
José Alcimar de Oliveira* – 18/07/2021
Assim que (Jesus) desembarcou, viu uma grande multidão e ficou tomado de compaixão por eles, pois estavam como ovelhas sem pastor. E COMEÇOU A ENSINAR-LHE MUITAS COISAS – (Mc 6,34).
1. Assim como Alain Badiou se refere a Paulo como o Lênin de Jesus, e a Jesus como o Marx de Paulo, por minha condição de teólogo sem cátedra e de defensor de uma exegese não afinada aos cânones do dogmatismo, concedo-me o direito de afirmar que o evangelista Marcos é o Gramsci de Jesus de Nazaré.
Gramsci se referia a Marx como o filósofo da práxis.
- Marcos é o teólogo da práxis.
- Escreveu o evangelho do movimento, da ação.
- É dele o mais curto dos quatro evangelhos considerados canônicos: apenas 16 capítulos, em 27 páginas, na versão em português da Bíblia de Jerusalém, aí incluído um rico aparato crítico.
Mas como o Nazareno sempre excederá os limites de uma definição,
- a natureza de sua práxis (palavra e ação) pode, sob medida dialética,
- também ser pensada como protoanarquista, num devir afinado às figuras de Bakunin e Kropotkin.
2. Na epígrafe acima, reproduzi o último versículo da leitura do texto (Mc 6,30-34) deste 16º Domingo Comum, 18 de julho de 2021, lido em todas as igrejas católicas do mundo. Nos versículos seguintes encontramos o relado da primeira multiplicação dos pães.
Depois de muitas coisas ensinadas à multidão (entregue a si mesma e desorganizada como “ovelhas sem pastor”), os discípulos se dirigem a Jesus e o orientam a despedi-los, pois já era tarde, estavam num lugar deserto e todos estavam famintos.
Jesus reprova a atitude dos discípulos e ordena:
“Dai-lhes vós mesmos de comer” (6, 37).
O relato do evangelista Marcos é o que devota mais atenção à humanidade de Jesus de Nazaré:
- numa hora está tomado de cansaço, noutra dorme, se entristece, sofre, repreende.
- Nunca tem tempo para si e está sempre cercado pela multidão.
3. Jesus havia lido, de forma antecipada, num poema de Brecht que “a justiça é o pão do povo”.
Leitor também dos Profetas Isaías, Jeremias e Ezequiel,
- ele se recusa a proceder como os dirigentes religiosos e a elite política de Israel,
- que há séculos se dedicavam ao trabalho sujo de dispersar e extraviar o seu povo.
Ele e os discípulos organizam o povo em grupos e promovem a partilha da palavra e do pão.
- A prática de Jesus é outra.
- Evangelho é saída, devir.
- Doutrina é prisão, fatalismo.
Como sabiamente nos ensina o jovem sacerdote, teólogo e historiador belga de 90 anos, Eduardo Hoornaert, no Brasil desde 1958,
- o movimento iniciado por Jesus de Nazaré não se deixou capturar pela teleologia do poder, nem religioso, nem político.
- Ele continuamente confronta e sustenta o conflito com os poderes político e religioso.
A leitura de Marcos põe em relevo a fé vivida pelo Nazareno num ambiente sempre hostil, de contestação, de rejeição.
4. Num texto recentemente publicado em seu blog http://www.eduardohoornaert.blogspot.com, intitulado com aspas “O Papa Francisco não resolve nada”,
Hoornaert
- nos dá uma aula sobre o movimento anarquista
- e faz lúcidas e heterodoxas aproximações entre Jesus de Nazaré, o Papa Francisco, o cinismo de Diógenes e os anarquistas Bakunin e Kropotkin.
As atitudes de Jesus de Nazaré são sugestivas de um anarquismo embrionário.
O Galileu teria saudado com alegria a experiência da Comuna de Paris, de 1871, entusiasticamente vista por Bakunin como “uma negação ousada e franca do Estado”.
- Ao insurgir-se contra o regime da posse e do acúmulo de bens (que será naturalizado pelo sistema do capital),
- Jesus de Nazaré, segundo o relato do evangelista Marcos, ordena aos apóstolos que em seu trabalho militante
“não levassem coisa alguma para o caminho, senão somente um bordão; nem pão, nem mochila, nem dinheiro no cinto; como calçado, unicamente sandálias, e que se não revestissem de duas túnicas” (6,8-9).
