Ambiente – “Boiada” tóxica
Cida de Oliveira, publicada por RBA, 30-01-2022. – Foto: Reprodução
O governo de Jair Bolsonaro deu um forte impulso à liberação de agrotóxicos dos mais perigosos em 2021, segundo parecer da professora Sonia Corina Hess, titular de Química da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Campus de Curitibanos.
O estudo foi encomendado pelo Ministério Público Federal, Ministérios Públicos Estaduais, órgãos do Poder Judiciário federal e dos estados, além do Fórum Nacional e fóruns estaduais de combate aos impactos dos agrotóxicos e transgênicos, entre outras instituições.
A reportagem é de Cida de Oliveira, publicada por RBA, 30-01-2022.
Os dados levantados pela professora apontam para uma escalada na aprovação de produtos altamente perigosos no ano passado. O pacote
- inclui itens banidos na União Europeia (UE) há mais de 20 anos
- ou que jamais conseguiram ser liberados justamente por causar sérios danos à saúde humana.
“A proibição desses produtos na UE está associada aos efeitos adversos a humanos e a outros organismos resultantes da exposição aos ingredientes químicos de agrotóxicos”,
destaca em seu parecer.

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É o caso da atrazina, usada para matar as chamadas ervas invasoras.
Foi princípio ativo de 25 dos mais de 500 produtos liberados no ano passado, enquanto o país assistia ao aumento de mortes causadas pela covid-19 e ao retorno do Brasil ao vergonhoso mapa de fome, de onde havia saído em 2014.
- Em 2019, o composto estava em 12 dos “novos e menos tóxicos” agroquímicos liberados para uso no país. No ano seguinte, em outros nove.
- Não é à toa que a atrazina tenha sido banida na União Europeia em 2004.
- O princípio ativo está associado a diversos tipos de câncer – estômago, próstata, ovários, tireoide –, ao desenvolvimento da Doença de Parkinson e do Mal de Alzheimer. Também à infertilidade e malformação congênita.

Outro exemplo é o fipronil. Desenvolvido para matar insetos, formigas e cupins, é o terror das colmeias, segundo diversos estudos.
- O produto é associado a alterações bioquímicas no sangue
- e é tóxico ao fígado e ao sistema nervoso central.
- Mesmo assim, é princípio ativo de 21 produtos liberados para o agronegócio no ano passado.
- Em 2019 foram nove e em 2020, 15.
Sua salada altamente tóxica
- De 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2021 foram aprovados 552 agrotóxicos para uso no Brasil, dos quais 96 eram produtos contendo ingredientes ativos biológicos.
- Outros 181 eram produtos técnicos com ingredientes ativos químicos que entram na produção de outros agrotóxicos.
- Finalmente, 275 eram produtos com ingredientes ativos químicos formulados (49,8%).

Tereza Cristina: ministra da Agricultura ligadisima ao agronegócio. Chamada pelos europeus: Miss Desmatamento e Musa do Veneno. O rato tomando conta do queijo. – Foto: DAQUI
Conforme o parecer, o maior número de “novos agrotóxicos”, como prefere a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e seus apoiadores ruralistas, são destinados às culturas de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. Conforme a pesquisadora Larissa Bombardi, citada no parecer, 52% dos agrotóxicos utilizados no Brasil são aplicados nos latifúndios de soja;
- 10% nos de milho;
- 10% em cana-de-açúcar;
- e 7%, no algodão.
Ou seja, mais de 80% daqueles produtos agrícolas
- não são destinados a produtos para alimentação humana,
- mas sim à alimentação animal.
- Ou ainda, à produção de commodities que, juntamente com café, maçã e citros, constituem a base do agronegócio brasileiro.

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No entanto, a professora Sonia Hess alerta para o fato de que
- muitos desses agrotóxicos registrados no Brasil em 2021
- têm usos autorizados também para muitas culturas agrícolas até de hortaliças e frutas.
- E isso apesar dos comprovados efeitos tóxicos dos ingredientes ativos presentes.
Um exemplo é o inseticida, formicida e acaridicida de nome bifentrina, princípio ativo de 15 agrotóxicos liberados em 2021. Segundo pesquisas recentes ele é tóxico ao sistema nervoso central, está ligado ao desenvolvimento de obesidade e à desregulação endócrina.
Mesmo assim,
- está livre para ser aplicado em alimentos como
- acelga, agrião, alface, almeirão, brócolis, centeio, cevada, chicória, couve, couve-chinesa, couve-flor, couve-de-bruxelas, espinafre, repolho, rúcula, tomate
- e muitas outras hortaliças recomendadas para mais saúde e perda de peso.
Cida de Oliveira
