Vaticano e religiosas americanas em encruzilhada crítica

“Uma Igreja que não sai, mais cedo ou mais tarde adoece na atmosfera viciada de seu confinamento”, escreveu o Papa Francisco em uma carta publicada na quinta-feira aos bispos argentinos. Essa é uma mensagem semelhante àquela enviada pelo Papa aos cardinais antes do conclave, impressionando-os de tal maneira que elegeram-no bispo de Roma.

O editorial é do jornal National Catholic Reporter, 19-04-2013. A tradução é de Ana Carolina Azevedo.

Em sua nova nota, o Papa explicou que, no processo de “sair”, a Igreja sempre corre o risco de “acidentar-se” pelo caminho, e adiciona: “quero lhes dizer francamente que prefiro mil vezes uma Igreja acidentada a uma Igreja enferma”.

Uma Igreja acidentada… uma Igreja que esteja pronta para arriscar-se… uma Igreja dedicada a servir os mais necessitados… uma Igreja que trabalha em prol da misericórdia, paz e justiça…

Essas palavras lembram muito a Igreja que as irmãs católicas norte-americanas construíram nas últimas décadas. Não apenas as religiosas norte-americanas, mas as religiosas de todo o mundo estiveram trabalhando nisso. São as mulheres aquelas que viveram mais próximas dos marginalizados; são as mulheres aquelas que trabalharam nas periferias; são as mulheres aquelas que fizeram, precisamente, o que Francisco encoraja que outros façam.

E o que as religiosas receberam em troca?

Foram aplaudidas pelas outras pessoas?

Foram aclamadas pela liderança de sua Igreja?

Não. Exceto os elogios eventuais feitos ao oposto, essas mulheres de fé foram, mais do que frequentemente, humilhadas e desrespeitadas com acusações de suposta infidelidade. O elemento mais irônico dessa história triste é que as acusações surgiram da classe dos mesmos homens que infringiram grandes danos à Igreja por seu comportamento recorrente relacionados à omissão de abusos sexuais.

Os cristãos acostumaram-se com a expectativa de serem perseguidos. Defender os pobres, os marginalizados, os gays e as lésbicas, os sem seguro e as jovens grávidas não é algo comum para um cristão. Mas as religiosas têm trabalhado sem parar para ajudar e representar essas pessoas que não podem falar por si.

Ao passo que a perseguição vem com o território daqueles que vivem e trabalham na Igreja “acidentada”, não esperamos que ataques como esse venha de nosso próprio clero. No entanto, eles vêm, e com mais frequência do que o esperado.

Alguns bispos revelaram uma ignorância incrível, escondendo-se por trás de acusações altamente exageradas de infidelidade. Nesse processo, abusaram de sua autoridade. Foi o caminho mais fácil.
Católicos versados compreendem que a tomada da LCWR (“Conferência de Liderança das Religiosas”) pela Congregação para a Doutrina da Fé, resultado de uma prolongada “avaliação doutrinal”, está muito menos relacionado com pontos de vista internos do que com obediência aos bispos.

Entre as pessoas que melhor entendem disso, estão nossas mulheres religiosas. Todos já vimos vários de nossos prelados sentirem-se desconfortáveis na presença de mulheres. O resultado é tomarem distância delas, o que, com o tempo, causa mais medo e quase assegura os mal-entendidos. Apenas discussões contínuas e abertas — em pé de igualdade — podem abrir um novo caminho que possibilite a saúde da Igreja.

Precisamos de conversas em que homens e mulheres católicos — religiosos, clérigos e leigos — possam falar livremente, em um espírito de apoio mútuo, sobre sua fé e sua vida na Igreja.
Esta seria uma experiência curativa que deve acontecer nas dioceses de todo o país. Este precisa ser um passo a ser dado.

Nossas mulheres são as mais entendidas sobre Teologia na história da Igreja. As diferenças entre o seu pensamento e o dos bispos têm menos relação com a fé e a doutrina do que com a estrutura da Igreja e as aplicações dos ensinamentos e a missão da Igreja. Há muito em comum entre ambos.

O primeiro passo, no entanto, é reconhecer que as mulheres trazem conhecimentos necessários para restaurar a saúde da Igreja “adoecida” de que Francisco fala. Sem a participação das mulheres como iguais nas discussões, há pouca esperança de retomar essa saúde.

Além disso, o problema entre o Vaticano e a LCWR é, na verdade, se o sistema de tomada de decisões por parte do clero, atualmente masculino, é capaz de manter a vida da Igreja no século XXI. Números extensos de opiniões contrárias sugerem que não.

O caminho atual do Vaticano, que exclui as religiosas de qualquer pretensão de auto-determinação, aparentemente num espírito de cooperação episcopal mútua, ameaça a vida longa da Igreja. Além disso, é uma agressão a todas as mulheres e, portanto, uma agressão a todos os católicos.

