhoso de ter sido padre. A Igreja que Jesus fundou não é para uma minoria perfeita, eleita ou selecionada. A Igreja é para aqueles que procuram e se enganam, por isso ela é formada por muito mais pessoas do que alguns católicos acreditam “. Ele acredita que “amanhã será melhor.” Para isso se tornou sacerdote e por isso, também, abandonou o ministério.
SOLIDÃO SOBRE RUÍNAS
Quando o padre William Schefer quebrou a perna, não sabia que parte de sua vida também se quebrava.
Forçado a fazer repouso e com escassas visitas da comunidade sacerdotal, ele descobriu que estava sozinho. “Você começa a meter água. Durante o seminário tem o apoio dos colegas e formadores, mas quando você sai você vai encontrar um “te vira como puderes ‘”, diz ele. Recém-ordenado nos anos 92, ele foi designado para uma paróquia no Parque San Martín de Merlo. “Aqui você vê as primeiras diferenças. Aqueles que estão nas igrejas do centro da cidade não passam dificuldades econômicas, mas os da periferia, sim. Não existe uma estrutura solidária de apoio que compense as deficiências”. Ele pediu permissão para estudar Psicologia Social e lhe foi negado. Pouco a pouco, começou a amadurecer a decisão de deixar o sacerdócio e assim o fez.
“Não saí de um dia para outro”, – lembra ele – marquei uma reunião para dizer adeus ao povo “. Um amigo emprestou-lhe uma casa em Marcos Paz, para onde se mudou. “Eu estava trabalhando como capelão na prisão de jovens da região. O Serviço Prisional apreciou meu trabalho e formação e me ofereceu continuar em outra função. “Aceitei imediatamente” – diz ele. Quando contou que ele já não era um padre, um colega lhe disse “agora você deixa de ser Gardel para se tornar um simples cantor.” Reconhece que encontrar um emprego é crucial: “Eu sei de colegas que trabalham em uma cabine de pedágio ou de aves marinhas. O trabalho é um integrador social, e se você não faz algo que você gosta você acaba deprimido”.
Enquanto reorganizava sua vida descobriu que estava apaixonado por Natália, uma catequista que havia trabalhado em sua paróquia. Convencidos de seu amor, se casaram no civil e só então foram viver juntos. “Ninguém que nos conhecia ficou chocado. Eu me sentia um pouco culpada, mas ele nunca mostrou qualquer preocupação com sua decisão. A relação foi fluindo, eu nunca me senti em competição com Deus”, diz Natalia. Guilherme também confirma: “Como não tive uma formação repressiva, a intimidade aconteceu naturalmente, mesmo em uma idade quando os outros já estão de volta.”
Lujan e Guilhermina, sua filha, 7 e 3 anos, brincam no quintal. “Como um sacerdote, no Dia dos Pais me davam os parabéns, e me sentia estranho por ser pai sem ter gerado, mas – confessa ele- eu gostava que mo desejassem. Hoje me alegro com as vozes deles. Com Natalia descobri o amor incondicional e com minhas filhas, uma dimensão nova e cheia de amor. ”
A família Schefer não perdeu a fé. As meninas são batizados, rezam juntos e da imagem de Nossa Senhora de
Luján dá as boas-vindas aos que entram em sua casa. O casal faz parte do Movimento Verdade e Liberdade, um centro que presta apoio aos padres casados e subscreve as palavras de Jerônimo Podestá, o bispo que deixou tudo por amor a uma mulher: “Nós não estamos deixando a Igreja, estamos nos aproximando da comunidade “.
COM ELA E NÃO POR CUASA DELA
Juan Gutierrez nasceu em 1953 em uma luxuosa casa de Recoleta. Quando jovem, participou de grupos conservadores, estudou filosofia na UCA. Convencido de que os sacerdotes eram “uma casta superior”, em 1976 entrou no seminário em Buenos Aires. Lá ele conheceu os documentos da Igreja, que pregava uma opção em aberto pelos pobres e deixou de ser um crítico do movimento de padres da favela para se tornar um deles.
