
Lucas Gama Lima – 28 Julho 2021
Mulher mostra saco de ossos de boi distribuidos por açouge em Mato Grosso: É A FOME – Foto: DAQUI
Eis o artigo.
Atualmente, um dos temas mais comentados é o crescimento avultado de vítimas da fome durante a pandemia de COVID-19 no Brasil. Certamente, uma das mais graves crises de insegurança alimentar das últimas duas décadas.
São vinte milhões de pessoas, aproximadamente, sem ter o que comer e mais da metade da população brasileira sofrendo diferentes níveis insegurança alimentar [ii].
Dois dos episódios mais recentes dessa grave crise vieram à tona na última semana.
- Imagens de prateleiras de um supermercado, em Cuiabá/MT, amplamente divulgadas nas redes sociais,
- mostravam a venda de fragmentos de arroz e de bandinha de feijão para consumo humano.
- São produtos que, anteriormente, eram destinados à ração animal e/ou descartados.
Também provenientes da capital mato-grossense, circularam vídeos e imagens de pessoas numa enorme fila, à espera da doação de ossos bovinos por parte de um açougue. A frase do proprietário do estabelecimento, em uma determinada entrevista [iii], é bem ilustrativa do que ora descrevemos:
- “Até o ano passado, vinham em busca da doação cerca de 30 a 40 pessoas. Atualmente, às vezes há mais de 200 pessoas na porta.
- O fato é que o número aumentou dessa forma devido à fome.
- Nós doamos alguns ossinhos, o que não é muita coisa, mas fazem muita diferença no dia-a-dia deles”.
Não se pode afirmar que o aumento do número de famélicos no Brasil, durante a pandemia de COVID-19, é um evento inesperado ou acidental. Vários foram os estudos e as publicações que advertiram sobre essa possibilidade, a exemplo de artigo escrito por mim, em meados de abril de 2020, sob o título
“Se esperarmos o agronegócio, morreremos de fome: população em quarentena quer alimentos e não commodities” [iv].
Lamentavelmente, o desenrolar dos acontecimentos confirmou o temível prognóstico.
- As determinações essenciais do fenômeno da fome no Brasil permanecem incólumes.
- As políticas públicas de segurança alimentar e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) foram desmontadas ou fragilizadas,
- especialmente, entre 2019 e 2020, na primeira metade do mandato presidencial de Bolsonaro.
O agronegócio continua ocupando amplas faixas de terra, dotadas de boa disponibilidade hídrica e próximas às grandes concentrações populacionais e às principais rodovias. Além disso, canaliza generosos subsídios estatais para a produção de commodities que integram as cadeias globais de produção de valor, como a circulação de alimentos, energia e celulose.
- A despeito das notícias do aumento da fome e do encarecimento de preços dos itens da cesta básica [v] – que têm escandalizado o país desde o segundo semestre de 2020 [vi]
- – a exportação de commodities pelos operadores do agronegócio não para de bater recordes na pandemia de COVID-19.
De janeiro a abril de 2021
- a exportação de soja alcançou algo próximo de 34 milhões de toneladas, quantidade superior à recordista marca de 31,9 milhões de toneladas, registradas no mesmo período de 2020.
- A exportação de milho, acreditem, registrou alta de 1.854% em abril de 2021, estimulada pela especulação do grão na Bolsa de Chicago [vii].
- O arroz com casca e o arroz sem casca e parboilizado atingiram a segunda e a terceira maior marca de exportação, respectivamente, dos últimos onze anos [viii] (2010-2020).
Os lucros ostentados pelos operadores do agronegócio, no âmbito da pandemia de COVID-19, falam por si só.
- A JBS, uma das maiores processadoras de proteína animal do mundo e dona da marca Friboi, encerrou o último trimestre de 2020 com lucro líquido de R$ 4 bilhões, o que representa um crescimento de 65% em relação ao mesmo período de 2019 [ix].
- A BRF, controladora das marcas Sadia e Perdigão, anunciou um lucro líquido anual de R$ 1,4 bilhão, elevação de 14,6% em relação ao ano de 2019 [x].
- A norteamericana BUNGE, trading global, com várias operações no território brasileiro, anunciou um lucro líquido de 551 milhões de dólares, no quarto trimestre de 2020 [xi], e já celebra o fato de ter mais que triplicado seus ganhos no primeiro trimestre de 2021, quando comparados ao mesmo intervalo de tempo do ano anterior [xii].
Em resumo, o agronegócio não interrompeu sua marcha e nem mesmo o desespero de quem aguarda numa fila por um “ossinho” mostrou-se capaz de sensibilizar seus operadores.
Por sinal, não nos parece coincidência que
- os casos de comercialização de fragmentos de arroz e bandinha de feijão,
- bem como a doação de ossos bovinos tenham ocorrido em Cuiabá.
A capital mato-grossense está no coração do agronegócio brasileiro,
- onde circundam os hectares a perder de vista dos monocultivos agrícolas,
- as indústrias processadoras de grãos e proteína animal
- e os depósitos das tradings.
É, portanto, território da riqueza e da miséria.
Se o agronegócio
- prosseguir ditando a dinâmica do uso da terra, o destino da produção agrícola e se apropriando de parcelas importantes do fundo público,
- não serão poucos os episódios de filas por “ossinhos”, venda de ração animal como alimento humano, etc, etc.
E não adianta alavancar o encarceramento de pessoas por furto de comida [xiii] – como tem ocorrido durante a pandemia de COVID-19 no Brasil – em ações que nos fazem recordar a comovente história de Jean Valjean, personagem do genial Victor Hugo, igualmente condenado por crime famélico na França do século XVIII [xiv].
Que possamos, logo, encerrar essa barbárie!
Notas:
[ii] Disponível aqui.
[iii] Disponível aqui.
[iv] Disponível aqui. Também disponível aqui.
[v] Disponível aqui.
[vi] Disponível aqui.
[vii] Disponível aqui.
[viii] Disponível aqui.
[ix] Disponível aqui.
[x] Disponível aqui.
[xi] Disponível aqui.
[xii] Disponível aqui.
[xiii] Disponível aqui.
[xiv] HUGO, Victor. Os Miseráveis. São Paulo: Martin Claret, 2007.
Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU
No dia 29/07, quinta-feira, o Prof. Dr. Sérgio Amadeu, da UFABC, ministrará a palestra Tecnologia e fome. A uberização do alimento e as big techs na digitalização do agronegócio. O evento será transmitido ao vivo pela página inicial do IHU, YouTube, Facebook e Twitter. Mais informações podem ser consultadas aqui.
Tecnologia e fome. A uberização do alimento e as big techs na digitalização do agronegócio

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Lucas Gama Lima
Leia mais:
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- Alimento e nutrição no contexto dos Objetivos do Milênio. Revista IHU On-Line Nº 442
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