Essa rixa muito visível entre o Vaticano e as irmãs católicas implora pela pergunta: poderia a nossa Igreja sustentar as mulheres educadas em Teologia em seus títulos? Ou, para falar de maneira mais abrangente, poderia a nossa Igreja atrair mulheres dedicadas de qualquer estirpe? Estamos perdendo essas mulheres mais rapidamente do que se pode imaginar. Pergunte a qualquer pai ou mãe que tenha uma filha adulta.

A avaliação doutrinal feita sobre a LCWR pela congregação do Vaticano, aparentemente sustentada por Francisco, é, portanto, um choque para todos que querem restaurar a comunidade e a saúde da Igreja.

Se o Vaticano insiste em levar em frente seu domínio sobre a LCWR, o grupo não terá opção alguma senão terminar sua relação canônica com a Igreja institucional. Isso acontece porque, em agosto de 2012, o corpo de integrantes da LCWR votou quase que unanimemente para manter o diálogo com os bispos enquanto este não comprometer a integridade da LCWR.

O que está em conflito, numa análise final, não é a obediência, e sim a dignidade de cada pessoa e os direitos de cada pessoa perante a Igreja, desde o seu batismo, seja essa pessoa do sexo masculino ou feminino.

Estamos nos aproximando perigosamente de um ponto de ruptura. Alguns, é claro, aproveitarão esse rompimento. No entanto, sua satisfação será curta, pois esse rompimento nos enviará o sinal, que ecoará através da história, de que o grupo de religiosas norte-americanas mais importante concluiu que, para manter-se fiel à consciência e fidel aos valores dos evangelhos, uma separação foi necessária. Será um choque imenso para todos os católicos.

A LCWR, canonicamente ou não, em realidade ou em espírito, continuará servindo os seres humanos mais necessitados de nossas comunidades através de suas mulheres religiosas.

Nossas religiosas continuarão católicas, mesmo com os esforços de alguns para difamá-las. De fato, elas concluirão que a dedicação da Igreja à missão requisitou essa separação.

Objeções e respostas se sucederão, mas uma análise honesta demonstrará que as mulheres agiram apenas pela procura profunda da alma em um espírito de comunidade, dedicação e amor.

Essa análise também demonstrará que a última gota não foi doutrinal. Ao invés disso, teve relação, enfim, com a fieldade aos próprios ideais do evangelho, que Francisco prega todos os dias.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/519527-vaticano-e-as-religiosas-americanas-se-aproximam-de-encruzilhada-critica

 

Estados Unidos. As religiosas “rebeldes” e o Vaticano

A “lua de mel” entre os católicos “progressistas” estadunidenses com o papa Francisco poderá acabar em pouco tempo; é o que comentou “USA Today” (e alguns outros meios de comunicação), depois que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, dom Gerhard Müller, teria confirmado a vontade do papa Francisco de prosseguir na reforma das religiosas do país.

A reportagem é de Marco Tosatti, publicada no sítio Vatican Insider, 17-04-2013. A tradução é do Cepat.

Trata-se do primeiro ato de governo “substancial” sobre um problema pendente, e é significativo que o papa Bergoglio continue e confirme tudo o que a gestão anterior havia disposto. Enquanto isso, começam a surgir as vozes de religiosas influentes e algumas críticas à decisão vaticana.

Os fatos

Na segunda-feira desta semana, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu um comunicado. O prefeito Müller havia se reunido com a cúpula da “Leadership Conference of Women Religious” (LCWR), organização que reúne cerca de 70% das freiras estadunidenses. Müller elogiou o trabalho que as religiosas têm desempenhado, mas, ao mesmo tempo, assinalou que o papa Francisco reafirmou a necessidade de uma reforma do grupo, aprovando a “avaliação” crítica que foi redigida após uma visita apostólica (uma espécie de inspeção, em termos leigos) à LCWR. Além disso, Müller destacou que as freiras deverão cooperar tanto com cada um dos bispos, como com toda a Conferência Episcopal do país.

As maiores críticas surgiram justamente entre os bispos estadunidenses. Há alguns meses, a Santa Sé nomeou o bispo de Seattle, James Sartain, para que conduzisse a reforma da LCWR, após ter constatado que “a situação atual, pastoral e doutrinal, da LCWR é grave e matéria de séria preocupação”. A decisão vaticana (que, como é oportuno repetir, está fortemente enraizada na Igreja local) foi recebida com sofrimento pela LCWR. O encontro de Müller com as representantes das freiras “progressistas” tinha como objetivo a expressão das razões deste sofrimento.

Se as religiosas confiavam que Francisco tinha mudado o que Bento XVI havia disposto, o comunicado da Doutrina da Fé deve ter sido uma enorme desilusão. E justamente sobre isso, a irmã Maureen Fiedler, da Congregação das Irmãs de Loreto, sustentou que o Papa não está bem informado. Irmã Maureen dirige a “Interfaith voices”, um programa radiofônico transmitido em 62 estações de rádio e, como diz sua biografia, “durante mais de 30 anos foi uma participante ativa em coalizões que trabalham pela justiça social, igualdade de gênero, de raça e pela paz”.

