1. No Evangelho, Jesus faz apelo ao essencial: “De que vale ao Homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma”, a sua vida, o essencial? Por isso, o amor a Deus e a avareza são inconciliáveis. Não se pode servir a Deus e à riqueza.
- Jesus não é gnóstico (portanto, não é contra a matéria e os bens deste mundo), Jesus não é a favor da preguiça (pelo contrário, manda utilizar os talentos recebidos).
- Jesus não combateu os ricos pelo facto de eles porem os talentos a render e criarem riqueza, recebendo o justo lucro.
- Aquilo a que Jesus se opôs de modo frontal e duro foi à avareza.
E fê-lo, por dois motivos fundamentais.
O primeiro refere-se à fraternidade e à generosidade.
- O rico, que o é de coração (neste sentido, até o pobre de bens materiais pode ser rico), o rico, que o é no seu íntimo, não é generoso nem fraterno.
- Por isso, banqueteia-se, enquanto ao lado o pobre geme e morre: lembremo-nos da terrível história contada por Jesus sobre o rico que se banqueteia enquanto o pobre Lázaro jaz para ali abandonado.
Com a pandemia, segundo o último relatório da Oxfam,
- os 10 mais ricos do mundo duplicaram a sua fortuna e as desigualdades contribuem para a morte de pelo menos uma pessoa a cada 4 segundos…
- Face a esta situação explosiva, impõe-se tomar consciência de que é urgente acabar com este fosso entre ricos e pobres.
- Se o não fizermos por humanidade, façamo-lo ao menos por egoísmo esclarecido.
De facto, este abismo intolerável pode incendiar o mundo, a ponto de o nosso bem-estar poder vir a transformar-se num inferno…
O outro motivo para Jesus açoitar o espírito de avareza, insaciável, diz respeito à diferença entre coisa e pessoa.
A dignidade de ser Homem tem a sua raiz no facto de o ser humano ser pessoa. Como escreveu Tomás de Aquino,
“a pessoa é o que é perfeitíssimo em toda a natureza”,
e o que caracteriza e constitui a pessoa no seu núcleo é a liberdade.
Ora, o avaro vive de tal modo agarrado às coisas que, a um dado momento,
- já não conhece a distinção essencial entre coisa e pessoa.
- De tal modo é escravo das coisas, do ter, que corrompe e deixa-se corromper; se for preciso, mata, corrompe, compra gente, escraviza, faz a guerra…
- Já não é livre, pois a liberdade e a pobreza de coração são irmãs gémeas.
Ao corromper e deixar-se corromper, estando até disposto a vender e a comprar pessoas ou a matá-las, pela exploração ou pela guerra, degrada-se, isto é, abandona a dignidade infinita de ser pessoa para tornar-se coisa entre as coisas.
No seu aviso, Jesus é frontal:
- “Ninguém pode servir a dois senhores. Vós não podeis servir a Deus e a Dinheiro”– deve-se escrever com maiúscula, pois Jesus referia-se a Mamôn, uma deusa.
- Não se pode servir a Deus, Pai/Mãe que quer a dignidade e a realização de todos, e a Mamôn.
2. Neste contexto, chamo a atenção para duas belas histórias, que vêm do islão, precisamente sobre este tema.
O amor e o respeito por Jesus são uma presença constante na literatura muçulmana.

Tarif Khalidi, director do Centro de Estudos Islâmicos e membro do conselho directivo do King’s College (Cambridge), reuniu em livro — Jesus Muçulmano — as chamadas “máximas e histórias de Jesus”, onde se encontram várias alusões aos Evangelhos.
Uma delas diz assim, em síntese:
Um homem juntou-se a Jesus, dizendo:
“Quero ser teu companheiro.”
Seguiram viagem e, quando chegaram à margem de um rio, sentaram-se para comer. Levavam três pães. Comeram dois e sobrou um. Jesus foi ao rio beber água. Como, no regresso, não encontrou o terceiro pão, perguntou ao homem:
“Quem tirou o pão?”
Ele respondeu:
“Não sei.”
Continuaram viagem, e, no caminho, Jesus realizou dois milagres. Voltou-se das duas vezes para o companheiro, dizendo:
“Em nome d’Aquele que te mostrou este milagre, pergunto-te: quem tirou o pão?”
“Não sei”,
tornou a responder o homem.
Chegaram depois ao deserto e sentaram-se no chão. Jesus fez um montinho de terra e areia e disse-lhe:
“Com a permissão de Deus, transforma-te em ouro”,
e assim aconteceu. Então, Jesus dividiu o ouro em três partes e disse:
“Um terço para ti, um terço para mim e um terço para quem tirou o pão”.
Aí, o companheiro disse:
“Fui eu que tirei o pão!”
Jesus disse:
“O ouro é todo teu.”
Por sua vez, os que tinham ficado disseram:
“Porque havemos de dar-lhe um terço do ouro? Em vez disso vamos é matá-lo quando regressar e dividimos o ouro entre os dois.”
Quando o terceiro voltou, mataram-no. Depois, comeram a comida e também morreram. O ouro ficou no deserto com os três homens mortos ao lado.
Aconteceu que Jesus passou por ali e ao ver aquela miséria disse aos discípulos:
“Assim é o mundo. Tende cuidado.”
De outra vez, Jesus passou por uma caveira apodrecida. Ordenou-lhe que falasse. E ela disse:
“Espírito de Deus, o meu nome é Balwan ibn Hafs, rei do Iémen. Vivi mil anos, gerei mil filhos, desflorei mil virgens, destrocei mil exércitos, matei mil tiranos e conquistei mil cidades. Que quem ouve a minha história não se deixe tentar pelo mundo, pois tudo isso foi como o sonho de um homem adormecido.”
Jesus chorou.
Padre e professor de Filosofia.Escreve de acordo com a antiga ortografia
Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/historias-muculmanas-sobre-jesus-e-o-essencial-14558344.html