Seu primeiro destino foi a igreja de San Cayetano em Liniers. Ele, então, trabalhou dez anos em diversos bairros da Capital. “Naquele tempo eu não poderia ter tido uma família, porque eram tantas as urgências das pessoas, que não sobrava tempo para mim. Era celibatário à força”, recorda com um sorriso e continua: um cardeal disse-me que o meu trabalho era fácil, porque as pessoas vinham só para a capela. Para ele, isso era evangelizar, não importava a injustiça social “. Juan começou a se sentir profundamente órfão.
Os Padres das periferias eram tolerados, mas não eram acompanhados. Diante de ameaças de traficantes e policiais, a hierarquia, longe de o apoiar, o acusava de “vermelho” e o criticava por “fazer política”. Farto de lutar sozinho, comunicou ao cardeal Jorge Bergoglio, que tinha acabado de assumir, que ele estava saindo. Bergoglio expressou grande admiração por seu trabalho, manteve o salário recebido por seu trabalho no bairro, mas não lhe ofereceu emprego nem tentou convencê-lo a ficar. Numa missa, Gutierrez contou ao povo as razões de sua decisão: foi aplaudido de pé.
Seus pais voltaram a recebê-lo em casa. “É que o celibato não resiste à razão”, comentou seu pai. Um amigo conseguiu um emprego de venda de vinho. Naquela época já estava com uma companheira. “Eu fui com ela, mas não por causa dela”, explica ele, mas o relacionamento não continuou. Em 97 conheceu Rosmie, sua esposa. Com ela foi pai de Maria Guadalupe e de Juan Cruz e, além disso, criou Lucas e Marcos, dois meninos adotados por sua mãe. Seus filhos estudam numa escola católica, mas “muito aberta” e mesmo sem lhes ter inculcado ritos, assegura que têm uma relação natural com a religião.
Continua trabalhando no social, no Ministério do Desenvolvimento, “é a minha vocação perene”, justifica. Conta: ‘quando as crianças nasceram senti um novo nascimento na minha vida, uma razão fundamental para a vida, uma outra fase do plano divino, mas que já estava escrito no livro da vida. Eu encontrei o amor incondicional e a limitação de não saber como dar-lhes o melhor, ou de não ser um bom pai: o desejo de que lhes aconteça nada de mal e de que sejam boas pessoas”.
Ele alega que não se arrepende de vida e do passado. Reza, mantém sua fé e uma atitude pessimista em relação à Igreja “A hipocrisia e a culpabilidade vai sobreviver muitos anos”, prevê. E não deixar de rir quando ele reconhece “sem me menosprezar, era mais atraente quando era padre.”
UN AMOR
Hernán Ingelmo criou-se em Neuquén, onde as visitas do Sr. Jaime de Nevares “uma espécie de tio-avô” a sua casa eram freqüentes. Seu modo de ser, a influência da educação e da família foi fundamental para cortar com a sua namorada, abandonar Bioquímica e entrar no seminário. “Impulsionava-me um grande desejo de busca, de heroísmo, de apostar forte mente na vida”, diz ele. Ordenado aos 25 anos, lhe foi dada a responsabilidade por um setor periférico.
Foi na década de 90, o desemprego estava a fazer estragos,e os padres não hesitavam em reclamar com o povo dos bairros. Em janeiro de 2003, viajou para a Espanha para fazer uma tese e conheceu Alexandra, uma cordobesa que vinha de um Mestrado em Chiapas. A paixão foi imediata. Ele voltou à sua terra e apresentou a situação. “Felizmente eu tive um bispo amigo, amigos de fé e uma comunidade acolhedora. Comecei um processo de discernimento acompanhado por um psicólogo, com o apoio do bispo. Eu escolhi morar com Alexandra. “Recorda e sublinha:” Eu sou um sacerdote para sempre, mas, sendo casado, não posso exercer nesta Igreja. Digamos que me cancelaram a matrícula.
Hernan trabalhou no escritório de advocacia de seu pai e, em seguida, a nível municipal, no Desenvolvimento Social “para continuar a servir o povo”. Sua casa foi construída em terrenos dado a ele por um amigo com a planta que lhe fez dele uma vizinha. “Aqueles que te amam do jeito que tu és e não o que tu tens ou podes dar, esses são os amigos de verdade. Óbvio que os que tinham expectativas de que fosses um padre casto ou um bispo ilustre ficaram decepcionados. “No entanto, admite,” é uma freada brusca deixar de ser uma referência para a comunidade.”