Como observa o Mouro de Trier: a propriedade privada torna as pessoas “cretinas e unilaterais”.
5. Só aparentemente, conforme Hoornaert,
“o Papa Francisco dá a impressão de desconhecer tão impressionante painel histórico. Simplesmente deixa cair uma frase que desmancha tudo: ‘não se deve dar preferência a espaços de poder’ (Exortação Apostólica Amores Laetitia, 2016).
Trata-se de incentivar processos, dinamizar a ação, colocar a Igreja em marcha.
- Abandonar a ideia da centralidade da Igreja na construção da sociedade,
- militar na construção da justiça e da misericórdia, do encontro e do diálogo
- sem se ocupar com espaços de poder?
Um programa abrangente, uma convocação para além de clausuras culturais e confessionais.
- Todos são convocados:
- “crentes e descrentes, católicos e ateus, cristãos e islamitas, comunistas e liberais, chineses e ocidentais”.
Até quando a Mãe Terra ou, segundo Espinosa, Deus sive Natura, suportará a cultura do ódio, dos nacionalismos e da entropia do atual paradigma civilizatório?
6. Se considerado como um protoanarquista, Jesus de Nazaré estará na classificação de revolucionário ineficaz conforme definição do historiador marxista Eric Hobsbawm:
“A ineficácia das atividades revolucionárias anarquistas poderia ser amplamente documentada em todos os países onde essa ideologia teve um papel importante na vida política”.
Penso que o evangelista Marcos discordaria da avaliação de Hobsbawm sobre a ineficácia da ação revolucionária do protoanarquista Jesus de Nazaré.
- Jesus de Nazaré não apostou na eficácia de uma missão modulada pelo tempo curto, que cria expectativas de resultados imediatos.
- Fez o devir da paciência do conceito de Hegel na Alemanha, temperada para a paciência da ação na tostada pátria palestinense.
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Não cedeu à bem-intencionada, mas apressada revolta do zelotismo e dos movimentos revolucionários de seu tempo. Optou por fazer uma revolução a pé, de casa em casa, de aldeia em aldeia. Não tinha pressa, combinava experiência de vida, intuição e leitura de mundo.
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Sem leitura nenhuma de Freud ou Lacan,
“não necessitava que alguém lhe desse testemunho do homem, pois ele sabia o que havia no homem” (Jo 2,25).
O mal e o bem se dissimulavam com surpreendente eficácia, como no Brasil de 2021, em que poder e bom senso seguem em regime de apartação.
7. O seu movimento (e vivamente recomendo o excelente livro de Hoornaert, O movimento de Jesus) se inicia por surpreender o seu círculo familiar na pequena, pobre e muito mal afamada cidadezinha de Nazaré:
“Quando chegou o dia de sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos o ouviam e, tomados de admiração (afinal nunca cursou a hoje afamada Escola Bíblica de Jerusalém), diziam:
- donde lhe vem isso? Que sabedoria é essa que lhe foi dada, e como se operam por suas mãos tão grandes milagres?
- Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas, e de Simão?
- Não vivem aqui entre nós também suas irmãs? ” (Mc 6, 2-3).
Jesus admirava-se da desconfiança dos seus conterrâneos, mas não se intimidava
“e, ensinando, percorria as aldeias circunvizinhas” (Mc 6,8).

*José Alcimar de Oliveira
é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 18 dias de julho do ano do morticínio de 2021.
Fonte: Texto enviado, via e-mail, pelo autor
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Nota do Autor:
É bom comentar o texto de João sobre a ‘verdade’ e insistir: para a Bíblia, verdade é ação, ou seja, se manifesta na ação. Uma teologia da ação. Como no livro ‘O tempo da ação’ (1982) de José Comblin.
De fato. Sem a ação a verdade se reduz ao plano formal, abstrato, metafísico. Como afirma a segunda tese de Marx sobre Feuerbach: é na práxis que se deve comprovar a verdade.
Em Jesus de Nazaré não há descompasso entre o dizer e o fazer. Era o que mais ele condenava nos fariseus.