“Sou muito descrente a respeito desta informação”, escreveu irmã Maureen aludindo à nota do prefeito Müller. “Duvido que este assunto esteja entre os primeiros na agenda papal, e que soubesse muito a esse respeito, quando era arcebispo na Argentina”. A religiosa apela diretamente à boa fé do Prefeito: “pode ser um caso dos “bons meninos de sempre” da Cúria, que querem que tudo permaneça como antes, e que procuram fazer com que o novo Papa leve adiante um assunto que conhece pouco”. Na realidade, Müller chegou recentemente à Cúria, em julho de 2012… Porém, a menção de irmã  Maureen deixa entender que o grupo dirigente da LCWR pedirá uma audiência particular com o papa Francisco, “para explicar-lhe toda a história”.

Parece difícil que o papa Francisco dê “um cheque em branco”. É mais plausível, coerente com sua pessoa e com sua biografia, que ao se inteirar do problema (sobre o qual se falou muito nos últimos anos e não apenas nos Estados Unidos), tenha confirmado o trabalho que os bispos locais e os de Roma realizaram.

 

PARA LER MAIS:

  • 17/04/2013 – Reunião da Congregação para a Doutrina da Fé com a Conferência de Lideranças Religiosas dos Estados Unidos
  • 30/01/2013 – Sisters, um documentário sobre as religiosas investigadas pelo Vaticano
  • 02/12/2012 – Encontro de religiosas da LCWR e representantes do Vaticano foi ”aberto e cordial”
  • 18/09/2012 – As religiosas são as pessoas mais admiradas na Igreja dos Estados Unidos
  • 18/08/2012 – As religiosas estadunidenses confiam num diálogo “respeitoso” com Roma
  • 15/08/2012 – Arcebispo Peter Sartain de Seattle elogia Conferência das Mulheres Religiosas
  • 13/08/2012 – Religiosas dos EUA irão continuar o diálogo, mas não vão comprometer a missão
  • 11/08/2012 – ”Não tenham medo do mandato do Vaticano”, afirma presidente das religiosas dos EUA
  • 10/08/2012 – Conferência das religiosas dos EUA: ”sementeira” para o século XXI
  • 09/08/2012 – Ex-presidentes de conferência de religiosas dos EUA refletem sobre seu futuro
  • 07/08/2012 – Assembleia das religiosas da LCWR: uma reflexão sobre o futuro
  • 30/07/2012 – Religiosas refletem sobre como responder à severa repreensão vaticana
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    Respostas de 5

    1. É chocante a atitude do Vaticano enchendo os pulmões para apregoar que a Igreja Católica tem escolas, creches, hospitais, que é a instituição que mais ajuda a humanidade, quando na realidade essas obras foram executadas por religiosas, com muito profissionalismo e dedicação. No entanto agora estão sendo humilhadas e tratadas como adolescentes, quando na realidade são mulheres sexagenárias, teólogas, médicas, professoras, etc. É realmente inexplicável e ao mesmo tempo doloroso ver o pagamento que as religiosas estão recebendo da própria Igreja depois de dedicarem suas vidas trabalhando em nome dela!!!

    2. Manuela,
      gostaria saber quem é você. Gosto dos seus comentários, especialmente este acima!!!
      abraço
      Irene

    3. A Igreja, enquanto instituição, continua fechada ao diálogo. Onde não consegue convencer, ela simplesmente se impõe, e continua a querer infantilizar os católicos. E sempre em nome da “obediência”.
      A Igreja, enquanto instituição, precisa de conversão, que vai além de mudanças em gestos,palavras,vestimentas,etc. Precisa-se de uma conversão que implique mudança de mentalidade. A Igreja( enquanto instituição, é preciso deixar claro)está imbuída de machismo, autoritarismo e tradicionalismo de tal forma que uma mudança de mentalidade que interfira na mudança de atitudes será mesmo uma milagre.
      Esta mentalidade, infelizmente, está presente, inclusive,na maneira como nossas dioceses e paróquias se organizam. A rigidez da hierarquia,apegando-se de tal modo ao poder, não consegue abrir-se totalmente aos Carismas que o Espírito Santo concede à Igreja-Povo de Deus, e assim a própria hierarquia acaba por abafar a Voz do Espírito. Este,porém, é Livre e sopra onde e como quer.

    4. Como ainda estamos distantes de uma Igreja humanizada, integrada, participativa com os mesmos direitos e deveres de todos os batizados e batizadas!!! Mas é preciso lutar para conquistar o que pertence a todos e a todas. Os mais fracos e medrosos é que abandonam o barco andando. Como as religiosas do mundo inteiro estão mais inseridas no meio do povo, principalmente do povo abandonado, é preciso persistir para converter a elite enferrujada da hierarquia da Igreja. O Grande Vencedor será o Reino de Deus crescendo e se alastrando com raízes, tronco, galhos, folhas, flores e frutos!

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