Hernan e Alexandra são pais de Tiago, que em breve terá um irmão e, embora a mãe não seja católica militante, o seu filho é batizado. Hernan acredita que “se se vive bem o celibato é uma instituição muito boa, caso contrário ele te transforma em um ser hostil e misógino”. Como meu pai diz que “às vezes eu ouvia falar que os consagrados “não são pessoas completas “, porque eles não se casam e não têm filhos. Eu não compartilho dessa idéia. Ser pai não me “completa”. Mas me dá uma experiência diferente, nova e sensacional. É mais uma oportunidade para aprender, para desenvolver outras capacidades emocionais, de chamar a Deus: Papai”.
A bem-aventurança evangélica diz: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus”. Os católicos acreditam que a Igreja é mãe. Se assim for, mais uma vez deve-se perguntar por que é que tantos filhos preferem deixá-la…
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CHUTANDO A MESA
Quando, em 1990, Wenceslao Maldonado decidiu deixar o sacerdócio, a notícia caiu como uma bomba entre seus colegas da congregação salesiana. “Wences”, como era chamado, tinha uma carreira eclesiástica brilhante. Em 1982, com apenas 42 anos, ele foi nomeado provincial de Buenos Aires, Santa Cruz e Tierra del Fuego, com 200 religiosas sob seu comando. Ele também foi eleito presidente da CAR (Conferência dos Religiosos Argentina) e enfrentou o cardeal Raúl Primatesta por causa de uns subsídios concedidos pelo governo militar para a formação dos seminaristas. De acordo com Maldonado, “isso parecia ser o pagamento pelo silêncio dos bispos”.
No meio de uma atividade constante, Wenceslao começou a notar um grande isolamento emocional: “Eu rezava, comia, cumpria uma agenda pesada, mas não tinha colegas com quem conversar. Eu precisava escrever, cultivar a minha paixão pela literatura, mas não havia tempo. Sua função de Provincial terminou em 1987, perguntou a ele mesmo quem ele era e a resposta foi “Não sou padre”. “Eu escrevi uma carta com as razões pelas quais eu estava saindo: não aceitava o poder absoluto da Igreja, não cria em Jesus como o Messias, eu me sentia só e, finalmente, meus ideais artísticos foram negligenciados e negados por um dispositivo que nos transformava em vítimas de uma estrutura alheia.
Um superior lhe ofereceu a possibilidade de lhe procurar lugar em uma clínica de “restauração vocacional” profissional, mas a decisão era definitiva. Não foi fácil. “Passei baixo. Saí sem um tostão, sem casa e sem trabalho. Os primeiros dias só comi alguns biscoitos com mel”, recorda ele. Com 49 anos e um título de Licenciado em Letras, não conseguia trabalho. Nas escolas católicas não aceitavam, para estatais ele não tinha pontuação suficiente. Conseguiu umas horas de aulas de Latim até que um ex-aluno lhe ofereceu um emprego como pedagogo clínico na Sicília e ele lá foi.
Mas no quebra-cabeça de sua vida, ainda estava faltando uma peça. Na Itália, ele conheceu uma mulher, mas o relacionamento não prosperou e se perguntou por quê. Pouco a pouco deixou de lado a educação recebida, os preconceitos religiosos e morais e se definiu: “Eu sou homossexual”.
Hoje não está com um parceiro. “Eu sou um solitário inveterado”, diz ele. Vive austeramente, publica livros de poesia, “que todos aplaudem, mas que poucos compram”. Garante que não se arrepende de nada que fez, mas às vezes perde o contato com pessoas que permite o sacerdócio certa poesia dos rituais. Diz que ser coerente, não é fácil, mas que é a única maneira de não se tornar neurótico ou amargo. Maldonado diz que é coerente com as suas escolhas e também com as suas correções. Não é pouco.
