
1. Há perguntas ingénuas que parece quase tocarem o ridículo. No entanto, são das mais interessantes.
Exemplos:
- onde começa um ser humano? Começar, não apenas no sentido cronológico, mas quase diria topográfico…
- Em que instante começou um ser humano?
Aliás, a pergunta do início é similar à do fim:
Que instante é esse em que um ser humano deixa, pela morte, de pertencer a este mundo e ao tempo?
No tal sentido quase topográfico, a pergunta poderia ser:
- o que é que um ser humano vê, quando olha, não os olhos, mas o olhar de alguém?
- Hegel disse que vê o abismo do mundo.
Se estivermos atentos, é isso: quando dois olhares se olham, no olhar contemplam o abismo do mundo e o seu mistério.
A pergunta pode explicitar-se, perguntando:
- o que é que está por detrás e no íntimo e no fundo do que se vê?
- O que é o invisível do visível?
Ou então:
- o que é que o visível torna visível?
- Melhor: o que é que o visível, precisamente ao mostrar, esconde?
- O que é que está na raiz do que vem à luz, do que se manifesta?
Onde é que radica qualquer pergunta digna desse nome
- senão aí onde habita o imostrável, mas precisamente para mostrá-lo enquanto imostrável?
- O que é que um rosto mostra senão alguém que está a vir à janela de si próprio, ocultando-se?
Afinal, o que vem à luz acende-se na noite…
- E as nossas palavras, onde é que se acendem também senão precisamente na noite do Silêncio?
- Mas há o silêncio morto e vazio, e o Silêncio habitado, que fala.
E ouvir o Silêncio que fala não é o que propriamente se deveria chamar oração?
Quando não se ouve o Silêncio que fala, as nossas tempestades de palavras não passam de verborreia e barulho caótico, ensurdecedor. De facto, quem não bebe na Fonte do Silêncio que fala, o que é que diz, quando fala? Não quero apontar para os Parlamentos…
Não será precisamente porque já não há tempo para ouvir o Silêncio
- que os pais pouco ou nada têm a dizer aos filhos,
- que a palavra dos professores anda gasta e murcha,
- que os padres proferem palavras engasgadas e mortas,
- que a vida pública se vai tornando pura poluição sonora?
2. De repente, tropecei num título antigo da TSF: Como se visse o invisível (Heb, 11, 27 – NdR). É isso: o ser humano anda distraído, mas pode acontecer que subitamente se dê conta.
Aliás,
- o Homem é Homem, diferente do animal, precisamente porque não vive estando aí pura e simplesmente,
- mas se dá conta de que vive, reflecte sobre as coisas, sobre a existência, sobre si próprio.
Como se visse o invisível…
Afinal, como é?
- Trata-se de um simples “como se” ou vê-se mesmo o invisível?
- E se se vê, que invisível é esse?
- E como é que se vê o que é invisível? E esse ver é privilégio de alguns ou todos podem vê-lo?
- Ou acontece até que todos o vêem, simplesmente não se dão conta disso?
Quem ouvia Como se visse o invisível não esperava ouvir dizer que alguém viu Nossa Senhora ou bruxas ou o diabo ou um anjo aí numa esquina qualquer, numa igreja, numa esplanada, no cimo de um monte…
Mas então quem falava em Como se visse o invisível o que é que viu de especial para ousar falar do invisível, como se o tivesse realmente visto? Afinal, o que é que ele ou ela viu ou vê?
Quando não andamos completamente distraídos, sabemos que
- vemos sempre mais do que aquilo que julgamos ver,
- ouvimos sempre mais do que pensamos ouvir,
- pensamos sempre mais do que pensamos.
Toda a experiência é sempre experiência com experiências. Seja qual for a experiência, sabemos dela, de nós e das condições de possibilidade do experienciar. Quando vemos algo, não vemos apenas esse algo que estamos a ver, pois vemo-nos também a nós que estamos a ver, embora não tenhamos imediatamente consciência disso.
Por outro lado,
- por mais que vejamos de nós, nunca nos vemos completamente:
- somos sempre mais do que vemos de nós ou sabemos de nós.
Nunca conseguimos ir até ao fundo de nós, tornar-nos completamente transparentes a nós próprios.
- Quando demos por nós já lá estávamos,
- e a existência nunca pode ser reflectida adequadamente nem tornar-se plenamente consciente de si própria.
- Assim, quando nos vemos é sempre com o invisível que contactamos.
Antes da execução, aos condenados à morte vendam-lhes os olhos, porque o olhar da vítima é intolerável. Afinal, quando vemos alguém no olhar o que é que vemos senão o invisível na sua visibilidade, mas precisamente de tal modo que permanece invisível?
- Uma pessoa no seu corpo, melhor, um corpo pessoal não é simplesmente uma estrutura fisiológica visível:
- ninguém faz amor com uma estrutura orgânica visível,
- mas ama-se uma pessoa na sua invisibilidade palpável e visível.
Um corpo humano é uma “alma” visível e vista, cheirada, palpável…
Quando olhamos para o mundo com olhos de ver é sempre com o invisível visível que entramos em contacto.
A realidade toda é a visita do Invisível. Na raiz de tudo está um mistério que se diz, que vem à luz, mas que ao mesmo tempo continua velado e sem se ver: vê-se precisamente como invisível.
Como se visse o invisível: apontamentos para chamar a atenção
- para o mistério do ser,
- para a dignidade de ser pessoa,
- para a justiça,
- para a religação última à Fonte invisível de tudo o que se vê…
Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia
