Adroaldo Palaoro – 13 Agosto 2021 – Foto: DAQUI
A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho da Festa da Assunção de Maria, ciclo B do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto de Lucas 1,39-56.
Eis o texto.
Com Maria,
- o destino de uma mulher grávida não se limita a “dar à luz”e criar filhos,
- mas que deve ampliar muito mais seu horizonte de vida.
- O horizonte de uma mulher que segue a Jesus Cristo se estende até onde a missão, ativada pela sua fé, pode levá-la.
Ao receber a notícia de que seria a mãe do Salvador, Maria
- rompe seus espaços estreitos,
- sai de seu ambiente cotidiano e entra no dinamismo do Espírito,
- deslocando-se para o serviço gratuito.
Ao encontrar-se com Isabel, ela não pode segurar por mais tempo sua alegria e irrompe em um hino de louvor, o Magnificat, pois a experiência envolvente da grandeza de Deus com a qual se encontrou, instiga-a a exaltá-Lo.
- É um canto que brota de maneira espontânea e que se centra fundamentalmente na face salvadora de Deus.
- Um Deus que fixou nela um olhar amoroso,
- que fez grandes coisas na história do povo de Israel e na vida da própria Maria.
Por isso, as gerações futuras a considerarão bendita.
No seu Magnificat Maria
- canta e faz memória de sua própria história e a de seu povo, à luz da santidade e da misericórdia divinas;
- no “hoje eterno de Deus” tudo adquire sentido, tudo é relido e ressignificado.
- Neste sentido, a proclamadora do Magnificat é verdadeiramente ícone do Povo de Deus que caminha; ela deixa transparecer uma “memória agradecida” diante das ações libertadoras de Deus.
- a capacidade, por um lado, de ser formulada, como o Magnificat, na primeira pessoa do singular.
- E, por outro, a capacidade de unir a sua história concreta ao horizonte mais vasto dos planos de Deus e da missão da comunidade que crê.
Aprendemos com Maria a “ler” a História de uma maneira diferente e instigante.
- A partir da “memória bíblica”, somos convidados a “re-ler” nossa história, pessoal e coletiva, com novos olhos,
- re-construindo-a, dando a ela um novo significado e deixando-nos impelir a escrever uma nova história.
Nossa vida é parte da História, e esta, por sua vez, é formada pelas histórias de nossas vidas, pontilhadas e marcadas pela presença de outras muitas histórias. A História, por si mesma, é provocante e nos fascina; ela tem um estranho poder de sedução.
- Nós nos reconhecemos nas histórias da História;
- isso nos facilita tomar consciência de onde estamos e quem somos,
- e nos ajuda a assumir decisões mais maduras frente aos desafios e surpresas que a vida nos reserva.
A vida só tem sentido quando se torna História, isto é, quando não se limita a repetir o passado, mas quando engendra algo novo e diferente a partir de uma História internalizada e saboreada. É somente no nível mais profundo que o ser humano transforma seu “tempo” em história e seu “espaço” em encontro.
Somos “seres históricos”, mas, muitas vezes, carregamos uma história pesada, reprimida, cheia de fracassos e derrotas; isso alimenta culpas, remorsos, sentimentos negativos…, que nos paralisam e travam o fluir da vida. Todos temos experiência que o passado carrega lembranças de fatos e de vivências negativas: crises, fracassos, rejeições, erros, pecados… Os desencontros, quebras e rupturas… costumam deixar feridas.
Tudo isso pesa na memória e continua influenciando negativamente no presente.
- Com isso, ao nos fixar no passado, alimentamos uma“memória mórbida, doentia, ferida”:
- depósito de rancores, ressentimentos, hostilidades, sentimento de culpa, desânimo, angústia…,
- embotando a vida, queimando energias, paralisando-nos e não abrindo futuro de sentido.
Sabemos que uma pessoa doente na memória é doente no seu coração, na sua afetividade, nos seus sentimentos, nas suas relações…
Se a memória não é “evangelizada”, ela continua remoendo aquilo que aconteceu, num desgaste muito grande de energia.
- Não há mudança e conversão se não houver mudança e conversão da memória.
- Somente através da “memória redentora”, a pessoa é capaz de se colocar diante do passado, de modo livre e aberta, dando-lhe um novo significado.
A memória sadia não muda o passado, mas “re-corda” (visita de novo com o coração) de modo novo e inspirador.
- A memória resgata referências, cura feridas, reconcilia-se com a vida e consigo mesma, com as próprias riquezas e fraquezas, com o próprio passado;
- ela tem sua função de lugar santo do louvor e da gratidão, pois ajuda a tomar consciência dos benefícios recebidos
- e possibilita ter acesso às recordações não neutras, mas aquelas que tem um significado para o presente.
Ela é capaz de tirar proveito de todas as vivências pessoais (nada é descartado, tudo é integrado); abre possibilidade para rever a própria história e lê-la como História de Salvação.
A memória revela a verdade de um acontecimento. Uma memória mobilizadora, aberta ao novo e comprometida com o futuro.
- É através da memória sadia que somos capazes de descobrir a presença Deus na nossa história, tornando-a história da salvação.
- A história pessoal e a história do mundo tornam-se, portanto,
- o “lugar” habitual da experiência de Deus, a montanha da misteriosa sarça ardente que não se consome. Só assim a história se converte em “Epifania” (manifestação) de Deus e permite compreender-nos e aceitar-nos.
Na plenitude final em Deus, toda a história passada será para sempre realizada na eternidade. O céu é apenas esse momento eterno de re-visitar tudo o que fomos, fizemos e sentimos na presença de Deus.
A história se revela, assim, como um húmus vivente, uma atmosfera de graça, uma torrente subterrânea na qual se nutre todo o processo da vida de cada um.
- Não é fora da História e de sua história que a pessoa pode reconhecer a Vontade de Deus e escutar Seu apelo;
- porque “Deus se fez e se faz História” é que a história de cada um e da humanidade inteira adquire uma nova luz e um novo sentido.
Cantar o Magnificat nos possibilita viver o“mistério” da presença e a ação do“Deus na História”. Nesse sentido, assim como Maria, cada pessoa se “contempla a si mesma”, imersa nesse acontecimento de graça que á a história da humanidade, assumindo-a e fazendo-a própria.
A partir do fundamento da História contemplamos nossa própria história (pessoal e institucional): história que deve ser observada, lida, discernida.
Tal experiência
- nos ajuda a abrir os olhos para a novidade inesgotável da vida,
- nos faz“aquecer o coração”,
- desperta em nós o desejo e mobiliza todas as nossas capacidades para um compromisso de ação transformadora na história pessoal e coletiva.
Para meditar na oração:
A História está sempre aberta, desafiando-nos, arrancando-nos de nosso imobilismo, despertando nossa criatividade para ser re-escrita de uma maneira diferente.
- Diante da história pessoal e social, você se sente desafiado(a)? paralisado(a)? com medo? inquieto(a)…?
- Quanto de esperança você carrega em seu interior frente à nossa história centrada na cultura da morte?
- O que faz abrasar o seu coração diante de uma história que parece um contínuo fracasso?

.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/611954-assuncao-plenitude-da-historia-humana-em-deus
Leia mais:
- Assunção: vida plena antecipada
- “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te alimentaram”
- Assunção, Dormição ou Ressurreição de Maria? História e atualidade dessa devoção apócrifa
- Caraterísticas de Maria
- 20º Domingo do tempo Comum – Ano B – Solenidade da Assunção de Maria
- Assunção: plenitude da história humana em Deus
- Um caminho a percorrer
- Há espaço para nós em Deus
- O cântico de Maria ao Deus que liberta
- Revestidos de solicitude
- Dormição da Mãe de Deus. Salvos pela vigilante intercessão
- Seguidora fiel de Jesus
- Assunção de Nossa Senhora – Ano B
- Assunção de Maria: os “trânsitos” e as “dormições”
- “Morte e ressurreição, a Assunção de Maria”. Artigo de Xabier Pikaza
- A festa da Dormição de Maria na tradição bizantina: hoje, o céu abre o seu ventre
- A Dormição de Maria nos textos litúrgicos das tradições sírias
- Solenidade da Assunção de Nossa Senhora
- Visitação: o encontro com o outro faz saltar a vida em nosso interior
- Assunção de Nossa Senhora
- O Trânsito de Maria deste mundo para o Pai
- “A Festa da Assunção convida as pessoas a olhar para o céu com esperança”, diz o papa
- Francisco encerra polêmicas seculares sobre Nossa Senhora: Maria é mãe e não deusa nem corredentora, expressões às vezes exageradas
- Mensagem a Medjugorje revela “marianismo clássico” do Papa Francisco
- Como celebrar a Assunção de Maria diante dos escândalos de abuso sexual?
- “Morte e ressurreição, a Assunção de Maria”. Artigo de Xabier Pikaza
- Por que os bispos continuam “consagrando” seus países a Maria? Artigo de Hendro Munsterman
- Jovens na escola de Maria. O vídeo do Papa Francisco
- O cântico de Maria ao Deus que liberta
- Outros Comentários do Evangelho
- Ministério da palavra na voz das Mulheres