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UM HOMEM SÁBIO
Se muitos ex-padres sabem alguma coisa, é que em tempos passados, era muito… pior. Faz algumas décadas, se um sacerdote deixava o ministério era um escândalo que se devia esconder, inclusive se eram só seminaristas. Ruben Dri completou 80 anos de idade e há 33 que não celebra missa. “No meu tempo ninguém te informava, quando um colega abandonava, descobrimos por boatos. Muito menos se nos permitia manter a amizade. A família só a podíamos visitar a cada dois anos”, lembra ele.
Com apenas 12 anos Dri decidiu que queria ser padre. “Minha mãe era muito religiosa. Além disso, eu queria estudar e na cidade onde eu vivia – Colónia Biscocho, em Entre Rios – era impossível,” diz ele. Durante seus estudos ele descobriu que gostava de ensino e de falar de política. O primeiro era bem visto, a segunda, proibida. Já como padre, se instalou em Resistência, onde fundou o Colégio Superior Universitário que, com o tempo, se tornou um centro cultural e político, e ele em um dos líderes do Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo.
Em 1971, ele foi seqüestrado e encarcerado. Mas os tempos que vinham seriam ainda mais escuros. Ficou dois anos como clandestino, e mesmo se recusando a sair, porém, teve que se exilar em 1976. No México, conseguiu um emprego de docente em uma escola católica “Quando eu lhes disse que era “ex-padre e marxista, lhe responderam: “é bom para nós que haja uma outra linha de pensamento”. Eu sempre tive o brio de não viver o sacerdócio e de ter um emprego. Por isso estudei Filosofia e Ciências da Educação.
“O ensino era vital” conta e observa: “muitos padres não deixam, porque eles não sabem fazer outra coisa e precisam de uma estrutura de apoio. Às vezes é mais fácil encontrar uma companheira do que que trabalho”. No exílio, começou a fazer terapia e se apaixonou por uma mulher com quem viveu 11 anos e da qual se separou. Eles não tiveram filhos e há vários anos vive com outro parceiro. O sacerdócio, ele o deixou quando “Percebi que meu projeto cristão confrontava com a Igreja. O Evangelho exige estar com o povo e os pobres, e a hierarquia da Igreja está no lugar oposto”.
Conta que nunca pediu dispensa, porque ele decide a sua vida, não Roma e diz que ele não tem saudades da vida pastoral, mas sim dos anos 60 e 70, “quando havia projetos e acreditava-se que o país poderia mudar”. Hoje, sua agenda está cheia de cursos universitários e seminários. Dri se expressa com a clareza dos grandes mestres e a serenidade dos grandes homens. Não é catedrático, ensina a vida.
COLUNA DE OPINIÃO (é o texto fiel)
Monsenhor Marcelo Melani, Bispo de Neuquén
Nesses sete anos de minha estada em Neuquén, tive a dor de ouvir de quatro padres que não se sentiam de prosseguir na sua vocação ou no celibato. Logicamente, como penso que acontece com todos os bispos, a relação que se estabelece após esta decisão reflete o que antes existia entre o bispo e o padre.
Com alguns deles tenho um bom relacionamento com os outros não foi possível e, certamente, parte da culpa foi minha por não ter conseguido ser um bom pai para eles e por não ter acompanhado mais de perto mesmo se a outra parte não manifestava abertamente interesse.
Os relacionamentos humanos nunca são fáceis, especialmente quando uma parte tem uma autoridade a exercer e a outra se pode sentir esquecida ou menosprezada. Acho que a dificuldade é maior porque na nossa sociedade atual, a figura do pai está a perder muito de seu valor e que os jovens querem encontrar amigos em vez de pais. Assim também na Igreja, dá essa contraposição: de um bispo que quer ser “pai” (porque assim o pede seu ministério) e de jovens sacerdotes que buscam mais um “amigo”. As mudanças que ocorrem foram e são muito rápidas e precisam de algum tempo para serem conhecidas e compreendidas.
Certamente é norma da Igreja tratar a todos como irmãos e procurar ajudar a todos aqueles que pensam que não podem continuar com seus compromissos assumidos. Tenho certeza que o Senhor nos concederá poder ter um coração de pai que saiba viver este momento e acompanhar os processos que ocorrem na vida dos sacerdotes que Ele, através da Igreja confia a nós.
Susana Ceballos – Quinta-feira, 20 de agosto de 2009.
Fonte: padrescasadosceara.blogspot.com/